José de Alencar, cronista do cotidiano

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Autor considerado um dos principais nomes do Romantismo brasileiro, José de Alencar é reconhecido pela sua escrita fabulista e seus romances ufanistas como Iracema e O Guarani, obras que sustentavam uma visão idealista do índio como personagem literário. O aspecto cronista e realista de sua escrita ainda é pouco conhecido, mas a pesquisa de um doutorando da UFRGS pretende ressignificar a obra do autor. O livro José de Alencar: entre o jornalismo e a ficção nasceu a partir de um achado de Renato Barros de Castro, que encontrara duas crônicas até então inéditas em livro nos arquivos de jornais oitocentistas do Rio de Janeiro. Os dois textos datam de 1856 e abordam temas cotidianos e comuns, como casos de corrupção no território brasileiro.

Nesta entrevista, Renato fala sobre o trabalho de análise dos textos de Alencar e apresenta todo o processo que levou o autor de Iracema a ultrapassar as fronteiras da crônica para chegar à produção romanesca.

Como surgiu o interesse pela produção menos conhecida de um autor do cânone nacional?
Como tenho formação em Jornalismo, inclusive com monografia que também resultou em um livro sobre Lustosa da Costa, um dos maiores representantes no Ceará tanto na área da literatura quanto na do jornalismo, eu gostaria de estudar um autor por quem, inclusive, tínhamos grande admiração, que é o Honoré de Balzac, autor de A comédia humana. Depois de cursar disciplinas de teoria literária na universidade, decidi me focar somente no Alencar, pois tanto o autor de Iracema quanto Balzac possuem obras muito vastas (só o Balzac, por exemplo, possui mais de 88 títulos), enquanto o Alencar possui uma obra influenciada pelo mestre francês e igualmente cheia de nuances. Desse modo, segui recomendações de meus professores de teoria literária, ou seja, estudar as crônicas e estudar exclusivamente o Alencar, pois, com a minha formação de jornalista e já tendo publicado uma obra sobre um autor que transitava entre o jornalismo e a ficção, como o Lustosa da Costa, eu tinha boas chances de desenvolver um bom trabalho, além do fato de as crônicas corresponderem a uma parte ainda pouco estudada na obra do Alencar. Desse modo, fui me interessando muito pelo universo da crônica alencarina, pois percebi de imediato que elas apresentavam um Alencar totalmente diferente daquele que eu sempre costumei ouvir falar.

O que esse perfil cronista de cotidiano pode agregar aos estudos sobre a obra do autor a partir de agora?
Antes de tudo, eu destacaria uma nova percepção sobre o autor, e que diria respeito a um Alencar “realista” em contraposição à imagem do Alencar “romântico”. No estudo das crônicas produzidas por ele na década de 1850, que foi quando ele começou a carreira como jornalista e cronista, atividade que iria propiciar sua chegada à produção de seus primeiros romances (ou seja, Cinco Minutos e A viuvinha), a gente percebe um viés realista nesses trabalhos, que foram publicados nos jornais cariocas Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro. Com essa análise, nos deparamos com um autor que visita não apenas os salões aristocráticos, mas que também se interessa por mostrar a vida e as dificuldades das populações menos favorecidas do Rio de Janeiro, chegando a reclamar do preço dos alimentos, criticando os poderosos, os governantes, em suma, o “status quo” e os privilégios concedidos a poucos, no Império.

O que as duas crônicas encontradas falam da sociedade da época?
Por incrível que possa parecer, a resposta mais direta seria: elas falam não apenas da sociedade da época, mas falam também da sociedade de hoje. A atuação de Alencar na imprensa foi decisiva para tudo o que ele iria construir. Primeiramente, é importante lembrar que ele produzia uma coluna semanal em que fazia um inventário dos eventos importantes do Império, o que o obrigava a visitar diversos ambientes sociais. A descoberta de dois folhetins inéditos em livro, publicados no Diário do Rio de Janeiro, muito embora datem de 1856, falam de temas muito atuais, como a corrupção no território brasileiro e as críticas aos governantes quanto ao melhor uso dos recursos públicos.

Qual era a qualidade dos originais encontrados por você na pesquisa?
Difícil de ler, pois além de manchas causadas pelo tempo ou de impressão do próprio jornal, algumas partes estão quase ilegíveis (sobretudo na crônica denominada Apólogos), além de vários arcaísmos e palavras em desuso. De todo modo, o leitor do meu livro não deve se preocupar, pois eu exponho tanto os fac-símiles dos jornais como faço a transcrição do texto integral de ambos. Quem tiver interesse em conferir a obra e toda a análise desse novo Alencar que meu ensaio pretendeu trazer à tona, basta visitar o site da editora da PUC (link externo).

Como foi a transição da escrita de Alencar do jornal para o romance, gênero que o consagrou?
A hipótese inicial da minha pesquisa dizia respeito justamente a essa questão, ou seja, mostrar como o José de Alencar passou da atividade de cronista à atividade de romancista, pois ambas as realizações foram efetivadas por meio das colunas que ele mantinha nos jornais. Com o avanço da pesquisa, vieram as descobertas e surpresas, como o viés “realista” de um autor do Romantismo e, ao mesmo tempo, os dois textos inéditos em livro. Na verdade, os romances de estreia de Alencar, ou seja, Cinco minutos e A viuvinha, por exemplo, são uma espécie de desdobramento natural das crônicas, tanto no que se refere aos temas quanto à própria produção textual. Comparando-se os textos das crônicas com o dos romances, é possível perceber verdadeiras paráfrases, textos muito idênticos. Inclusive chega a coincidir a menção a pessoas da vida real (vide o caso da cantora lírica Charton, um dos grandes nomes da cena cultural carioca no século XIX) tanto nas crônicas quanto nos romances (no caso, Cinco minutos). Já em A viuvinha, o autor – que se demitiu do Correio Mercantil por criticar os acionistas que patrocinavam o jornal – aborda os mesmos temas das crônicas, como a crítica à ascensão da atividade capitalista (que, a seu ver, estava subjugando o valor da pessoa humana por cifras e valores econômicos) e a vida das camadas menos favorecidas da população.

Há alguns anos, vieram a público cartas em que José de Alencar não se posicionava contra a escravidão no Brasil, contrariando as ideologias emancipatórias que já vigoravam no Ocidente naquela época. O que as suas descobertas revelam sobre esse aspecto do autor?
Não apenas nas cartas, mas mesmo nas crônicas, Alencar é francamente contra a escravidão. Essa é a postura dele como cronista, e que coincide com o início da carreira dele na imprensa. Lamentavelmente, ele mudaria de postura mais tarde, se reafirmando do lado do poder e não do lado da população que mais sofria – e uma das que mais viria a sofrer – no país.

Você pretende dar continuidade à pesquisa de textos perdidos deste ou de outros autores?
Depois de estudar o desenvolvimento e surgimento da crônica tanto na França quanto no Brasil, passei a estudar um tipo mais específico da crônica, que é a crônica de viagem. Desse modo, no doutorado, estudo narrativas desse gênero na obra de Goethe e Claudio Magris (não se trata exatamente de crônicas, mas de diários de viagem ou ensaio). Atualmente, inclusive, estou desenvolvendo o projeto Mundo na Janela (link externo), em que abordo o entrecruzamento entre literatura e viagem, e que tem o objetivo de mostrar as mais diferentes facetas de um país plural como o Brasil, onde a riqueza está na diversidade: por isso mesmo, o destaque é para o patrimônio material e imaterial do nosso território, com destaque para pessoas do povo, anônimas, assim como o folclore e as lendas e histórias da tradição oral. É desse modo que passo a “inventariar” lugares das cinco regiões do país, e que em breve estarão reunidas em novo livro, com crônicas inéditas, a serem lançadas pela Editora Bestiário/Class, comandada por Roberto Schmitt-Prym, de Porto Alegre.

José de Alencar: entre o jornalismo e a ficção
Renato Barros de Castro
292 p.
14 x 21 cm
R$ 49,90
EdiPUCRS
Compre aqui (link externo)

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