Ana Paula Cecato: Mudando o foco, mas nem tanto: sobre o letramento digital

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

No campo da Educação, o consenso nem sempre é a melhor resposta, uma vez que os processos educativos são diversos, como nós todos também somos. A análise do professor Mario Augusto Pool, escrita em resposta ao meu texto “Essa tal educação a distância”, parte de um ponto de vista, o de alguém que estuda e tem vasta experiência no tema; meu texto parte de outro posicionamento, o de uma professora de escola pública municipal, que atuou por bastante tempo nas periferias das cidades, e, agora, atua na rede pública federal, cujo público também carece de acesso à tecnologia. Conto dois pequenos episódios deste período de isolamento social, os quais, talvez, demonstrem um pouco desta experiência: uma ex-colega da rede municipal de Porto Alegre encontrou a família de um aluno no bairro onde fica a escola, a Restinga. A mãe estava muito chateada, pois a escola estava enviando atividades e ela não tinha como imprimi-las, tampouco acessá-las por muito tempo, visto que tinha um celular pré-pago, o qual recarregava semanalmente. Chegou a dizer para a professora que tinha de escolher: ou recarregava o celular ou comprava comida. Essa colega, compadecida da situação, disse que ela tinha de escolher a comida, e foi comprar uma cesta básica para aquela família. Outra situação: uma turma de EJA, em que muitos alunos não têm e-mail, tampouco sabem como criar uma conta. Ou quando não memorizam a senha e precisam criar outra conta.

Bem, podemos pensar assim: quando não se sabe, ensina-se. Por isso, defendo que seja necessário inserir, nos currículos escolares, práticas de letramento digital para os estudantes, desde o Ensino Fundamental. Nos cursos de licenciatura e de formação continuada para professores, também. Não podemos conceber que a inclusão digital se constitua apenas em ter um perfil no Facebook ou uma conta de WhatsApp, feita de compartilhamentos de discursos de ódio e de figurinhas de bom dia.

É verdade que a cultura digital está presente na vida de todos nós, e não podemos refutá-la. Não devemos. O uso das novas tecnologias precisa de mediação, um processo em que o aluno é orientado a como utilizar ferramentas para participar de espaços virtuais com autonomia e criticidade. O fenômeno das fake news é valioso para nos dizer para onde a falta de mediação tecnológica pode nos levar. Para os professores, temos de conhecer as bases teóricas e práticas do ensino a distância, estudar as metodologias ativas, o ensino híbrido, a sala de aula invertida, a gamificação, a fim de que a tecnologia seja uma facilitadora da aprendizagem. No estudo da Literatura, a proposta de articular outras linguagens artísticas e digitais (jogos de videogame, RPG, fanfiction) traz elasticidade para a interpretação do texto literário, que dialoga com as produções culturais que o alunado conhece e consome.

Porém, discordo do meu interlocutor fortemente quando afirma que os professores que não se adequarem a determinado modelo de ensino, que evidencia o uso das tecnologias, serão vencidos ou escanteados pelo sistema. Quando pergunto para crianças pequenas as histórias das quais mais gostam, elas lembram sempre de alguma contada por seu cuidador ao pé da cama, ou de alguma história narrada pela professora. Poderia contar também, de muitos adultos que recordam da voz e da presença de um professor em sala de aula, como relatei no meu primeiro texto. Existem aprendizagens que precisam do afeto da presença. Do afeto do improviso. Será que uma aula a distância consegue reproduzir a incursão de uma criança na história contada pelo outro? Uma risada inesperada? Um comentário? Uma história que começa assim: “lá na minha casa…”. Não há tecnologia mais eficiente do que o corpo humano e sua capacidade de compartilhar sensações, percepções e aprendizagens.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura. Foi jurada do prêmio Jabuti de 2019, na categoria Fomento à Leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

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