Maiara Alvarez: Vou quebrar a primeira regra; e a segunda também

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Vamos começar por onde você pode, ou melhor, vai me julgar: eu não gosto de Clube da Luta. Atente que não estou dizendo nada sobre a qualidade ou não do livro ou da adaptação cinematográfica — esta última que até me cai. Estou falando da violência que vem do poder. Que, por si só, tampouco me incomoda; a tentativa de justificar a violência, ou pior, de fazer da violência algo a ser CULTuado, é que me deixa nervosa e indignada. Principalmente quando me lembra a violência incel.

Do outro lado  — de mim mesma, no caso — eu gosto de histórias que, invariavelmente, vão envolver violência, inclusive psicológica. Existe alguma violência que não é também psicológica? Não sei. A violência não é novidade na história da humanidade, muito menos nas histórias que a humanidade cria. Tampouco é contida, ainda que “artística”, embora possa ser organizada e normalizada. E tratar de violência é algo que demanda um investimento de empatia. Isso mesmo. Tratar de violência é algo que demanda um investimento de empatia.

Ela — a violência — serve, nas organizações que construímos, como uma das ferramentas de estabelecimento e manutenção de poder. Dentro de casa e em família, nos castigos e nas ações obrigatórias, ela está lá. Me lembro de Eduardo Galeano descrevendo as cenas comuns de violência em A cultura do terror/2 e sou transportada para uma que me aterroriza: o quarto escuro. 

Não sei se proposital, mas o livro de Doralino Souza, Dentes no copo de uísque & outros contos de crime, apresenta essa dicotomia de várias formas que não estão necessariamente nas palavras de seus sangrentos contos: a troca intermitente da cor das páginas, a divisão da obra em duas partes, o intercâmbio de sujeitos narrativos. Entre várias histórias dispersas em cerca de cem páginas, também é presente e comum que se construa individualmente o sentido da violência: a vingança, que pode resumir a maioria delas, entretanto, se delimita sob diferentes focos a cada conto.

E o motivo de eu falar da obra de Palahniuk é por ela apresentar Dentes no copo de uísque. Eu não vi, em Clube da Luta, a construção da violência. Ela é honesta no sentido de reação, mas também embeleza a falta de empatia. O personagem principal quase passa por um cara legal. Um cara legal, assim, de um jeito rebelde. De um jeito psicológico muito louco. Ou de um jeito que pessoas usariam várias palavras difíceis pra descrever.

Escrever violência a partir de um ponto de vista empático é uma das coisas que considero mais difíceis na arte narrativa e, principalmente, na construção de personagens. É possível, então, fazer isso em contos de duas páginas? Ou de uma? Não sei porque eu fiz essas perguntas clichês, a resposta é que sim, é possível. E eu confesso que senti medo ao ler a epígrafe, mas ao virar as páginas, fui surpreendida pela alegria dicotômica de se entreter com a violência.

As narrativas são curtas e concisas, ênfase no “e”, na soma das duas coisas. A luz do narrador se dá sobre diferentes lugares e diferentes personagens, gerando finais bruscos e inesperados. A descrição é econômica e eficiente. E o livro se alterna, nomeadamente, entre a solidão e o desespero. O que entendo como uma tentativa de retrato, de retratar dois sentimentos. E de suas relações com a violência.

Alguns livros e filmes perdem esses momentos, os de montar um retrato, e, ou ficam tentando interpretar esse retrato pelo espectador, ou se contentam com uma foto de registro, sem construir a imagem. Dentes no copo de uísque consegue escapar de ambas as armadilhas e Doralino Souza consegue ver o que escreve antes de ler. Ver, de observar, e ver, de abrir os olhos, e ainda ver, de visualizar e criar uma narrativa que representa este imagético.

Nascido em São Francisco de Paula em 1970, o jornalista e ativista cultural Doralino Souza da Rosa tem, em Dentes no copo de uísque & outros contos de crime (2019) seu terceiro livro. O cânion de Dentro (2016) e Anjos Também Usam Boné (2014), suas primeiras obras, foram finalistas do prêmio Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (Ages).  Ele ainda mantém, desde 2017, a coluna “Tempo Contado”, no Site Panorama, onde, quinzenalmente publica um conto.

Dentes no copo de uísque & outros contos de crime
Doralino Souza da Rosa
Contos
96 p.
14 cm X 21 cm
978-85-68283-03-5
R$ 25
Editora JM2D

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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