Folhetim LRS: Dois nós, Carolina Panta (parte seis)

Arte: Giovani Urio

Entramado IV

“Oi, eu gostaria de falar com a Aline.”

“A Aline tá ocupada agora, mas tem várias safadas que vão gostar de ti.”

“Na verdade eu só vim para conversar com ela.”

“Bom, querida, o que tu vai fazer é problema teu. Tem de tudo por aqui. Tem umas gurias bem inteligentinhas, fazem até faculdade de direito. Acho que tu vai gostar bastante de ‘conversar’ com elas. A Aline tá ocupada. Sexta é o dia do cliente especial dela. Fica difícil chegar aqui, assim, em cima da hora, e querer apontar pra onde tu quer. Mas eu tenho uma novinha, dezoito aninhos, eu juro, recém chegada que é capaz de te agradar. Sei que ela gosta dessas safadezas de mulher com mulher.”

“Eu agradeço, mas eu só queria falar com a Aline. É um assunto de família, senhora.”

“Senhora lá no céu, querida. Vou ver o que posso fazer por ti. Deve ser algo sobre aquele traste do pai dela então. De família é a única coisa que eu sei que ela tem faz tempo. Mas tem que ser rapidinho, daqui a pouco chega o delegado aí, e ele só quer saber dela até altas madrugadas. Espera nesse sofá de couro ali do canto. Toma alguma coisa, talvez demore.”

E se foi pelo corredor em meia luz ao fundo do hall a travesti de peruca morena clássica. Foi rebolando-se até sumir em meio ao breu avermelhado do puteiro. Camila chegara em frente ao Vale dos Ventos e hesitou sua entrada. As luzes em neon piscante eram atração aos motoristas desgarrados e solitários a passar na estrada. As placas dos carros depositados no estacionamento acusavam os mais distintos pontos cardeais do Rio Grande do Sul a Santa Catarina.

Havia certa organização no estabelecimento. Quando entrou, Camila foi abordada pelo segurança de camisa polo preta que abriu a porta atrás de si. Não sentiu sequer olhar de julgamento do homem por estar entrando sozinha nesse estabelecimento. Recebeu um seja bem-vinda cordial e uma comanda a preencher.

Foi recepcionada pela travesti de nome Melissa, que prontamente a conduziu até o bar. Era necessário tratar um cliente de forma atenciosa ali no Vale dos Ventos.

Enquanto Camila aguardava Aline, a música de batida pop foi aumentada nas caixas de som. Pelo palco espelhado que ficava a altura dos olhos dos clientes, entrou a figura loira de plataformas azuis. Vestia um quase nada preso em velcro pronto para ser arrancado durante o próximo refrão da música.

Alguns homens comemoraram a entrada triunfal da mulher a mostrar os seios enquanto eram atendidos pelas garçonetes pouco mais vestidas a trazer whiskies e garrafas de cerveja. Na maioria, eram senhores de seus cabelos brancos possivelmente preparados com seus viagras e muitas notas no bolso. Havia, contudo, a mesa dos jovens a comemorar uma despedida de solteiro. Esses não pagavam drinks às garotas a lhes fazer companhia, enquanto as outras, acompanhantes dos senhores, pareciam satisfeitas a tomar seu champagne em taças de cristal.

O cabelo liso e louro arrastava-se até quase a curvatura das nádegas. Era um bom espetáculo aquele representado por si. Recebia notas de cinquenta reais por reboladas excessivas no rosto daqueles que se levantavam para lhe oferecer o dinheiro.

O sorriso sensual desfez-se enquanto, de quatro, recolhia as notas amassadas. Aline e seus os seios à mostra deixaram o palco sob protesto dos presentes.

Aline

Lembrava-se ser um dia de mar revoltado quando a mãe passou a sentir o endurecimento da barriga de lua. Segurando o baixo ventre, urrava de tempos em tempos. Mesmo tendo o frio do inverno invadido o telhado sem forro, a parturiente suava como a deixar transpirar a dor pelos poros.

A pequena Aline andava pelas voltas da mãe sem muito saber o que fazer. Já havia ido até o boteco em frente à casa para chamar o pai. Sem sucesso, pediu, então, para o gringo dono do estabelecimento que ligasse para sua única tia a possuir telefone: o nenê chegaria em pouco tempo.

Fez o caminho de volta correndo com os pezinhos nus sob o calçamento irregular. Ao abrir a porta, deparou-se com a poça acumulada ao chão e entre as pernas da mãe. Era chegada a hora, já havia visto isso na televisão.

Enquanto a ajuda solicitada não vinha, a criança remexia na cômoda de roupas da mãe que, por sua vez, virava cada vez mais bicho no outro cômodo da casa. Uma mala foi preparada com algumas calcinhas e as poucas camisolas guardadas na última gaveta. Para o bebê havia pouco o que pegar. Uma mantinha e meia dúzia de roupas de frio seriam o suficiente.

Quase uma hora depois, sacolejavam as duas no banco de trás a caminho do hospital. A pequena limpava os olhos lacrimejados da mãe. Não era normal ter tanta dor assim, pelo menos nas novelas tudo parecia mais tranquilo. Aline estava assustada, mas não demonstrava o medo de precisar agarrar uma criança ensanguentada entre as pernas da mãe.

Teve pena dela pelos cada vez mais altos gritos e não contou sobre o paradeiro desconhecido do pai. Certamente ele teria ido jogar cartas e ficar com aquele cheiro de cachaça em outro canto da cidade, mas preferiu dizer-lhe outra coisa em que acreditar. Acabou falando que ele fora consertar uma rede de pesca.

Chegaram ao hospital da cidade vizinha, a tia deixou as duas na porta, precisava voltar ao trabalho. Aline buscou a cadeira de rodas atirada em um canto e pediu ajuda ao primeiro adulto vestido de branco a surgir em sua frente. Esse não parecia compreender toda a situação pela vagarosidade de sua movimentação. A mãe foi largada em um corredor, o médico de plantão estava em horário de almoço. O bebê teria de esperar. Passaram-se, então, muitos minutos que mais pareciam horas para a criança aflita a ter a mão esmagada na compressão feita pela mãe.

Levaram a grávida para a sala fechada pelas portas de abertura dupla somente quando essa caiu ao chão em um desmaio. Aline não hesitou e agarrou-se a barra da saia da enfermeira que fingia não ver a dor de sua mãe.

Então ficou ali a esperar. Era invisível aos olhos daqueles que entravam e saíam da sala a sua frente. Alguns, cobertos de sangue.

Horas depois, foi balançada de forma nada maternal pela mesma enfermeira e retirada do sono de criança exaurida pela obrigação adulta. Foi conduzida até o quarto coletivo e não pôde ver mais nada além dele. O pequeno bebê perdia-se entre as mantinhas hospitalares no colo da mãe. Era menor que outros ali também recém colocados no mundo, mas parecia bem com seus olhinhos semiabertos. Era uma menina.

“Pode ser Camila o nome dela?”

A mãe logo quis saber o porquê da escolha. Aline prontamente disse ser esse o nome da amiga de escola. Na verdade, assim chamava-se uma das personagens de sua novela favorita, a moça rica namorada do Edson Celulari. Aline não tinha amigas além daquelas do horário de antes e de depois do jornal da noite.

Como foram bons os tempos em que a maninha crescia e aprendia cada dia um algo novo. Era um alívio ter aquele bebê com quem conviver. Aline ficou responsável pela nova pequena desde cedo, afinal já era quase uma mocinha com nove anos. Aprendeu a dar de mamar, já que a mãe não teve leite suficiente para a amamentação. Logo, também foi necessário que Eloá voltasse às suas faxinas, a época de veraneio estava cada vez mais próxima. Não teria tempo para essas coisas de resguardo.

Aline dedicou-se a ensiná-la a andar e a falar as primeiras palavras. Tomou conta de Camila nos febrões das tardes úmidas quando seus pulmõezinhos funcionavam precariamente. Sempre desconfiou ser a tosse noturna da irmã causada, de alguma forma, pelo cigarros acumulados do pai nos cinzeiros da casa. Perdeu as contas de quantas vezes puxou a maninha pela mão e a levou para dar uma volta na praia até que os ânimos esfriassem. Não raro, o pai chegaria bêbado e partiria para cima da mãe. Aline tinha pena de Eloá, mas, naquelas horas, era Camila que precisava de proteção. Não tinha a bebê culpa de quem era o pai. Quanto a ela, Aline lembrava-se de um Moacir amoroso a carregá-la no barco. Brincavam por horas com o boto a quem, carinhosamente, chamaram de Lobisomem. Não lembrava quando o homem de sorriso farto tornou-se aquele de quem nada sabia. Algo foi apagado de seu rosto quando passou a ficar cada vez mais horas no bar em frente à casa.

Mesmo que não vivessem em uma família cheia de harmonia, tinham uma a outra. Mas tudo ficou diferente quando, sob promessas de retorno, Eloá levou Camila. O que fizera Aline para merecer o gosto amargo de quem fica pra trás? Talvez tivesse sido melhor assim. Pelo menos Camila poderia até ser feliz.

Buscava, no hoje, forças para levantar-se e encarar um passado a que acreditava não retornar mais. Vestiu o jeans guardado na mochila junto às calcinhas de algodão. Limpou a maquiagem pesada do rosto. Hoje o delegado teria que esperar.

Denso é o silêncio quando forma uma barreira sólida entre os corpos. Torna-se intransponível, como aqueles matos fechados onde não há trilha a seguir. Para transpassá-lo é necessário cortar-se entre os galhos secos a raspar na pele desprotegida. O terreno é desconhecido e não se pode ver o chão com precisão sem pisar sobre a relva baixa. Escondem-se, nessa mistura de troncos caídos e folhas podres, alguns perigos aos desavisados: basta um passo descalculado para que se seja surpreendido com um tombo para desanimar a caminhada.

Nenhuma palavra serviria como ferramenta para recortar a falta de palavras dentro do carro na BR mal iluminada. O locutor da rádio do litoral lia recados dos ouvintes a seus amantes. Entre as mensagens de amor, tocavam nos autofalantes do carro melodramas de sujeitos desorientados pela loucura de alguma paixão. De resto, somente as respirações das duas mulheres misturavam-se ao som chiado da emissora AM.

Camila ensaiara algumas palavras a fim de estabelecer comunicação com a mulher loira a seu lado. Essa, por sua vez, ignorou todas as tentativas de diálogo e apenas dizia ser melhor conversarem quando chegassem ao destino. Não se apresentaram uma a outra, não apertaram as mãos ou mesmo abraçaram-se de forma fraterna. Apenas entraram no carro e seguiram pelo asfalto como se sozinhas estivessem.

O apartamento ficava próximo ao centro da cidade. Era um quarto e sala em condomínio baixo daqueles repletos de lojas de artesanato. Subiram os lances de escada com Aline sempre à frente conduzindo o caminho para a outra mulher. Ao fim do corredor, a porta foi destrancada e o percurso estava completo. Tendo a meta alcançada, o que poderia acontecer agora?

O gato olhou fundo para Camila. Suas pupilas redondas mostravam a curiosidade do animal, que pouco estava acostumado a outras presenças além da dona. Enroscou-se nos pés da convidada, sendo o único a lhe oferecer boas-vindas.

Aline entrou em fuga na cozinha. Mexia nos armários à procura de um algo desconhecido. Acabou com um copo baixo de vodca com suco de laranja em mãos. Do batente da porta que dividia os cômodos, viu Camila agraciando o gato amarelo e sentiu que era necessário, então, adentrar nesse matagal desconhecido, e a única ferramenta em mãos era o destilado derretendo o gelo em si.

“Quer comer alguma coisa?”

“Não tenho fome.”

“Eu vou beber, tu quer?”

“Pode ser pura pra mim, por favor.”

O gato acomodou-se na poltrona mais próxima à janela. Lambendo as patas, pareceu satisfeito em ser o único espectador daqueles que seriam diálogos repletos de anos atrás.

“Então?”
“Eu precisava vir.”

“Hum. E precisava ir até o meu trabalho? Hoje eu tinha cliente grande, daqueles que não dá pra deixar esperando sentado. Ele gosta de mim, mas é só vacilar pra aparecer outra mais jovenzinha e ficar no colo dele.

“Desculpa, eu não deveria ter ido até lá. Não sabia muito bem se te encontraria, não pensei muito também. Não quero te prejudicar.?”

“Não prejudica. Comigo a moral é grande e o trabalho é bem feito. Muito melhor que essas guriazinhas novas que tem aparecido por lá. E com aqueles manés da despedida de solteiro, não ia dar pra ganhar muito além daquelas notinhas ali.”

“Teu gato é querido. Qual o nome dele?”

“Não sei, encontrei ele na rua esses tempos e trouxe pra cá. Eu chamo ele de várias coisas, ele atende de qualquer jeito, não parece dar bola pra isso.”

“E o meu nome, tu sabe?”

“Olha, eu posso ter esquecido de muita coisa, mas não me esqueço que quem ficou aqui catando marisco fui eu. Eu tava na mesma bosta de vida, não tinha muito como pensar em outra coisa. Mas graças a deus, hein, chegou uma hora em que eu não tinha mais motivo pra lembrar, Camila.”

“Eu entendo a tua posição. Tenho tentado ultimamente entender o que se passou nesse tempo, quais serão suas consequências. Não tô aqui pedindo para que a gente forme uma família feliz, eu precisava saber, de fato, quem eram essas pessoas, quem eu sou de verdade.”

“Que bonitinha a menininha rica querendo redescobrir seu passado. A mocinha voltando a suas origens para fazer as pazes com a irmã prostituta malvada e drogada. Meio clichê, hein?”

“Eu não pensei muito quando entrei no carro para vir até aqui. Eu fiquei perdida, nada mais fazia sentido pra mim naquele momento.”

“Nossa, eu tenho pena de ti. Toda estudadinha e com essa pinta de professora agora quer vir remexer no meio da merda em que nasceu? Por que tu faz isso contigo? Vai viver tua vidinha perfeita de porto-alegrense em apartamento próprio. Eu não tenho nada pra te oferecer.”

“Aline, Eloá morreu.”

Os copos já haviam terminado. Era necessário voltar à cozinha. Camila seguiu a irmã e parou escorada em frente à geladeira quando a outra tirava o gelo das formas de plástico de 1,99. Com um tom de voz mais baixo e embargado, Aline perguntou de que forma havia acontecido. Camila discorreu sobre a doença da mãe, todos os esforços para a recuperação e como encontrou o corpo de Eloá na cozinha de casa. Aline bebia sem parar, talvez para ocupar-se de uma boca que não podia emitir voz com o risco de chorar.

“Ela sofreu?”

“Não, provavelmente foi bem rápido”, mentiu Camila tentando consolar a irmã recém conhecida. Sabia que, provavelmente, Eloá tivera muita dor ao cair no chão e, sem assistência, acabou por perder o ar dos pulmões. Pelo atestado de óbito que Clarice ajudara a desvendar, possivelmente agonizou por uma hora até sucumbir ao derramamento de sangue no peito.

“Coitada da mãe.”

“Tu tem pena dela? Tu não tem raiva? Ela te deixou aqui.”

“Guriazinha, tu não sabe de nada mesmo, né?”

Tendo visto que a conversa demoraria a encontrar desfecho, o gato enroscou-se em volta de si na poltrona e resolveu dormir um sono justo e tranquilo a que somente os animais têm direito.

“Olha, eu não sei mesmo, por isso estou aqui.”

“Tu acha que eu acredito? A mãe tentou vir aqui, falei com ela umas vezes nesses últimos anos. Sabia que ela tinha infartado, ela me procurou nessa época. Teve um dia que simplesmente surgiu aqui na minha porta. Eu não sabia muito bem o que fazer, tive raiva, mas chorei de felicidade quando ela me abraçou. Eu não tinha mais espaço pra dor dentro de mim. Acho que nem gente eu era naquela época. Tava envolvida até o pescoço com droga pesada, ela veio aqui e foi a única que não me julgou. Aí eu resolvi que também não julgaria mais ela. E mais: eu gostava quando ela me ligava no fim de semana, era a única pessoa que se importava comigo de verdade. Ela me ajudou muito, me dava uma grana por mês pra eu não precisar fazer tanto programa porque eu disse pra ela que isso eu não ia largar. E tu acha que ela não me contava como tua vidinha perfeita ia indo? Estudante e agora professora universitária, palmas pra Camila. Na real, eu achei bem feito quando o corno do teu marido foi embora. Tu é bem trouxa, tem um homem que te ama e sai aí pra se putiar sem ganhar nada em troca. Quer o que, ibope? Por isso que eu não boto macho dentro de casa. Sei também que tu vivia brigando com ela por causa dessas porcarias de política. Muito bem, brigar com uma velha infartada por causa de blá blá blá de quem nem se importa com ninguém. Não, Camila, eu não tenho raiva da mãe. Eu tenho raiva de ti. A mãe te amava, não cansava de dizer como tu era perfeita e estudiosa, eu achava um saco ouvir aquelas porcarias, mas ela já tinha sofrido demais na vida pra eu mandar ela à merda. Tá, ela me deixou aqui, eu odiava ela por isso, mas depois passou, sabe? Mas quem é que ia cuidar do inútil do pai? Ah, ela sempre me dizia “Camila mandou um beijo” e cadê a porra da Camila pra vir aqui e me olhar nos olhos. Azar, Camila, eu quero mais que tu te foda. Tu e as tuas dúvidas.”

Camila sentou-se e absorveu todo o conteúdo do copo de uma única vez. Seria difícil começar a falar. “Na verdade, eu vim mesmo pra conhecer o Moacir.” E o gato miou na poltrona em tom julgador.

Rede de Cerco

Entre setembro e janeiro, com a chegada dos ventos do nordeste, o bagre adentrava a lagoa. Vinha para se reproduzir todo o ano, mas acabava nas redes dos pescadores a sua espera. Os sentinelas aguardavam nas canoas e balançavam bandeiras quando os botos, parceiros de empreitada, localizavam o cardume indefeso. Os homens passavam, nos trechos mais estreitos da lagoa, a rede de tucum de modo a deixar o pescado em um círculo abaloado. Trolhavam o lance, como diziam os pescadores, e aprisionavam o pescado durante três ou quatro dias. Exauridos, os peixes resignavam-se, deixando-se levar, lentamente, no transporte de canoa até a margem.

A foto pendurada na parede sem reboco mostrava os homens triunfantes pelos quase 20 mil quilos de bagre a perder a vida no início de verão dos anos 80. A sala quase sem mobília estava vazia de gentes para além daquelas sorridentes do retrato. Em um canto, penduradas por ganchos enferrujados, algumas tarrafas empoeiradas e esquecidas de suas épocas gloriosas.

Eram bons os tempos em que se podia contar com a força do pescado para sustentar o vilarejo e as bocas da família. Pouco faltava, sobrava o que oferecer aos veranistas, e o dinheiro aparecia nas mãos. Isso até o início das construções desenfreadas da cidade vizinha à beira mar.

Grandes faixas do que era costa de dunas foram ocupadas pelos prédios de muitos andares. Com a exploração imobiliária, veio a necessidade da construção da ponte. Era inviável para as senhoras em roupas marines ter de arregaçar suas calças sempre que desejavam atravessar a barra da lagoa que unia as duas cidades.

As construções de concreto deram conforto aos pescadores amadores de camisa importada, mas dificultaram a entrada natural dos cardumes para a reprodução no estuário. Presos ao dique que barrava as fortes águas de ressaca marítima, ficavam, também, os lucros dos pescadores da lagoa. Presa à foto na parede, os sorrisos dos homens.

As festas no fim de semana de caixas de cerveja empilhadas foram sendo esquecidas e deram lugar a rostos embrutecidos e secos pela mesa com pão dia sim dia não. O peixe não era fácil e parecia muito mais tentador ocupar as vagas de emprego na cidade que crescia ao lado. As mãos hábeis com o trato das redes passaram a pintar paredes e a aparar gramados dos jardins. Poucos foram aqueles a permanecer empunhando suas tarrafas dentro dos anos 90.

A louça de dias na pia da cozinha pouco lembrava o frescor de casa limpa e a brisa a entrar pela cortina de outros tempos. Na beira da lagoa, os ventos eram abundantes e as ondas a bater nas palafitas da sacada dos fundos ritmavam a vida. Mas os ricos também gostavam da proximidade com a água. Aos poucos, não houve outra opção aos pescadores senão vender as residências iluminadas pelo pôr do sol refletido na água. Essas foram patroladas, dando lugar a verdadeiras mansões. Aos que precisaram abandonar seus estaleiros, restou a periferia da cidade distante do que eram, distante do mar.

Os botecos, contudo, permaneciam cheios enquanto os barcos, vazios. Os botos logo fizeram-se tristes e foram afastando-se com o tempo. Raro era, agora, avistá-los: suas barbatanas viraram lendas. Por certo o pescado ainda estava naquelas águas, mas as tainhas vinham pequenas e eram fruto de esforço de muitos dias de trabalho em sol profundo.

Não havia vento no interior da vila de casas sem reboco. Da janela aberta, pouco entrava além do pó provocado pelo vai e vem das carroças, contudo o homem permanecia sentado e imóvel frente à abertura em metal. De olhos fechados, parecia buscar em algum distante lugar os ventos vindos de outros tempos.

Fitava as mãos trêmulas pela bebida de tantos anos e os dedos já enrugados pela idade. Mesmo que há muito não lançasse rede, ainda fazia alguns bicos no concerto de tramas de nylon para alguns veranistas nos períodos de calor. O dinheiro mal dava para pagar o trago de cachaça marisqueira, mas a mesada que recebia andava ajudando bastante. Mas nesse mês o dinheiro ainda não caíra na conta.

Sentia-se velho e só. Quanto tempo duraria a angústia dos dias vazios, do mormaço quente sem cheiro de mar? Para não pensar, estendeu o braço e agarrou a garrafa plástica sobre a mesa da sala de estar. Dois goles depois, chegou à conclusão que seria difícil esquecer. Nem todo o trago do mundo e as noites de desmaio causado pela bebedeira apagaram o sofrimento até então.

Resolveu deitar-se. A madrugada e a bebida já eram altas, e o som da música vindo do baile funk na quadra vizinha, insuportável. Jogara-se na cama com certa dificuldade. Ouviu, pouco antes de adormecer, o som dos pneus roçando o chão de terra batida. Deveria ser um marginalzinho procurando alguma pedra de crack para passar a noite.

Um velho vira-latas dormia sobre o pano encardido, fazendo guarda à porta. Levantou a cabeça quando viu a claridade dos faróis, mas não se importou com as recém chegadas. Virou-se de costas para a rua, não sem antes catar as pulgas no rabo peludo.

Aline forçou o portão de madeira improvisado de uma velha porta, deixando a passagem livre para a irmã. O pequeno pátio mal iluminado clarejava-se unicamente pela luz de uma lua tímida. De dentro da casa, nenhum sinal de movimento.

Com a chave retirada de dentro da bolsa, a irmã mais velha abriu a frágil fechadura da porta de metal corroído. Entraram as duas, Aline sempre à frente, como conhecida do ambiente.

Camila parou para observar o quadro dos pescadores a exibir todo aquele peixe retirado da lagoa décadas atrás. Talvez o filme a que pertencia o registro também tivesse pintado alguma de suas fotografias ainda guardadas no bolso do casaco. Aline havia ido a outro cômodo, mas Camila estava paralisada pelo pânico de se apresentar a quem já a conhecera tão bem.

O rangido por trás de si a despertou do torpor do medo do incerto. Virou-se e pôde ver, vindos do estreito corredor, os personagens da cena: Aline acompanhava o homem na cadeira de rodas.

“Camila, esse é o Moacir.”

E os olhos escuros tocaram-se. Lá fora, as pontas dos pinheiros balançaram-se pela chegada da primeira brisa de verão.

Na panela, estralavam o alho e a cebola em óleo quente. Da fritura, jorravam gotículas escaldantes expulsas pelo calor. Camila tentava afastar os braços das possíveis queimaduras de uma maneira um tanto desajeitada. Nunca fora bem com o fogão, mas estava se esforçando nos últimos três dias passados na casa do pai.

Tinha um pai. Lembrava de quantas noites, no fechar dos pequenos olhinhos, criara para si uma figura masculina a quem amar. Por vezes, esse era um sujeito forte de uniforme militar que a jogava para o alto em meio a gargalhadas. Em outras, um operário da construção civil, como tantos outros de capacetes amarelos a cruzar seu caminho para a escola todos os dias. Sentava, quase entrando em sono profundo no colo do homem sentado à poltrona. Encostava a cabeça em seu peito repleto de pelos e sentia o subir e descer da respiração do pai da imaginação. Já adormecida totalmente, escutava, abraçada ao urso encardido, os fortes batimentos daquele coração.

Certamente, Moacir não era a imagem a estampar suas noites infantis. Crescera tendo saudade de um pai morto por Eloá em um acidente de carro. Buscava na mãe informações para engendrar uma figura paterna. Dela, só recebia negativas, nem cor de cabelos, nem a forma de sorrir. Tudo deveria ficar a cargo de sua imaginação. Nunca os músculos atrofiados da perna de Moacir sustentariam o peso de um colo aconchegante. Porém, o destino serviu-lhe uma realidade sem perguntar à criança quais sonhos gostaria de realizar.

A pia da cozinha era baixa talvez por adaptação ao cadeirante ou simplesmente pela mobília de má qualidade que se esfarelava na parte inferior. Camila precisava curvar-se para cortar em cubos a sobra de churrasco do meio de tarde.

Era sábado e, segundo Moacir, dia de almoço em família. Pediu à Camila que fosse ao mercado comprar um pedaço de carne e algumas cervejas. Infelizmente, estava sem dinheiro, mas ela certamente não se importaria de pagar um almoço pro pai.

Quando chegou com as sacolas, Moacir havia improvisado uma churrasqueira com tijolos soltos no fundo do pátio. Era uma pequena estrutura cúbica e permitia o manuseio dos assados para a altura de um cadeirante. Satisfeito, o pai iniciou a salga das carnes e as transpassou cuidadosamente com os espetos de metal. Pediu à Camila que trouxesse já alguma cerveja, mesmo que ainda estivessem quentes.

Uma, duas, cinco. Com o início do trago, passou a tratar a filha como uma velha amiga. Ela, também já se sentindo em estado de embriaguez, resolveu deixar que o velho falasse. Quem sabe ele não fosse tão desprezível assim. Era só um velho inválido, afinal.

Com alguma jovialidade retirada de um canto de espírito, o homem narrou bravamente os feitos em mar agitado e as pescas que renderam toneladas, como aquela da foto na sala. Já ficara perdido, sem equipamentos de navegação, com outros companheiros durante fortes tempestades, sendo localizado somente semanas depois. Era uma vida boa. Os homens iam para a pescaria, e as mulheres ficavam cuidando dos filhos: tudo como deveria ser.

Subia-lhe uma vermelhidão de orgulho no pescoço quando contava os fatos do passado. Chegava até a sorrir. O sorriso, contudo, era desfeito nos lábios secos e miúdos quando, com duas batidas na cadeira enferrujada, concluía suas histórias com um triste “agora tô preso nisso aqui”. Contou sobre a doença degenerativa que consumia as pernas aos poucos, não havia o que fazer

Em meio às narrativas, Eloá não era personagem sequer secundário daqueles incluídos nas histórias apenas para auxiliar ou atrapalhar o herói.

Muitas cervejas depois, a carne ficou esquecida ao fogo: pouco importava comer quando se podia conversar. Agora era a vez do arroz deitar-se na mistura do óleo já temperado. Ficariam ali os grãos até assumirem um branco sólido. Após, a água acrescentada diretamente guincharia ao passar, logo de uma vez, do estado líquido ao gasoso. O vapor subiria à frente de Camila enquanto o pai dormia bêbado no sofá da sala.

Ao final da tarde, quando somente se avistava o borrado no céu, Moacir referiu-se a “aquela tua mãe”. Limpando os dedos engordurados na bermuda, assumiu um outro semblante ao falar da ex-mulher. Virou-se em um rosto que reforçava os vincos profundos das rugas nas bochechas secas.

“Esse lugar não era pra ela, guria. Desde pequeninha, ela já se achava bonita demais pra viver limpando peixe. E o pior é que era mesmo. Era uma boneca, me lembro quando tinha uns doze anos, eu já tinha uns dezesseis, mas ficava vidrado quando ela passava. Era meio cheinha porque estudava, ainda mais no colégio das freiras. O pessoal até falava que o tio dela tinha comido uma das irmãs pra conseguir a bolsa de estudos e essas coisas. Eu não duvido, aquela gente dela sempre foi meio assim, sem Deus. Ainda bem, senão acho que ela já tinha se enveredado desde cedo pro mau caminho, que nem a tua irmã.”

Mais um gole e outro, prosseguiu:

“Acredita, menina, eu que tive que insistir pra gente casar na igreja. Tinha morrido o pai de uma amiga dela, e ela não queria mais casar de jeito nenhum. Eu disse que se não fosse assim, diante de Deus, não dava. A minha mãe ficaria louca. Imagina viver em pecado. Tua vó já não gostava do jeito que ela se vestia, com umas sainhas curtas. Eu sempre dizia que era moda, que não tinha nada a ver, mas eu sabia que ela gostava de se mostrar pros coleguinhas do colégio. Tua irmã é bem igualzinha.”

Camila ouvia o pai em silêncio. Era difícil ouvir aquelas colocações sobre Eloá. Talvez difícil mesmo fosse aceitar a semelhança entre a mãe e a irmã. O mesmo corpo, os mesmos olhos. A ela, restou o negrume seco dos castanhos baixos de Moacir. Quem sabe dele também tivesse herdado o vazio da alma.

“Eu sei que, em um belo dia, ela e tu tinham sumido. E a sacana ainda levou o fuca. Fiquei anos sem saber onde vocês andavam, até que um dia alguém viu vocês no centro de Porto Alegre e veio me falar. Eu não tinha por onde começar a procurar, e eu tinha certeza que um dia ela voltaria pra casa. E outra, eu andava meio doente das pernas já nessa época, não tinha nem forças direito. Ela não sabia fazer nada mesmo. Ia acabar precisando da gente. Acontece que eu me enganei. Ela cansou de mim, eu devia mesmo ter dado mais atenção pra ela, afinal é a função do marido, né? Tu era pequena, não teve opção, a Aline não quis ir. Eu nunca soube por quê. Já devia tá apaixonadinha por algum daqueles guris da rua. É, tu já deve saber como ela é. Eu finjo pra não me incomodar. A vida é dela. Ela é que nem tua mãe querendo subir de vida e ter coisa que a gente não nasceu pra ter. Depois que eu fiquei sabendo de restaurantes e sei lá o que mais. Deve ter tido ajuda de macho.” Dois goles de cerveja. “Ela não é como nós aqui, tomando uma cerveja em volta da churrasqueira.”

Era engraçada a facilidade como ele usava o nós, pois Camila estava ali há apenas três dias. Ele passava o café, ela ia ao mercadinho comprar pão. Logo na hora do almoço, ele abria a primeira cerveja, ela, outra. Ficavam em silêncio assistindo aos programas da televisão chuviscada pela antena enjambrada.

Nós. O pronome compartilhado trazia a proximidade sempre sonhada com um pai inexistente, mas soava estranho agora pronunciado com tanta naturalidade. Antes, o nós era o feminino, aquele de uma vida partilhada entre abraços noturnos e brigas de final de semana. Ali, tudo era agora diferente. Era como se os pronomes fossem outros. Eram como dois nós.

Enquanto secava por completo a água da panela de ferro dando feição ao arroz de carreteiro, prato feito das sobras, Camila ouviu o velho porteiro vira-latas anunciar uma chegada.

Aline veio repleta de sacolas de supermercado que garantiriam as compras do mês aos armários do pai. Pareceu chocada ao ver Camila ali, ainda mais tão ambientada ao casebre sem reboco.

O pai acordara com o latido do cachorro, mas não fez menção maior do que um levantar de sobrancelhas. Esboçou uma risadinha seca, dizendo que Aline poderia levar as sacolas embora: Camila já havia feito o supermercado. Dirigiu-se à Aline com a boca carregada de facas:

“Agora não sou mais obrigado a te aguentar, guria.”

O constrangimento de Camila só aumentou quando percebeu estar de avental e segurando uma colher de pau. Com a voz baixa, perguntou à irmã se ela ficaria para comer o carreteiro feito. Não era boa cozinheira, mas achava que a janta havia ficado boa.

Desde a chegada, Aline manteve o rosto impávido à situação. Era realmente comovente ver aquela ceninha medíocre de amor entre pai e filha. Antes que pudesse responder ao questionamento da irmã, o pai interrompeu seu pensamento: “Vai nada, Camila. Sábado é dia movimentado no bordel. Não tá vendo a cara dela toda maquiada?”, e reforçou: “Agora eu não preciso mais te aguentar, guria. Glória a Deus. Vai com tuas amigas.”

Aline entreabriu os lábios para falar. Contudo, calou-se. Pegou a bolsa depositada sobre a mesa e resmungou um “velho imprestável” quase inaudível quando chutou o vira-latas que fazia a guarda do barraco.

Jantaram em silêncio, e, somente quando as cervejas recuperaram seu efeito, Moacir voltou a suas histórias do passado.

Quando já na cama – o pai fez questão de lhe ceder o quarto e ficar no sofá -, Camila pensou na infância simples e feliz que poderia ter tido à beira da lagoa. Ao fechar os olhos em busca do sono, imaginou-se ainda pequena com os óculos de lentes grossas sendo personagem daquelas aventuras. No relaxamento corporal proveniente do primeiro sono, pensou em Eloá. A mãe não tinha o direito de tirar aquela história dela, fragmentar-lhe a vida por vaidade e orgulho. O pai ainda poderia ser um daqueles aventureiros de suas prosas bêbadas e, quem sabe, Aline não fosse puta.

Quando as imagens tornaram-se confusas e dominadas pelos sonhos, pôde ver Moacir sentado à poltrona com a pequena Camila ao colo. Coitado do pai, só mais um bêbado aleijado e sem esperança.

“Cadê o pai?”

Camila foi surpreendida pela voz de Aline tomando o pequeno cômodo da cozinha. Lavava a louça do café da manhã pensando no que prepararia para o almoço de domingo.

“Na igreja, eu deixei ele lá. Fez questão de se arrumar bastante. Foi a primeira vez que eu vi ele tomar banho”, disse em tom forçadamente descontraído.

“Que bom. A gente precisa conversar.”

Aline não mantinha tal bom humor àquela hora da manhã. Aliás, saíra diretamente do trabalho para ali. Dormira pouco e sentia a cabeça latejando pela madrugada anterior.

“Vai te arrumar. A gente vai sair.”

A irmã mais nova não questionou a ordem dada pela mais velha. Obedeceu ao seu comando prontamente sem questionar a hierarquia imposta, que lhe era familiar. O tom de voz carregado e rouco provocado pelo cigarro a lembrou prontamente de Eloá. Ao ver a irmã com o rosto carregado pelas duas olheiras pesadas da noite em claro, viu, ali na cozinha do pai, a figura da mãe cansada pela madrugada de trabalho no Pensador. Por trás da maquiagem de trabalho, Aline ainda era mais Eloá.

Sentaram-se no quiosque à beira-mar. Aline sacou da bolsa um papel amarelo amassado. Era um boletim policial. Não importava como havia conseguido, tinha suas maneiras.

Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja

O que a linguagem rija do boletim não dizia era como havia amanhecido calmamente naquele quarto dia de dezembro. O tempo manchara na lembrança de Aline o sol despontado de dentro do mar em um amarelo calmante. Ela não pôde lembrar-se dos pés sobre a areia a perder umidade, aos poucos, pelos raios daquela luz clara. Era dezembro e um quase ninguém figurava à beira mar. Somente alguns idosos aposentados em suas caminhadas matinais antecipavam a temporada de verão.

Quebrando o silêncio, ondas batidas às margens da lagoa misturadas às conversas de pescadores que trabalhavam no velho galpão de barcos. O barracão antigo recebia pintura e reparos para abrigar as comemorações à Santa Bárbara, padroeira da cidade.

Aquele era um dia de festa no município litorâneo. Havia, contudo, uma apreensão suspensa pelo início das obras da ponte que ligaria as margens das cidades separadas pela lagoa. Os mais antigos acreditavam que a construção do dique impediria a entrada dos cardumes pela barra. Os mais jovens não se abalavam pela ladainha e contavam os meses para poder transpassar os limites geográficos com seus automóveis no verão.

Enquanto os homens faziam as últimas manutenções à madeira, no interior do local as mulheres e crianças decoravam o ambiente com flores brancas e vermelhas a combinar com as vestes da santa. A imagem sagrada recebia destaque ao centro do salão. As mesas improvisadas de cavaletes dispunham-se em um formato circular a contornar o altar mais alto quase um metro e meio do chão. Daquela forma, todos os presentes poderiam visualizá-la durante a celebração.

A tradição vinha de tempos: desde a época em que a cidade era só mais uma beira de praia, uma melancólica e entediante linha de areia guarnecida por dunas frontais. A crença era cultivada em épocas de travessia dos tropeiros a conduzir o gado ao centro do país, passando por períodos dos pescadores a construir ranchinhos temporários de palha em época de pesca farta. A santa protetora de tempestades, raios e trovões era evocada por aqueles homens rudes sempre que se avistava o negrume das nuvens carregadas vindas da Serra do Mar. Em 1908, com a ajuda braçal dos pescadores, o apoio dos pequenos comerciantes e dos grandes donos de terras da região, ergueu-se da areia branca do litoral a igreja em homenagem à Bárbara.

Próximo ao meio-dia, os peixes já estavam empalados nas taquaras prontos para tostarem sob o fogo de chão na parte externa do galpão. A melodia dos talheres e pratos sendo ajustados nas mesas das famílias anunciava o momento do almoço coletivo.

Aline carregava a pilha de copos plásticos e distribuía-os ao lado de cada prato. Carregava a irmã menor pela mão, ensinando-a como deveria ser feita a organização para a celebração em nome da santa.

Havia completado onze anos naquele inverno e já se considerava experiente no auxílio às mulheres no evento de tamanha importância. Observava de canto de olho a mãe mais ao fundo do salão organizando as saladas nas travessas de inox. Sempre gostou de ver Eloá no trabalho de casa e tentava ao máximo repetir seus movimentos para, quem sabe um dia, também poder ensiná-los a suas filhas.

A mãe distraída não percebeu a aproximação do pai por suas costas. Com um grito e um apertão nos quadris, Moacir desconcertou o trabalho da mulher. Os dois riram juntos e beijaram-se ali, na frente de todos. Não era comum para Aline presenciar essas manifestações de afeto entre o jovem casal de pais. A criança sorria muito satisfeita diante à cena, quem sabe a partir de agora eles não brigassem tanto e tudo fosse mais calmo na casa à beira da lagoa. A irmã menor nada entendia sobre aquilo, preocupava-se, somente, em girar sua saia de bolinhas no ar.

As carcaças de peixes já devorados passaram a ter jazigo sobre as mesas, atraindo uma quantidade enorme de moscas, mas ninguém parecia se importar. As caixas de cerveja vazia acumularam-se no canto do galpão enquanto as prosas nas mesas pareciam mais animadas. Logo ouviu-se o som da gaita tomar o lugar, e uma viola dedilhada fez coro à música sertaneja mais tocada nas rádios do país.

As mesas foram afastadas para os cantos, o baile iniciaria em breve.. A imagem da santa, contudo, permaneceu imexida. Os casais teriam de rodopiar em volta de seu altar.

As crianças dançavam em roda segurando as pequenas mãozinhas umas das outras. As mulheres arrastavam os maridos já sorvidos pela cerveja até o centro do salão. Eloá adoraria dançar também, mas sabia que o Moacir não era dessas coisas: ele tinha vergonha daquela perna que não funciona direito.

Sentada ao canto, Eloá batia palmas no ritmo dos cantores. Viu o primo de Moacir cochichando alguma coisa no ouvido do marido que, com um movimento de cabeça, permitiu algo ao jovem parente.

Sem dúvida, ele era bonito. O rapaz estava na faixa dos vinte anos, era soldado em Porto Alegre e fazia questão de vestir as camisetas de física que deixavam os músculos à mostra. Dirigiu-se, então, à Eloá. Era uma dança seu objetivo. Claro, fora autorizado por Moacir, ela não precisaria se preocupar, não era nada demais.

O vestido vermelho destacava os cabelos loiros até a cintura no meio dos casais. Aline tinha orgulho da beleza da mãe. Todos diziam que a pequena era a cópia da mais velha, quem sabe, um dia, pudesse ser como a Eloá.

Sentado ao lado dos músicos, Moacir parou de sorrir. Fechou o rosto ao perceber a polpa das nádegas de sua mulher amostradas pelo movimento do vestido de tecido leve. Viu-a radiante nos braços do primo. Talvez a tivesse visto poucas vezes tão feliz. O esplendor foi um afronte para o marido. O tom acaramelado pelo trabalho ao sol da pele de Eloá era um absurdo. E o jeito como dançava. Era realmente necessário dançar daquela forma? Mas que merda, precisava mesmo balançar a porra da bunda daquele jeito?

Moacir tentava disfarçar o pescoço vermelho pela raiva dentro de si, mas não tirava os olhos da dupla que dançava ao centro do salão. Observou Eloá recusando a próxima dança, Camila a puxava pelo vestido solicitando sua atenção.

Perto dos dois anos de idade, a pequena ainda mamava no peito por recomendação médica. O pediatra afirmou que a criança estaria mais protegida se ainda recebesse o leite materno. A maioria das pessoas estranhava uma criança tão grande ainda agarrada à teta da mãe, mas Eloá não se importava: faria o que precisasse para amenizar a fraqueza da filha caçula e suas dores de cabeça que a faziam chorar por horas.

O primo permaneceu próximo durante aquele momento entre mãe e filha. Para constrangimento de Eloá, o rapaz afastou-lhe os cabelos grudados pelo suor do colo para que a mãe pudesse conduzir a alimentação de Camila. Tentou ele também tirar a correntinha dourada da santa do meio de seus seios para facilitar o processo. Eloá recusou a última ajuda e fechou o rosto. Outras mulheres estavam à volta da cena e sentiram-se desconfortáveis com aquela situação, mas nada disseram.

Ao fundo, soava o sino agudo avisando os fiéis sobre o início da bênção aos barcos. Todos deveriam dirigir-se à parte externa do galpão. A música cessou, e o tom das vozes ficou mais baixo.

Enquanto todos encaminhavam-se para a cerimônia, Moacir tomou o rumo contrário da multidão. Arrancou Camila do peito de Eloá e a entregou a Aline – que saíssem as duas dali para a rua.

Eloá não pôde cruzar os olhos com o do marido. Logo percebeu esse estar tomado pelo ódio e pelo trago, já havia o visto algumas vezes com expressão semelhante, mas nunca com aquele olhar. Permaneceram os dois ali sem dizer uma palavra.

Quando não havia mais ninguém no galpão, Moacir a agarrou pelo braço e a jogou no chão. O que se passou após a primeira agressão foi uma ruptura, um daqueles momentos que ser humano algum pode esquecer durante seu existir.

Não tinha ela vergonha do que fazia?

Precisava se esfregar no primo daquele jeito?

Faltava alguma coisa pra ela?

No chão, com seu vestido levantado à altura dos seios, ele a subjugou. Se era puta, ia gostar daquilo. Não era isso que ela queria? Ele rasgou-lhe a calcinha. Será que era difícil perceber que todo mundo tava olhando, porra? Era isso que tu queria, puta?

Eloá não se atreveu a gritar. Sentia o gosto de sangue na garganta e resolveu não se defender mais. Seria pior. Às vezes é melhor não resistir.

As partículas de fuligem das churrasqueiras misturavam-se, sinestesicamente, ao cheiro bestial da batalha. O adversário, mais forte em peso e estratégia, não foi derrotado. Ali, naquele galpão, toda normalidade foi corrompida; toda existência, fatigada. No jogo tétrico que se seguiu, não havia mais táticas. Tornou-se carne, arquetípica matéria mole e macilenta. Carne sem vida e sem vontades, manuseada. Quando o monstro levantou-se e de sua existência permaneceu apenas o seu cheiro no entrelaçamento dos fios de cabelo arrebentados, a disputa estava encerrada. Ao vencedor, a dominação.

Da juntura das dimensões em que são forjados os eventos, que rompem as barreiras físicas, presente e passado tornaram-se uma mentira conceitual quando, todo dia, lhe eram jogadas no reflexo do espelho as marcas herdadas desse momento. Não mais hematomas arroxeados e resquícios de sangue seco. Veria ali uma criatura sujeita à vontade do engano. Estaria ela eternamente amarrada a mentirosas coisas boas e honradas. Seria por fora.

Quando o povo retornou da celebração, viu uma Eloá sentada a chorar silenciosamente. Parecia uma criança a lamentar a boneca perdida, não fosse o sangue que escorria do supercílio, perdendo-se no tom vermelho do vestido. Moacir, recostado à cadeira, fumava seu último cigarro da carteira sem olhar para a mulher. Calado, nada falou quando o jovem delegado recém chegado da capital questionou a cena.

Conduzido pelo ímpio dos jovens, o delegado não aceitou os pedidos das velhas senhoras para que não levasse os dois à delegacia, aquilo era problema de marido e mulher, não tinha relação nenhuma com a lei, não senhor.

A mãe de Moacir levou Eloá pela mão arrastando-a sem pena, coitado, era só um menino. O filho foi à frente ainda cambaleando, sem vergonha nenhuma de assumir o que fez, afinal de contas ela era a sua mulher. Era, por direito, dele.

A festa prosseguiu, ainda havia muita cerveja gelada nos freezers utilizados para armazenar o pescado. Entre alguns bem que mereceu, misturados a considerações sobre Moacir já estar no limite, Aline não entendia o ocorrido. Arrastava a irmãzinha tentando consolá-la com um tudo vai ficar bem, maninha, aperta a minha mão.

A dança prosseguia à volta da santa, mas poucos ali conheciam seu passado distante no oriente. Os homens e mulheres de origem simples não lembravam das homilias sonolentas do padre, que contavam quando a jovem cristã foi levada amarrada pelas ruas de Nicomédia, sob os gritos furiosos de muita gente. Desconheciam a tortura e exposição sofrida por Bárbara quando teve os seios cortados. Nem mesmo sabiam que, depois de conduzida para fora da cidade, fora degolada pelo próprio pai. Somente passaram a fazer o sinal da cruz ao seu entorno quando os primeiros trovões anunciavam o temporal que viria das bandas da Serra do Mar.

Santa Bárbara

Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura.

O rasgo luminoso tomou conta do céu, clarejando as pontas dos montes. Um, dois, dez segundos até o estrondo do trovão balançar a velha casa de telhas de zinco. A luz acabara há pouco, como já habitual naquela zona da cidade durante os prenúncios de tempestades. Vinda das bandas da Serra do Mar, a intempérie chegaria violenta naquela noite.

Moacir estava sozinho em casa. Nenhuma das filhas o esperava no retorno da igreja. Nem mesmo a caçula fazia-se presente. Chegara mais cedo que o planejado, talvez fosse isso. Mais uma vez, quase enfiara-se em confronto físico com um de seus colegas de missa quando esse perguntou como andava o trabalho da filha mais velha. Como pai, não gostava da vida de Aline no bordel, mas ela era o que havia restado. Agora, contudo, tinha um pouco de esperança, tinha Camila.

Os clarões continuavam a entrar pela janela sem cortinas. Cada vez mais próximos, faziam com que o velho pudesse ver o seu reflexo na superfície lisa da televisão de última geração. Presente da filha mais velha no último aniversário, as linhas arrojadas do aparelho contrastavam com o restante do ambiente de segunda mão.

A imagem das duas mulheres projetou-se na tela negra durante os poucos segundos do último raio. Moacir girou-se na cadeira de rodas e ofereceu às filhas um sorriso que elas não puderam enxergar. Mesmo com toda a penumbra na pequena sala, ele soube que algo não estava certo. Elas entraram em silêncio e assim prosseguiram enquanto tiravam as jaquetas encharcadas pela chuva que já começara a cair.

Pouco o pai via daquelas faces, mas reconhecia cada uma pela diferença na silhueta das duas. Camila fazia-se maior na roupa alargada que costumava usar. Nem parecia uma garota com estudo e bom emprego. Já o perfil de Aline era sinuoso, em curvas que muito lembrava o da mãe. Por um instante, Moacir pensou ter ali visto Eloá chegando acompanhada da filha mais nova. Foram muitas as vezes que o velho construíra mentalmente essa cena. Via a esposa dobrando a esquina em movimento de retorno com o Fusca azul. No começo, a imaginara pedindo desculpas pela fuga mal explicada. Ele, carregado pelo espírito do bom cristão, logo a perdoaria, e também prometeria parar de beber. Teriam, assim, uma vida próspera e em pouco tempo abririam um bazar nas ruas centrais da cidade. A mulher atenderia os turistas enquanto ele, provavelmente já preso a uma cadeira de rodas, controlaria o fluxo do caixa.

Com o passar do tempo, passou a imaginar a cena de formas diferentes. Agora era ele a pôr-se de joelhos frente à mulher. Pediria perdão, arrastaria-se a seus pés se preciso fosse, mas não poderia mais viver sozinho. Após a morte de sua mãe, logo a doença degenerativa passou a tomar-lhe o corpo, consumindo os músculos que restavam. Eloá, sempre amorosa, certamente o ajudaria a tomar banho e limparia, com cuidado, suas escaras. Em seus pensamentos, faria o impossível para tê-la de volta, mas a bebida e a invalidez o cravaram naquele casebre.

Lembrava-se, também, vendo a figura de Aline desenhada pelos raios, do dia em que Eloá fugiu. Pensou, durante algumas das piores bebedeiras, que deveria tê-la matado logo, pelo menos não viraria motivo de pena e piada entre vizinhos e colegas. Assim teriam medo dele, o respeitariam. Nunca a confrontou após a festa de Santa Bárbara. Dormira duas noites na cadeia, depois mais uma no bar antes de voltar para casa. Quando chegou, deparou-se com a filha mais velha jogada em cima da cama do casal. Aline já não tinha forças para chorar. Entre soluços, a voz rouquinha disse:

“Ela levou a Camila.”

Mas nunca mais havia visto ou falado com Eloá. Aline, pelo menos, teve essa sorte. Contou, sem muitos detalhes ou interesse, sobre o dia em que Eloá surgiu à sua porta. Ela ia, na época, afundada em carreiras de cocaína. Fazia programas nas ruas e devotava sua vida e dinheiro ao namorado. Pouco aparecia na casa do pai e, quando vinha, ficava poucos minutos por vergonha do estado em que andava ou pelo olho roxo seguidamente mal encoberto por maquiagem barata.

A mãe surgiu, contou a Aline sobre o infarto sofrido há poucos meses. Demonstrou todo seu arrependimento por deixar a filha mais velha. Por horas, gritaram uma com a outra. Choraram muito. Por fim, abraçaram-se. Eram incrivelmente parecidas.

loá pagou todo o tratamento de Aline em uma das melhores clínicas de reabilitação do estado. Quando recebeu alta, a mãe comprou-lhe vestidos caros e sapatos de ótima qualidade. Após outra grande discussão, a filha afirmou que não largaria seu trabalho para viver às custas de Eloá em Porto Alegre. Afinal, como dividiria o mesmo teto com Camila, aquela guriazinha arrogante? Então, após mais um bom banho de loja, a mãe pegou-lhe pela mão e a levou ao Vale dos Ventos.

Mulher de negócios, Eloá logo quis falar com o dono. Apresentou Aline sem delongas e disse procurar um local de posição para a filha trabalhar. O proprietário do bordel pareceu confuso e negou-se a dialogar de começo. Contudo, assim que a mãe atirou sobre a mesa um rolo de notas de cem enroladas em atílio, o tom da conversa foi outro. Certamente, a rua não era local para uma preciosidade como Aline. Ali ela estaria segura e se relacionaria com pessoas de respeito na sociedade.

Todo o mês, a mãe passou a enviar quantias de dinheiro para Aline. Além do trabalho, que rendia muito mais agora, ela também não tinha mais o cafetão para sugar-lhe o suado dinheiro. Ele sumira, misteriosamente, durante sua internação na clínica. Com certeza, isso também era obra da mãe. Melhor assim.

Após a reabilitação, a filha passou a frequentar mais a casa de Moacir, recheando os poucos armários de quando em vez. Ao saber disso, Eloá passou a enviar uma quantia ainda maior, assim Aline poderia ajudar o pai e ainda levar uma vida confortável no apartamento bem localizado no centro da cidade. Mas, em momento algum, a filha mais velha havia ouvido a mãe citar o nome do ex-marido. Referia-se sempre a ele com substantivos genéricos e poucos pronomes vazios.

A escuridão ainda dominava o ambiente. Nenhum dos presentes quebrara o silêncio até ali. Entretanto, Moacir podia ouvir as meninas cochichando na beirada da porta onde ainda estavam. Aline segurava Camila pelos ombros e a encorajava tal qual quando nos tempos de criança, quando a mais nova tinha medo do mar.

O pai não interrompeu. Foi Camila que, incentivada por Aline, dirigiu-se até o lado da cadeira de rodas. Sem luz, seria difícil ver seus olhos vermelhos.

“Por que tu não me contou?”

A pergunta saiu seca, mas tremida por um choro preso. Foi dita muito diferentemente daquilo planejado no caminho até ali. A caçula queria mostrar-se forte, enrijecida pela dor provocada pela leitura do boletim policial.

“Estupro”, conseguiu dizer.

O pai continuava a acompanhar os raios refletidos na TV sem mudar em nada a expressão. Camila andava pela sala, procurava por uma resposta em algum canto desconhecido. Sentia-se enganada por um passado que não a pertencia. Dependia dos desconhecidos familiares para resgatar tudo aquilo que não sabia. Estava, agora, em busca de si em um casebre remendado, preso a um litoral empobrecido. Era uma resposta o que queria, precisava disso. Havia culpado a mãe, talvez a tivesse julgado mal. Retirou Eloá de dentro de si, agarrando-se à figura do pai. Mas e agora?

O barulho de vidro quebrando abafou os trovões da tempestade. A televisão estilhaçou- se. Nenhum dos presentes esperava aquela ação. Nem Camila, perdida em seus pensamentos, nem o pai, que agora olhava com tristeza o equipamento desmantelado ao chão enquanto Aline começava a falar.

Mirando aquilo restante do aparelho eletrônico, Moacir permaneceu imóvel. Não sabia o que dizer. Aprendera desde pequeno que, quando confrontado, o homem ou permanecia em silêncio ou logo metia-se em uma briga violenta. Mas era necessário falar. Precisava dessa filha. Talvez pudesse dizer aquilo guardado há tantos anos para Eloá. Escondeu o rosto entre as mãos mesmo já encoberto pelo negrume da falta de energia elétrica e falou:

“Ah, guria. Tu ia acabar indo embora também. Eu tô aqui preso nesse corpo, achei que ainda podia ter um pouco de felicidade. Mas eu decidi mal as coisas da minha vida, sabe Camila. Eu decidi mal começar a beber e não ir trabalhar. Eu dizia pra todo mundo que a tua mãe teve o que mereceu, mas eu sabia que eu era um traste. Não consegui cuidar da tua irmã nem de ti. Só não me matei porque tinha medo de ir pro inferno, mas agora acho que mereço. Se Nosso Senhor achar que eu tenho que ir lá pra baixo, eu tô pronto. Tu é uma guria sentimental, Camila. Não ia entender. Tua irmã é diferente, Aline tem estômago pra me aguentar. É melhor tu ir embora mesmo. Não tem nada pra ti aqui. Aline, também não me aparece mais. Não quero ver nenhuma das duas nunca mais.”

Camila pareceu despertar com a fala do pai. Teve raiva de Aline. Sentiu ódio da irmã por trazer-lhe a verdade. Melhor seria não saber. Ainda poderia, pelo menos, tentar ter alguém. Estaria a irmã mais velha, por certo, deliciando-se com o laço frágil recém tecido entre pai e filha que mais uma vez seria desfeito. Não, não era justo com ela. Já estava quebrada por dentro, não aguentaria mais. Chocada com a declaração, a caçula começou a arrumar a mala maquinalmente. Não havia mais o que fazer ali. Estava sendo expulsa pelo pai que acabara de conhecer. Quando fez o caminho pela estrada rumo ao litoral, buscava não criar expectativas sobre algum possível encontro, mas, quase sem querer, inventara para si um lugar em que pudesse ser feliz. Mas e agora?

A mais velha prosseguia recostada à janela sem ser vista. Não levou tão a sério a cena dramática do pai, mesmo que nunca o tivesse visto falar assim. Aliás, pouco vira o pai dialogar em toda sua vida. Era diferente vê-lo falar. Ela, mesmo assim, esperava voltar ali em breve, afinal ele pouco poderia fazer vivendo totalmente sozinho. Foi surpreendida, contudo, com a declaração de Moacir que interrompeu o silêncio da sala: ele queria ir ver o mar “pelo menos uma última vez”.

A cadeira de rodas certamente não chegaria à beira do mar com muita facilidade. Precisaria ser manipulada e empurrada com muita força para vencer a areia molhada pela forte maresia de verão. Cada metro percorrido era um desafio no confronto com o vento nordeste daquela noite. O forte sopro misturado à chuva empurrava os corpos em direção oposta ao destino enquanto bagunçava os cabelos das duas mulheres.

Ele pede para que tirem seus sapatos. Parece feliz de uma maneira irreconhecível até mesmo para a filha mais velha. A água salgada o toca encontrando cócegas nos pés. Ele ri. Está com uma algo que lembra uma felicidade infantil, talvez sejam as sardas a acriançar- lhe o semblante.

Nada o incomoda nesse momento. Nem a chuva, nem mesmo os raios que teimam em cair. A tempestade não é nada comparada à felicidade trazida pelo mar. Ele, que tudo dá e tudo leva. Que alimenta o povo. Que traz esperanças e também dor. A sensação lhe faz brotar lágrimas nos olhos. Água salgada, como a do velho amigo a sua frente.

Pede a ajuda das filhas, quer entrar no mar. A mais velha se opõe à ideia absurda. Parece loucura enfrentar a maré naquelas condições. Tal como uma criança, o pai fala com olhos suplicantes: é seu destino, não há mais o que fazer. A caçula, calada, não se sente no direito de opinar naquela situação.

Ele lança-se com brutalidade ao encontro das marolas. As pernas já não respondem aos seus comandos. Cai com violência contra a areia endurecida, mas pouco se importa. Aline implora que desista da ideia, ela já sabe qual será seu fim. Ele tenta desvencilhar-se de seus braços enquanto rasteja em direção ao mar. A filha agarra-o pelas pernas e suplica. Ele a puxa pelos braços e, com um sorriso no rosto, faz seu pedido final:

“Me deixa ir. Eu não sirvo pra vocês. Fiquem juntas e se amarrem uma à outra. Eu e a tua mãe, a gente teve o nosso tempo. Não é justo com ela eu ter vocês duas comigo. Eu preciso ir.”

Aline é prantos. Camila, então, puxa a irmã para longe do pai, vestido pobremente em sua melhor roupa de missa. A mais velha deixa-se, então, ser levada para a areia mais fofa.

Agradecendo com a cabeça em um gesto de cumplicidade, Moacir lança-se à água agitada pela ressaca proveniente da tempestade. Mergulha uma, duas vezes. Sorri como há muito não fazia, talvez como nunca.

Sentadas na areia, as duas mulheres deixam a chuva cair sobre o rosto. De mãos dadas, veem o homem se afastando levado pela forte maré. Choram e sorriem as mesmo tempo enquanto escutam, ao longe, o pai cantando canções que embalavam seus sonhos de menina.

A água começa a encher-lhe os pulmões. Toda a vida parece valer agora. Em seu minuto final, ele pede socorro, mas os gritos de desespero são abafados pelos trovões da fúria de Santa Bárbara.

Desenredo

O dono do quiosque abrira suas portas pouco antes das oito da manhã naquela segunda- feira. Passou a vassoura no chão para inutilmente tentar afastar a areia das dunas que invadia seu pequeno empreendimento de doze metros quadrados à beira mar.

A chegada do entregador de bebidas o tirou do movimento inercial do vai e vem do varrer. Resolveu, então, ir até as primeiras marolas espumentas retirar o tanto de areia acumulado nos pelos da panturrilha.

Eram uns trinta, quarenta metros de caminhada do final do calçadão até o início da areia ungida pelas ondas. De longe ainda, avistou o volume sendo empurrado pelas marolas. A praia andava muito suja, a prefeitura não iniciara o recolhimento do lixo de forma apropriada à época de verão. Certamente, aquele saco de lixo teria sido deixado no domingo por algum veranista descuidado.

Chegando mais perto, percebeu não se tratar de um descarte qualquer.

Perto do meio-dia, a quantidade de pessoas aglomeradas em volta do quiosque não era comum para uma segunda. O proprietário tentava atender aos pedidos enquanto relatava todo o ocorrido por vezes e vezes a cada novo chegado ao estabelecimento. Inicialmente ainda trêmulo, pouco descreveu. Contudo, agora já refeito do horror inicial, transformou o causo em narrativa ajustada em início, meio e fim. Aos olhares apavorados, acelerava o ritmo da voz a fim de entrar no clímax. Passou a criar trejeitos para acompanhar o último trecho descritivo e terminava a diegese com a mão sob o coração: um horror, vocês não imaginam.

As faixas de isolamento tremulavam ao vento de beira de praia. Os curiosos debruçados sob as marcações amarelas elaboravam suas teses sobre o ocorrido. Compondo, ainda, a cena, policiais de pistolas embanhadas à cintura percorriam o perímetro demarcado de lado a outro.

Carregando uma prancheta de anotações, o delegado rabiscava diante à cena principal. Andava ainda levemente embriagado da noite anterior. Esperava que nenhum repórter surgisse curioso por ali. Certamente, farejaria o bafo etílico de maltado escocês. Tivera tempo algum desde o chamado para ir em casa trocar as roupas marcadas pela fumaça de cigarro e perfume feminino. Melhor assim, a esposa acabaria acordando, ele precisaria desviar de seus olhos resignados sem perguntas. Aquele olhar calado era mesmo irritante. Bom seria ser xingado, pelo menos teria desculpa para ir embora para outro lugar. Contudo, a companheira muda de cama e de questionamentos o mantinha livre para bebedeiras e amantes de fins de semana.

A cabeça branca latejava já perto do meio-dia quando pôde ver, ao longe, a mulher de cabelos loiros. Ela não estava ontem no Vale, a travesti culpou uma alergia desconhecida. Ao seu lado, a mulher de óculos de armaduras grossas. As duas mantinham-se à distância, separadas do grupo de curiosos. Nada falavam, não havia espanto ou dor em seus semblantes. Caladas, eram indiferença.

A morena era um tanto sem graça, mas deveria ser a irmã menor. As sardas no rosto eram as mesmas de décadas atrás. Era bem diferente da irmã mais velha, sem dúvida. Desde crianças, Aline sempre fora diferente, carregava consigo uma graça que faltava à menor. Agora, mesmo estando com seus quase quarenta, a loira seguia sendo espetacular. A outra não era bonita, mas até dava pro gasto.

Aline ficava especialmente gostosa de camiseta e jeans. Não era comum estar sem maquiagem e o cabelo montado de bordel. Arranjado assim em formato de coque passaria até por mãe de família. Será que usava a calcinha vermelha, seu presente de noites anteriores?

As duas mulheres começaram a se afastar. Andavam de mãos dadas. Abandonavam, metro a metro, o corpo morto do pai ao lado da cadeira de rodas semienterrada na areia. Mais uma tempestade vinha ao horizonte, mas elas não tinham medo.

O delegado voltou os olhos para a prancheta a fim de disfarçar a leve ereção. Com o papel em mãos, precisava de uma solução rápida e um comprimido para dor de cabeça. Rabiscou uma palavra. Suicídio. Assim, sem maiores explicações.

Agora, tudo era passado. Era pretérito perfeito, tempo de memórias ocasionais.

Fim

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Dois nós
Romance
Carolina Panta
135 p.
14 x 21 cm
978-85-53074-52-5
R$ 35
Editora Metamorfose

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