Minha rotina: Lélia Almeida

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

“Tive uma experiência pessoal muito impressionante de ir morar numa casa que diziam mal assombrada pelo espírito de uma mulher que viveu e se enforcou lá, e aí era tudo literário demais para não ser escrito”. É com tamanho impacto pelas histórias que a cercam que Lélia Almeida escreve e se permite envolver pela escrita. Um dos nomes mais admirados da literatura contemporânea do Rio Grande do Sul, a autora é a convidada desta edição da série Minha rotina. Pesquisadora atuante e engajada na escrita feita por mulheres, foi vencedora de um Prêmio Açorianos de Literatura em 2013 com o romance O amante alemão. Entre livros individuais e participações em antologias, somam-se mais de quinze títulos, como As meninas más na literatura de autoria feminina e numa estrada sem fim que carrego aqui dentro – este, publicado em 2019. Nesta entrevista exclusiva, Lélia Almeida fala sobre processos, inspirações, desafios da escrita neste e em qualquer tempo e muito mais. Boa leitura!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Não tenho nenhum tipo de rotina para a escrita e não escrevo diariamente. Mas tudo o que faço todos os na minha vida tem a ver com a literatura. Não acho que a escrita seja o produto final mais importante, eu sonho com livros, com frases, com personagens e tenho a preparação das minhas aulas para os grupos de alunos, e tudo isto junto me faz estar sempre na casa da literatura, que é o meu lugar preferido. O processo de escrita é errático, em relação às crônicas posso pensar meses sobre uma determinada ideia, e quando o processo mental está pronto a crônica nasce inteira, muitas vezes sem sequer necessidade de revisão ou correção. Quanto aos relatos maiores, novelas ou romances também não há nenhuma fórmula ou modelo, O amante alemão que inicialmente tinha 500 páginas foi escrito em 35 dias, montado em seis meses e levou sete anos para ser publicado e eu não tinha a menor ideia da história que eu ia contar, foi muito surpreendente. Invejo muito profundamente as pessoas que tem uma rotina e disciplina para escrever. Mas não é o meu caso. É tudo bastante caótico mesmo, agora, com mais idade, não acho de todo ruim, o meu caos é produtivo, nos relacionamos bem. Mas, às vezes ainda fantasio que podia ser mais disciplinada para outras coisas também, além da escrita.

Fotos: acervo pessoal

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Tanto as crônicas como as novelas e ensaios escritos antes de O amante alemão, a minha narrativa mais extensa, eu sabia, livro após livro a história que queria contar, eu sabia do queria falar, conhecia o tema, mesmo que os desdobramentos me levassem a outros caminhos. Então o planejamento incluía a pesquisa sobre o contexto, a escolha sobre quem ia contar a história e as demais escolhas estruturais. Mas nunca foi um planejamento muito rígido sobre o que fosse acontecer em cada capítulo. E o próprio andar da escrita ia mudando alguns acordos prévios. Sempre leio e pesquiso muito durante o processo de escrita, e isto ajuda muito. Mas aquele planejamento que os manuais ensinam, do que escrever em cada capítulo, do ápice estar em tal página e coisas deste tipo, este eu nunca consegui fazer, quem sabe um dia. O amante alemão eu não planejei nada e não tinha a menor ideia do que ia escrever, só com o relato mais adiantado entendi sobre o queria contar, foi uma experiência bem anárquica, mas me entreguei inteiramente a ela, e terminou por ser surpreendente e prazeroso.

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Leio e vejo filmes, mais leio do que vejo filmes. Então não há, exatamente uma distração para o trabalho da escrita, o que está nos livros ou relacionado ao mundo dos livros e das histórias ainda é o que mais me distrai e diverte. Ouvir histórias também me encanta, converso muito com pessoas que não conheço, escuto histórias em lugares públicos, presto atenção nas pessoas no ônibus, enfim, estar no meio das gentes é sempre um momento privilegiado de observação e de imaginação. E às vezes o que a gente ouve das pessoas termina por se revelar em ouro em pó do ponto de vista literário, como um verdadeiro presente.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Sempre utilizo o Word/Office, anoto muito no bloquinho do celular e depois organizo no Note, e uso o gravador do celular para aqueles momentos que sei que não vou acordar decentemente para escrever e depois voltar a dormir porque sou uma velha insone. A organização das pastas é sempre uma confusão, assim como a dos arquivos que vou colocando versão 1, versão 2, etc e que não me ajudam em nada. Nunca entendo como no final termina dando certo. Mas imprimo as páginas do que foi escrito e vou grudando nas paredes da casa, isto, que parece meio primitivo, realmente me ajuda a ver melhor o conjunto. Além de grudar nas paredes da casa já usei o chão para ter uma visão geral do texto como um mapa, talvez não seja muito prático, mas funciona pra mim. E como quase sempre fiz este trabalho final nas férias de verão quando o meu filho saía de férias com o pai, a casa bagunçada não atrapalhava muito. Começo a escrever sempre a mão num caderno e só depois passo tudo para o computador para seguir com o que já sei que quero fazer. Mas o primeiro trabalho no caderno é artesanal e ainda gosto muito do que sinto quando trabalho assim, volto a ser aluna com o encantamento do caderno novo no primeiro dia de aula.

O que uma escritora precisa para escrever?
Um mínimo de paz de espírito, não precisa toda a paz de espírito que se desejasse porque a vida não é assim. Todo este período da pandemia eu li muito, dei muitas aulas e não escrevi praticamente nada, embora sonhe com a escrita e esteja envolvida com ela de outras maneiras, como dando aulas e palestras. Mas não senti necessidade de escrever sobre o que está acontecendo agora, como se precisasse acomodar a experiência dentro de mim e como se a energia demandada do aprendizado psíquico de ter de viver o tempo e o espaço de um modo completamente diferente, me absorvesse demais. Estou toda mais lenta e devagar, durmo mais, não tenho o mesmo ritmo para fazer as coisas como fazia antes, se limpo o banheiro não limpo o quarto, enfim, um ritmo próprio e novo para mim. Com o espírito desassossegado com tudo o que estamos vivendo, confusão, insegurança e angústia, é difícil relaxar para se divertir, que é o que a escrita mais representa para mim, um jeito de brincar, uma atividade lúdica. Preciso mais desta paz de espírito do que “o quarto todo seu” preconizado pela Virginia Woolf. As mulheres não tiveram e não terão jamais nem tempo e nem o lugar ideal para a escrita. Escreveram e escreverão entre trabalhos, atividades domésticas, demandas afetivas, quando conseguem um diminuto tempo para si. E esta história não muda, é muito impressionante que ainda seja assim. Sobre isto, gosto de uma fala da Erica Jong onde ela diz: Las exigencias vitales, casi siempre, son la antítesis de las exigencias artísticas. “El llanto de una criatura no es lo que más intensifica el estado soñador necesario para escribir poemas. (…) ¿Hay algún artista que pueda creer que eliminando la confusión y el tumulto de la vida estimula su arte? Las artistas, mujeres, no lo creen. Saben que el niño que llora hay que acomodarlo de alguna manera con el manuscrito que reclama que no lo abandones. No importa la concentración que una pierde, se gana inconmensurablemente en riqueza de observación. La fuerza de la vida está con una: lo cotidiano, el milagro ordinario de la vida.”

O que você está escrevendo no momento?
Estou com um livro de crônicas no prelo, pela Confraria do Vento, que se chama A consulente sou eu, onde eu conto as histórias do Tarot, da minha experiência de escuta com as cartas. Tenho um livro infantil pronto e estou escrevendo um romance. Para escrever este romance estou lendo gótico feminino faz cinco anos. Não será um romance gótico clássico mas vou usar muitos recursos do que hoje é chamado de literatura insólita, indo para um lado mais fantasioso. Tive uma experiência pessoal muito impressionante de ir morar numa casa que diziam mal assombrada pelo espírito de uma mulher que viveu e se enforcou lá, e aí era tudo literário demais para não ser escrito. Mas fui estudar as góticas todas e aprender, praticamente, um outro idioma. Faço parte daquela parte do mundo que ama sentir medo, vamos ver se vou conseguir dar este prazer para os leitores também. Acho que é uma experiência nova, não me imagino sendo uma representante do gênero embora adore a literatura fantástica, de horror, maravilhosa como um todo, fazendo jus a minha origem fronteiriça, de ter sido criada em Sant’Ana do Livramento, na fronteira com Rivera. A literatura latino-americana foi fundamental na minha formação e é até hoje.

Quais autores e autoras são os seus preferidos?
Karen Blixen, Virginia Woolf, Borges, Doris Lessing, Manuel Mujica Láinez, Angela Carter, Liliana Heker, Juan Rulfo Cristina Peri-Rossi, Gabriel García Márquez, Carmen Martín Gaite, Cortázar, Ana Maria Matute, Marguerite Duras, Felisberto Hernández, Clarice Lispector, Carmen da Silva, Horacio Quiroga, Marina Colasanti, Adélia Prado, Amilcar Bettega Barbosa, Rosario Ferré, Margaret Atwood, Elena Poniatowska, Shirley Jackson, Machado de Assis, Flannery O’Connor, Ana Maria Shua, Edgar Allan Poe, entre muitos outros.

E quais livros vocês recomenda?
Cuentos de invierno, de Karen Blixen, Câmara sangrenta, de Angela Carter, Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, Conversación al sur, de Marta Traba, O sonho mais doce, da Doris Lessing, Orlando, da Virginia Woolf, Frankenstein, de Mary Shelley, Cuentos completos, da Silvina Ocampo, Todos los cuentos, de Cristina Fernández Cubas e A odisseia de Penélope, da Margaret Atwood, entre outros.

numa estrada sem fim que carrego aqui dentro
Lélia Almeida
128 p.
12 X 18 cm
R$ 38
Casa Verde
Compre aqui (link externo)

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