Maiara Alvarez: ah, Nanda

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

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Tive vontade. Tive, mesmo. De dar um tapa na cara, bem dado. Um tapa na cara da Nanda. Um tapa na minha cara.

Era só isso mesmo que eu queria dizer sobre o romance Controle, de Natalia Borges Polesso. Mas o editor disse que precisava escrever mais. 

Tá, gente, o editor não disse nada disso. Vocês acreditam quando alguém fala alguma bobagem dessas? Bobagem me descreve. Como me senti idiota lendo a história da Nanda. Seria comum e justo se sentir como a protagonista do livro, de um livro, de qualquer livro? Eu e a Nanda temos muito pouco em comum. Eu não sofro de epilepsia. Minhas temporadas curtas no hospital foram ocasionadas pelo meu rim. O direito. O que não funciona direito. O necrosado, inerte, incapaz. Nada parecido com cérebro excitado largando descarga enlouquecidamente da Nanda. Adianta tirar os pedaços?

O meu rim não me incapacitou em nada, muito menos influenciou na minha vida social. O máximo que eu faço é não ficar de biquíni molhado. Tomar bastante água. Cuidar o sal. Não segurar o xixi. E fazer xixi depois de transar (ajudar a limpar a uretra). Tudo que uma pessoa com dois rins saudáveis também deveria fazer. Eu não preciso contar, avisar para as pessoas que o meu cérebro pode resolver dar um tilt a qualquer momento só porque, sim, ele quer e pronto.

Ainda assim, eu tive vontade de bater na Nanda. Bater mesmo, fisicamente. Estapear esse falta de vontade, falta de vida, para fora desse corpo, dessa cabeça. Porra, Nanda. Olha como tu trata teus pais, guria. Guria, aliás, 30 anos e em casa. Como que eu faço, Nanda? Como que eu faço para arrancar de ti essa falta de qualquer coisa? Essa falta de vida, de vontade de vida?

Eu, que sou uma pessoa contra qualquer tipo de violência, daria minha mão à palmatória, ou melhor, daria a mão da Nanda à palmatória. Se isso a arrancasse do vazio, da completa falta de energia da depressão, eu batia. Batia em ti até tu sair desse buraco. Essa galáxia toda de imensidão de nada. 

Não funciona, eu sei que não funciona. Talvez um puxão de orelha metafórico. Talvez o que a minha psiquiatra disse: PARA DE TE COMPARAR COM OS OUTROS. O que tu passou é diferente.

Todo mundo tem o direito de sofrer. Até nós, puta privilegiada, que têm os pais para bancar, que citam música em inglês, nós temos o direito de sofrer. Temos mais conforto no sofrimento, é verdade, mas é que sofrimento não tem medida. A física pode mensurar a energia que um buraco negro absorve, mas não vai conseguir colocar em números comparáveis o sofrimento de cada um. A sociedade, sim, caga na cabeça muito mais de quem tá na margem dela. Nós não estamos. O sofrimento, a doença, a dor é que não dá para comparar.

Se essa mesma sociedade chamasse de doença a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático, como faz com a epilepsia e a pielonefrite crônica, o sofrimento iria continuar o mesmo. Só talvez nos trataríamos, a nós mesmas, um pouco melhor.

Vamos andar de bicicleta, Nanda? Correr, se estatelar no chão? Viver?

Vamos? E, me desculpa.

Controle, de Natalia Borges Polesso, conta a história de Fernanda, uma criança que se descobre epilética e como foi a sua vida até ser adulta. A autora, premiada com o Jabuti 2016 pela coletânea de contos Amora, também publicou Recortes para álbum de fotografia sem genteCoração à corda e Pé atrás. Tem seu trabalho traduzido para o inglês e o espanhol. Controle é seu primeiro romance.

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Controle
Natalia Borges Polesso
Romance
176 p.
14 cm X 21 cm
978-85-3593-224-9
R$ 44,90
Companhia das Letras

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Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

Literatura RS

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