Ana Paula Cecato: Políticas do livro e leitura: um compromisso e alguns caminhos possíveis

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Adrise Ferreira/CRL

Dedico este texto à Sônia Zanchetta, com quem aprendi que os livros devem circular.

Trabalhei durante 15 anos na equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, e o que levei desta experiência, além de muitos amigos e muitas lembranças, foram duas militâncias para uma vida inteira: o direito à literatura na infância e juventude e a formação de leitores e mediadores de literatura.

Em grande parte dos eventos literários, sobretudo os mais badalados da literatura “adulta”, a produção literária endereçada à infância e juventude fica relegada a um espaço menor, a um “cantinho”, com uma escolha de curadoria que por vezes privilegia a performance de um autor perante o público (e aí quanto menos autor de livros e mais performático de outras artes for, melhor). Mesmo nos eventos em que a literatura para a infância e a juventude e o encontro com os leitores ocupem seu espaço com um trabalho engajado e consistente, todos os anos este mesmo lugar precisa ser reconquistado, pois é o primeiro a sofrer os cortes orçamentários.

Tal modo de pensar faz parte de uma concepção que subestima essa produção e o trabalho dos mediadores de leitura, também revelado pela pouca presença da literatura para a infância e a juventude e da formação de leitores na mídia, na crítica literária, nos estudos acadêmicos dos cursos de Letras e Pedagogia, nos prêmios – ou seja, no circuito literário.

A divulgação da pesquisa Retratos da Leitura revela que o Brasil perdeu cerca de 4,6 milhões de leitores nos últimos quatro anos, período em que também se verifica a falta de continuidade de muitas iniciativas na área do livro e da leitura.

Bem sabemos que o futuro não é animador e que as infâncias e as juventudes correm perigo (o que é um sintoma da barbárie que nos assombra). Por isso, talvez mais do que nunca, é preciso fortalecer os vínculos entre todos os segmentos da cadeia do livro, a fim de que possamos continuar oferecendo uma literatura para crianças e jovens (futuros adultos leitores, é bom lembrar) que considere a diversidade de modos de ser, de estar e de intervir em sua própria história. A qualificada produção literária à infância e à juventude – assim como toda a boa literatura – traz um pensamento questionador e divergente, uma forma de resistir e de não sucumbir ao autoritarismo. Não é possível aceitar a redução dessa produção a uma mera decoração ou utilitarismo, recheada de clichês e estereótipos sobre a infância e a juventude, como já temos visto recentemente (mais informações neste link).

Desenhado o cenário que nos instiga a lutar pela causa do livro e da leitura, continuaremos a perder os leitores se não mobilizarmos outros agentes da cadeia. Por isso, termino esta reflexão com alguns caminhos possíveis, mesmo sabendo das dificuldades:

Para todos os segmentos da cadeia

  • Envolver-se na construção de políticas públicas em âmbito federal, estadual e municipal, estruturadas a partir dos Planos do Livro e Leitura, e/ou em iniciativas organizadas pela sociedade civil em prol da área;
  • Prêmios literários: Criar uma categoria de premiação para projetos de leitura mobilizados por equipes de bibliotecas e escolas.

Programas e projetos de leitura

  • Pensar a curadoria de projetos a partir da bibliodiversidade, contemplando autores e editoras médias e pequenas e a representatividade de gênero e étnico-racial na autoria das publicações escolhidas;
  • Investir na formação dos gestores das escolas (diretores e supervisores), mostrando a relevância da leitura na construção de uma escola democrática e cidadã;
  • Fortalecer vínculos com a comunidade escolar e a parceria com bibliotecas comunitárias e associações que possam também agregar na construção do plano político-pedagógico das escolas e também irradiar práticas leitoras no seu entorno;
  • Em programas que contemplem a visita de autores e autoras nos espaços de formação leitora, desburocratizar os processos de contratação dos artistas, possibilitando que escritores e escritoras da própria comunidade possam ser remunerados pelo seu trabalho e vender seus livros para as instituições.

Eventos literários

  • Romper com a visão de que a literatura para a infância e a juventude é uma literatura menor e, por isso, deve ocupar um menor espaço físico e na programação dos eventos;
  • Investir em formações e na constituição de acervos para as escolas, mobilizando, dessa forma, a leitura prévia dos livros pelos alunos e professores.

Escolas

  • Destinar verbas para a renovação do acervo da biblioteca;
  • Estruturar ações e projetos de leitura abrangentes com a comunidade escolar, fomentando sua participação (sacolas da leitura, sessão de histórias com familiares dos alunos, memórias de leituras compartilhadas).

Universidades

  • Oferecer disciplinas de Literatura para a Infância e Juventude nos cursos de Letras, Pedagogia e Biblioteconomia;
  • Fomentar a pesquisa sobre a produção, as práticas de leitura e a formação de leitores.

Professores e bibliotecários

  • Alinhavar projetos de leitura que evidenciam a experiência com a literatura, abandonando concepções utilitaristas (“trabalhar a leitura”) e didatizantes (“ler para trabalhar tal conteúdo”);
  • Sobretudo com os adolescentes, formar leitores autônomos, acolhendo os repertórios e as referências culturais e afetivas trazidas para a sala de aula.

Escritores, ilustradores, contadores de história, editores e outros agentes da cadeia produtiva e divulgadora do livro

  • Apoiar o trabalho da cadeia mediadora do livro, sobretudo em momentos nos quais as escolhas dos mediadores são cerceadas por famílias e pelas mantenedoras;
  • Realizar eventos de formação continuada que contemplem os processos de criação do livro e o envolvimento dos vários profissionais.

Secretarias de educação

  • Realizar concursos para que profissionais bibliotecários ocupem a coordenação das bibliotecas escolares;
  • Oferecer formação continuada na área do livro e da leitura;
  • Criar programas de incentivo que contemplem a autonomia dos leitores, tais como vale-livros para compra de acervo pessoal de alunos, professores, bibliotecários e funcionários das escolas.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s