Atena Beauvoir: Os dentes afiados da Mina Guaíba

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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A lembrança é o espelho do passado que nos faz rememorar a história do nosso povo. Não do povo gaúcho ou brasileiro, mas do povo latino-americano que somos e muitas vezes não recordamos com lucidez existencial. Este texto destina-se a todas as vidas que foram geradas nos últimos 100 anos nestas terras, e permanecem vivas e sobrevivendo, poucos de nós, sóbrios de existência.

Se na estrada da construção dos territórios dos países que aqui estão, no centro e sul desse comprido continente, não conseguimos ler em nossas vidas o sanguinário espectro de um fantasma que ronda nossa presença da fronteira mexicana à ponta chilena, Eduardo Galeano nos rememora ao dizer que “nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta.” E creio que boa parte de nós, latino-americanos, não sabemos o que fazer com os buracos históricos cravados na exploração das terra que habitamos.

Hoje as caravelas europeias, marcas mercantis do capitalismo voraz, estão transformadas no livre comércio sem responsabilidade com os verdadeiros donos dessas terras: as populações tradicionais, as aqui fixadas pela escravidão e todas as descendências que nos marcam as atuais dificuldades sociais. “Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neo-colonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno”. E complemento o escritor uruguaio ao dizer que não poupam palavras escritas ou ditas, mas sempre econômicas intelectualmente. Urge captar não recursos fiscais ou um desenvolvimento econômico, mas a crença de que a política dos governos atuais não carregam nem responsabilidade financeira ou ambiental, quiçá responsabilidade histórica, permitindo através das suas estruturas a deliberada inserção de empreendimentos que tendem a empreenderem para si e nada mais.

Uma empresa de mineração quer abrir, entre 2019 e 2020, a maior mina de carvão a céu aberto do Brasil, próxima ao rio Jacuí, entre Charqueadas e Eldorado do Sul, ao lado da capital porto-alegrense. E o que fazemos nós, que habitamos essa capital? “As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos”, com alegações de que não há metais pesados perigosos à saúde humana nesse movimento que visa, segundo a própria empresa, gerar um futuro econômico interessante para o Estado. Se você que me lê não conhece ainda o que aconteceu e está acontecendo em nossa história, “os fantasmas de todas as revoluções estranguladas ou traídas, ao longo da torturada história latino-americana, emergem nas novas experiências”, para afirmar que estamos revivendo o passado pré-colonial, apresentando-se em roupagem tecnológica e empresarial, propondo que não podemos atrasar o desenvolvimento que, nós sabemos, privilegiará tão poucos, muito poucos, o império burguês existencial.

“A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi e contra o que foi, anuncia o que será”. E se depender do passado, a Mina Guaíba repetirá nosso sangue derramado, de forma paulatina e em longo prazo, nas prováveis doenças que serão geradas através da contaminação do ar e da água.

Gostaria que o governador do nosso estado, que os prefeitos das cidades, que os deputados a favor desse empreendimento escutassem a voz da história na voz dos verdadeiros donos dessa terra, aqueles que estão com as marcas das dentadas nas gargantas de suas existências e que sentem novamente o fincar na jugular a explorar mais e mais.

Pesquise sobre Mina Guaíba Não, sobre +350.org, sobre a repetição da história que nos entristece contada no livro As veias abertas da América Latina e aqui citado. Compartilhe com sua família, amizades, afetos. Discuta nos espaços de trabalho, estudo e lazer. Não permitiremos tal comarca, representada nessa historicamente imatura ideia de termos uma mina de carvão mineral em pleno portão de casa.

Agora são 3:20 da madrugada e ainda desacredito que os nossos tempos vão necessitar em nós o resgate da dignidade, da diplomacia, mas acima de tudo da democracia, que talvez nunca tenha morrido com o golpe de 2016 ou a ditadura em 1964, mas “quando Felipe II afirmara, perante o tribunal de Guadalajara, que um terço dos indígenas da América já tinha sido aniquilado” em 1581.

A literatura de Galeano nos relembra as atrocidades esquecidas. A nossa literatura atual está a ser publicada em nossas existências. Temos dois destinos: morrermos de exploração existencial ou lutarmos para reescrevermos a história latino-americana, viva em nós!

Se você não teme os dentes afiados da Mina Guaíba, certamente você beberá do sangue escorrido dessas históricas veias abertas.

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Atena Beauvoir Roveda é natural de Porto Alegre. É escritora e poetisa, professora e filósofa. Em 2016, recebeu Menção Honrosa pela atuação em defesa e promoção da dignidade humana de LGBTs na cidade de Canoas/RS. É colaboradora da Rede Trans Brasil e Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans. Idealizadora da Nemesis Editora para publicação de literatura invisível e transantropológica na área de filosofia existencialista.
Foto: Diego Lopes/CRL

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Literatura RS

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