Guto Leite: Abrindo trilhas – Bacurau

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de SBS Distribution

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Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é um filme de ficção. Ponto. Não pode, portanto, ser resumido a um comentário da realidade, por mais que isso faça bem à sua bilheteria – no Brasil, o longa arrecadou dois milhões de reais na primeira semana de exibição. Mesmo sendo uma urgência nossa, não do filme, vê bem, não podemos cobrar dele uma saída para o atual impasse brasileiro. Também acho que não podemos forçar interpretações que nos deem uma versão do real que gostaríamos de ver e de ouvir.

Esteticamente, Bacurau é um filme bem realizado. Os ritmos da história, as atuações, a fotografia, a arte, o som; tudo converge para uma obra pra se ver de novo. Representa-se ali um sertão nordestino não reduzido a precariedades e problemas sociais, não carregado de atrasos, de carcaças e de cores pardas. Os cidadãos de Bacurau mantêm relação orgânica com a tecnologia, são pedagogicamente avançados, elaboraram uma vida verdadeiramente comunal e desenvolvem estratégias de como lidar com as lideranças políticas locais. A combinação da autonomia da população e certa radicalidade são a razão de seu relativo sucesso contra a investida estrangeira, o que comentarei adiante. São notáveis as referências ao Cinema Novo (Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra), a westerns dos anos sessenta- setenta (como Meu ódio será tua herança, de Sam Peickinpah, e Keoma, de Enzo Castellari) e a diretores mais “contemporâneos”, digamos, como John Carpenter e Quentin Tarantino. Talvez haja ainda algo do thriller sociológico de Corra!, de Jordan Peele, ou da distopia de Branco sai, preto fica, de Adirley Queirós.

Mais importante do que as referências é, por contraste – e esta foi minha primeira sensação saindo do filme –, perceber que Bacurau revela o substrato fascista de boa parte do cinema estadunidense, em que homens comuns ou super heróis, por razões diversas, inclusive mimetizadas nos diálogos dos matadores do filme – traumas, chamado divino, vingança, justiça etc. – promovem chacinas para a excitação da audiência. É importante dizer que o filme trata de uma chacina falhada, ou uma chacina impedida pelos cidadãos de Bacurau.

(Para não perder o ponto, creio que o longa brasileiro até tenha procurado provocar distanciamento ao alterar o ritmo ou o enquadramento costumeiro dos filmes de ação massivos. Mas quem não gosta de ver um “americano” perder a cabeça? Imagino que a inevitável catarse pela violência contra o opressor, concretizando em palmas, urros e posts no Facebook, “o Lunga que há em mim saúda o Lunga que há em você”, talvez tenha surpreendido os diretores quanto à recepção que esperavam.)

O filme tem o grande mérito de dar a ver articulações muitas vezes invisíveis entre o capital e a violência. Primeiro: quem manda está fora de quadro. O ponto. Segundo: o extermínio e a violência se dão em chave de jogo (reality show) a partir da mobilização perversa de cidadãos comuns. Desculpa dizer, mas o capitalismo é um sistema complexo de mediação da violência. A barbárie não é o avesso dessa civilização, mas sua engrenagem. Não somos diretamente responsáveis pela fome dos que têm fome, mas indiretamente sim. Forçando a nota anti-imperialista, mesmo inocente, todo norte-americano é um assassino. Seu way of life responde, diariamente, pelo extermínio de comunidades fora do mapa pelo mundo. O filme explicita essas relações. Terceiro: os subalternos (do sudeste ou o prefeito) geralmente se associam para cima no extermínio dos de baixo, eventualmente sendo exterminados junto, como é o caso.

Diante dessa força, qual a possibilidade da pequena comunidade no interior de Pernambuco? É aqui que parte da crítica progressista se embanana, ao entender que o filme aponta para uma possibilidade de revolta, um incentivo à militância e ao engajamento. O que cabe a Bacurau é uma resistência reacionária, uma luta violenta por sobrevivência. A violência do oprimido evidentemente não é do mesmo tipo que a violência do opressor, embora também cobre seu preço. (Não dá pra confundir Bacurau com Tropa de elite, por exemplo, mesmo que ambos promovam catarse pela violência.) Ao mesmo tempo, o filme é antes alarma do que proposta. Não é o princípio de uma revolução, mas a reação possível, e eficaz, da cidadezinha. A história começa pelo enterro, pelo fim (o que dá pra fazer depois do fim, com a evidência de que restamos vivos?), e termina com a lista de baixas da resistência, sua temporalidade é intervalar.

Concretamente, essa reação do oprimido diante da possível erradicação se dá pelas armas, mas, simbolicamente, é pelo museu, o lugar da história concreta, do passado insurgente, e pela escola, onde a maior parte do grupo se resguarda contra os assaltantes. É a matriarca, Dona Carmelita, a médica, Domingas, e o professor, Plínio, os regentes em tempos de paz, e os bandidos, Lunga, Pacote e Cia., os regentes em tempos de guerra. Melhor explicitar: regentes, e não heróis, pois todos colaboram nas providências, em estado regular ou de exceção. A construção do herói é, já ela, um princípio de subordinação mental ao sistema capitalista, por projeções, fantasias e redução; o que o filme recusa, ou relega aos inimigos.

Vale citar outros achados antes do fim: a androginia Diadorim-cabocla de Lunga, a vivacidade do profeta cantador, a impossibilidade de uma leitura de alegoria nacional, mesmo que os diretores tenham dito isso em entrevista – não há mais um Brasil em unidade, o Sul exibe execuções públicas pela televisão (aliás, de modo geral, a chave da alegoria me parece ruim para ler o filme, ao que prefiro um realismo de estrutura) –, a oposição do psicotrópico aos medicamentos enviados ao povoado (o transe orgânico no lugar do transe da culpa de classe, de Glauber) e a linha de espetacularização que percorre todo o filme, desde o carro de som ao drone retrô, que pode até transmitir o genocídio em escala global (por hipótese, o satélite do começo do filme). Há questões graves tratadas de maneira demasiadamente laterais, como o estupro da prostituta, a tensão entre os habitantes do vilarejo e a família proprietária da fazenda ou a escassez de água, mas servem, ao mesmo tempo, para a obtenção de uma versão não simplificada da cidade sertaneja. 

(Há ainda uma última contradição, importante de ser marcada, entre a trilha, centrada em Réquiem para Matraga, de Vandré, e a história. “Se alguém tem que morrer / Que seja para melhorar” não parece cantar a realidade futura de Bacurau. A bem dizer, se seu passado é enorme, o futuro do vilarejo é curto. A estetização dessa subtração do futuro talvez seja o maior mérito da obra.)

Bacurau é filme importante para esses tempos. Para nosso azar, não aponta saídas; ilumina o problema. O depois do filme indica um agravamento da condição da vila, que talvez enfrente inimigos mais poderosos e invencíveis. Se pegarmos em armas podemos defender nosso modo de vida por um tempo, eliminando aqueles que fazem o trabalho sujo do capital, do espetáculo, do lucro, do lúdico perverso, um bando de pobres-diabos que gozam com a morte do casal de idosos. Como dar um tiro na mão invisível, no céu, no ponto? O filme está carregado dessas ambivalências, cedendo somente aqui e ali a uma solução simplificadora.

*Este texto foi pensado coletivamente pelo grupo de pesquisa de canção do Instituto de Letras da UFRGS. São co-autores: Carla Müller, Carolina Pfeiffer, Natália Salvetti, Nathielle Nogueira, Pedro Manica e Wellinton Camargo. Também deve suas linhas a discussões com os professores da UnB: Alexandre Pilati, Ana Laura Corrêa, Bernard Hess, Edvaldo Bérgamo, Eloísa Pilati; além do professor da UBA, Francisco Chicote.

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Guto Leite é cancionista, escritor e professor. Formado em Linguística pela Unicamp, especialista, mestre e doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, onde leciona. Vencedor de dois prêmios Açorianos, um de literatura, outro de música. Organizador eventual de encontros sobre canção, literatura e cinema. Já ministrou mais de cento e vinte palestras em escolas públicas e feiras de livro.
Foto: Léo Andrades

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Literatura RS

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