Maiara Alvarez: Viagem de volta

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Contar uma vida em um conto. Viver uma vida em um conto. É pedaço ou é cena? É um todo ou rasca só a superfície?

A viagem virou livro.

Um livro de viagens que conta outras viagens. A viagem do Rodolfo, em casa, fazendo o tema de casa. Sobre o que o Rodolfo pensava quando tinha que estar pensando em outra coisa e nem sabia que pensava na primeira.

A viagem virou acalento e beleza.

A árvore da Mariana que contava a vida e o sonho da Mariana que tem final feliz e simples, porque o final feliz é inesperado e simples mesmo. O barco que conta a própria história e que também tem um final feliz. A história dos homens do barco que não está contada, porque nem tudo é dito, mas foi dito sim, está contado no meio das linhas do conto. A viagem de Philippe, a quem não foi dado o direito de viajar, a quem ficou preso na mesma prisão a que a mãe ficou presa. Uma das corridas mais lindas que já li sobre uma tartaruga e sobre outros répteis em geral que na verdade são escultura. O acalento era meu e, de repente, não era mais suficiente.

A viagem virou corrida.

Fugir, fugir da beleza pelo o que ela guarda. Correr das pessoas. Correr das pessoas. Correr das pessoas. De um final que eu não quero, que eu não esperava, quando atravessei o frágil tapume e fui parar nas garras da besta? Eu corri.

A viagem virou atraso.

Outra história sobre mendigo curando pessoas. Quando que pessoas em situação de rua passaram a ter a obrigação de serem o sábio da montanha? Que salva, com suas palavras, o pobre homem, o homem classe média, o homem branco, o homem gringo, da sua futilidade? Quando inventaram que literatura é moral? Quando que, em uma tarde ensolarada de uma claridade invejável, literatura virou adjetivo? Não existem medidas certas para corpos ou para a literatura.

A viagem virou um bar.

Um bar com um drink que diz beba-me e um pastel sabor pizza que diz coma-me. O bar do Alice. Um final que eu não esperava. Ainda estão permitidos os finais felizes, doa o dono de bar que doer. Pode voltar a escrever poema. Pode escrever até um filme. Um conto, parasita. Corra. Corra que o diabo branco acha que querer vida simples é não ter ambição e que está sendo legal em te deixar manter o que é teu, mas, na verdade, ele vai te tirar tudo. A viagem virou realidade. E, na realidade, nem tudo foi dito.

Nem tudo foi dito é o resultado em livro do Projeto Contantes, realizado na cidade Bento Gonçalves, financiado através do Fundo Municipal de Cultura. Fizeram parte da idealização do projeto o produtor Rogério Rodrigues, a bibliotecária e livreira Eunice Pigozzo, tendo como professor e organizador da obra o escritor Douglas Ceccagno. Fazem parte 15 autores: Camila Ferreto, César Anderle, Charlene Dias, Cristina Rosa, Dan Poletti, Eduarda Braun, Enzo Peruzzo de Oliveira, Guilherme Furlan, Guilherme Krema, Isabella Medeiros, Jayne Tubias, Jeniffer Pinheiro, Karine Panizzi, Patrícia Saraiva Seben e Sabrina Dalbello.

Nem tudo foi dito: Projeto Contantes
Vários autores; Dougas Ceccagno, org.
188 p.
14 x 21 cm
978-65-81322-00-7

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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Uma resposta para “Maiara Alvarez: Viagem de volta

  1. Que linda resenha, fruto de uma leitura atenta e permissiva!
    O projeto foi lindo, amei participar. Bento Gonçalves acertou em cheio!
    Que a cultura permaneça sendo um investimento possível; que os livros sejam os resultados de sonhos que podem ser sonhados juntos.

    Uma braço,
    Sabrina Dalbelo

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