Guilherme Smee: Vidas negras importam… também na ficção

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

O mundo está sendo abalado por manifestações que eclodiram nos Estados Unidos decorrentes da morte de George Floyd, asfixiado covardemente por um policial branco, cujo nome ninguém comenta. É curioso como nesses momentos a coisa muda de figura e as pessoas que costumavam a enxergar o mundo como dois lados opostos do preto e do branco ou ainda, do vilão e o mocinho, precisam se forçar a tentar perceber que existem muito mais nuances em todo tipo de relação humana.

As histórias em quadrinhos não guardam uma reflexão sobre negros serem supervilões e brancos serem super-heróis. Elas cometeram um pecado maior: por muito tempo os negros pareciam inexistir em suas histórias. Principalmente nas histórias da National Comics, que depois se tornaria a DC Comics, casa do Superman e do Batman.

Historiadores dos quadrinhos reparam nisso quando estudam o surgimento da Marvel Comics. Enquanto as pessoas nas cidades fictícias de Metrópolis, Gotham, Central City e outras são homens e mulheres brancos, os negros e outros grupos étnicos foram apagados dessas revistas, foram invisibilizados, como se não existissem, ou pior, como se não merecessem existir.

Esse tipo de pensamento vem de um apagamento do conhecimento que remonta ao século XVI, quando ocorreu o surgimento do capitalismo, que se apoiou no tráfico escravo para aumentar a produção de riquezas nas Américas para os países hegemônicos e conquistadores da Europa. A partir de então, sempre privilegiando as políticas dos países ricos e imperialistas, desenvolvendo mecanismos de saber e conhecimentos que retiram a humanidade dos seres humanos.

Os primeiros a sofrer este tipo de questionamento foram os indígenas da América, por não acreditarem em um deus cristão e, logo, não terem uma religiosidade válida pelos colonizadores; os conquistadores da América e os nobres imperialistas acreditavam que não tinham alma. Se os indígenas não tinham alma, logo, eles não eram humanos e, portanto poderiam ser escravizados. Logo, na lógica daqueles tempos, quem não tinha religião seria passível de ser escravizado. O “racismo religioso” veio antes do “racismo de cor”.

Mas esse último não demorou muito para se manifestar. “Com a escravização de africanos, o racismo religioso foi complementado, ou vagarosamente substituído, pelo racismo de cor. Desde então o racismo contra o negro tornou-se uma estrutura fundamental e constitutiva da lógica do mundo moderno-colonial” (GROSFOGUEL, 2016, p. 39). No mundo contemporâneo, os anos 1960 nos Estados Unidos foram o ponto de ebulição para movimentos dos direitos civis dos negros. Negros eram impedidos de sentar nos mesmo lugares do ônibus que os brancos, ou de beber nos mesmos bebedouros públicos, ou ainda de se misturarem com eles nas missas das Igrejas. Era o próprio apartheid, que vigoraria na África do Sul até o final dos anos 1990.

Mas foi nos mesmos anos 1960 que irromperam os movimentos civis negros liderados por Martin Luther King e seu sonho e Malcolm X e seus modos nada pacíficos de lutar, a Marvel trazia o primeiro, veja bem, o primeiro personagem negro a figurar num quadrinho de super-heróis: o editor-chefe do Clarim Diário, Robbie Robertson, criado por Stan Lee e John Romita nas histórias do Homem-Aranha. Demoraram mais de trinta anos de história dos quadrinhos de super-heróis para que surgisse um personagem negro, e coadjuvante, nos quadrinhos de super-heróis.

Os primeiros super-heróis negros não surgiram de uma forma muito bonita, no entanto. O Falcão tinha um história pregressa de ex-criminoso, o Pantera Negra era um rei de um império selvagem e exótico e o Luke Cage também era um ex-presidiário reformado. Personagens de outras etnias, que não a branca, estavam sempre – até hoje – em conflito com a lei. Se os anos 1960 abriram as portas para a representação negra na mídia, os anos 1970 levavam essa representação ao máximo, criando uma exploração da imagem negra, que ficou conhecida como Blacksploitation. Talvez o melhor exemplo da representação negra nos quadrinhos de super-heróis tenha sido Tempestade, dos X-Men, criada em 1975. Mas ainda assim, ela era venerada como deusa das chuvas por uma tribo, andava nua pela cidade e tinha cabelos brancos e olhos azuis, o que acelerava seu whitewashing, ou seu branqueamento e, portanto, sua aceitação com o público em geral.

Mas eu mesmo percebi a rejeição de Tempestade quando era criança, ao me deparar com prateleiras de lojas de brinquedos cheias da personagem, ainda disponível para compra, por anos a fio na mesma loja. Enquanto isso, seus outros colegas X-Men, de peles branca, azul, cinza, verde, já tinham todos sido comprados. Tínhamos três dessas Tempestades na nossa caixa de brinquedos. Mas Tempestade, além de ser negra também era mulher. Tempestade tinha a tal da interseccionalidade que Kimberle Crenshaw falava naquela época, os anos 1990, e que acirrava os preconceitos sobre essa intersecção existencial negra e feminina: a condição da mulher negra, pária de dois mundos.

Mas o cenário não mudou muito nas prateleiras das lojas de brinquedos nos anos 2010, não. O personagem Finn, de Star Wars: Guerra nas Estrelas também foi deixado de lado em prol de outros personagens. O motivo? A cor de sua pele. Vale lembrar que entre os personagens desta coleção havia um deles que era mulher, Rey, mas dessa vez, uma mulher branca.

Divulgação

O que uma breve análise sobre a condição de vidas ficcionais que sofrem preconceito, vidas que “não são compradas” leva a pensar? Que existem vidas que valem mais que outras. Que algumas vidas tem mais valor e mais importância do que outras, quando o valor de cada ser humano, de cada existência deveria ser igual. Uma mulher negra, Tempestade, vale menos do que um homem negro, Finn, que, por sua vez, vale menos que uma mulher branca, Rey. Ironicamente, quem vale mais no mercado, e inclusive no mercado de trabalho, com valores salariais, são aqueles que criaram essas regras: homens heterossexuais, brancos e cis, com uma alta educação e um alto poder aquisitivo e que acreditam no Deus “correto” para poder se apoderar de mais e mais vidas, para invisibilizar mais e mais conhecimentos da cultura produzida por essas minorias.

Por isso é possível traçar um paralelo entre a ficção e a realidade, que são materializados nos nossos afetos pelos personagens. Por que muitos se preocupam que a mudança de etnia de um personagem, como o Tocha Humana no último filme do Quarteto Fantástico, interpretado pelo ator negro Michael B. Jordan, estaria retirando a essência do personagem? Preste atenção na palavra usada: “essência”, que vem de “cerne”, “âmago”, e, por fim, “alma”. Não é o mesmo discurso usado nos século XVI pelos conquistadores da América para justificar a escravização dos indígenas? A ausência da alma que permite a crença correta?

Assim, quem ainda hoje acredita que a “essência” ou “alma” de um personagem está resguardada na sua cor de pele ou etnia, também deve acreditar o mesmo sobre uma pessoa real. E que esse é um motivo para que se prolongue a crença de que negros e outras etnias não-brancas são inferiores e que não “devem ser compradas”, mas sim, contempladas, através da manutenção de privilégios estabelecidos séculos atrás. Esse tipo de gente acredita que negros podem ser arrebanhados através de uma lógica violenta e massacrante, que rouba vidas. Enquanto isso, elas ainda estão lá, vivas e suplicantes para que alguém as retirem das prateleiras e lhes dê uma oportunidade.

Para saber mais:
GROSFOGUEL, Ramón. A estrutura do conhecimento nas universidades ocidentalizadas: racismo/sexismo epistêmico e os quatro genocídios/epistemicídios do longo século XVI. revista Sociedade e Estado, Vol. 31, n. 1, jan/abr 2016. p. 25 a 49.

Agradeço ao amigo Paulo Daniel Santos pelas dicas e ideias.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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