Artesania da linguagem e dos significados com Delalves Costa

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reproduçaõ

“A poesia, sendo sempre radical, exige que o poeta mergulhe fundo na vida e na linguagem. É o que faz Delalves Costa neste livro. Optando por um afiado trabalho artesanal, onde forma e conteúdo estão presentes como entes amadurecidos, onde a mensagem, lâmina, corta com a ajuda cirúrgica do bisturi experimental, a poesia desse poeta tem atraído cada vez mais a atenção da crítica”. É o que escreve José Eduardo Degrazia ao apresentar Midiaserável, novo livro de Delalves Costa que chega ao público pela Editora Patuá.

Confira o poema que empresta título à obra:

Midiaserável

I

Embora cidadezinhas-províncias
onde ainda galos é tic-tac e fogão
(de barro) a lenha
aquece rio riachos
antropófagas, automatizam o vi-
ver a vida-relógio;
se nem todos libertam as razões
como logo existir
e aspirar o pasmo
à margem da íris o nascer do sol
às vezes não nasce
acentua-se poente

II

pôr de caos: sono
precipício, acordar poroso. Súbito
a costurar a carne
corpo às 5h: a erguer-se o sistema
a pesar, não os pormenores do sol
e da indigestão, do
ar impróprio e das
artérias com suas vísceras: aclives
declives e enclaves;
sofre o tal homematéria, pernoites
no inabitável sofre-
dor útero invertido

III

pôr de caos: eletro-
encefalograma para os inconclusos
do agora (o ontem)
corpo às 6h: a língua a fala esvaída
a pesar, não os reversos do manhã
e dos jejuns (do só)
por multidões e do
fluxo com suas urgências: lapsos
relapsos, colapsos;
sobre o tal homemporâneo, noites
(noitadas e acasos)
e horas proteladas

IV

às 7h30min: por extenso ou digital
apesar, o miserável sem sentir-se
à vista se prende
a prazo o infarto
a contínua morte semanal: a suar
o suor o sangue;
sobretudo, homem-mídia quando
em bolso furado
põe o sal do mês
à mesa da família que acorda pôr
do sol natimorto,
corpo estatística.

Sobre o autor
Nascido em Osório, em 1981, Delalves Costa é poeta e escritor. No currículo, além dos doze livros editados, nove de poesia, constam ainda publicações em coletâneas impressas e nas plataformas literárias digitais do Brasil (Revista SepéMallarmargensLiteratura & fechadura, Ruído Manifesto, Bibliofiliacotidiana, Pé de Moleque Livros), Portugal (Athena, InComunidade) e Moçambique (Mbenga). Sócio-fundador e membro honorário da Academia dos Escritores do Litoral Norte (AELN/RS) e sócio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Obras recentes: O apanhador de estrelas (Class, 2018, já em 2ª edição, em 2020), extemporâneo (Coralina, 2019, na 1ª reimpressão), Midiaserável (Patuá, 2020) e Óculos de princesa (Papo Abissal, 2020, infantil). Mestre em Educação (Uergs), graduação em Letras Português e Literatura Portuguesa (Unicnec). Atua como professor de Língua Portuguesa, Literatura, Metodologia de pesquisa e Linguagens Aplicadas na rede pública estadual de ensino do RS.

Midiaserável
Delalves Costa
Poemas
120 p.
14 x 21 cm
978-65-86130-19-5
Patuá

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