Das distâncias e não dos distanciamentos

Edição: Vitor Diel
Artes: Giovani Urio

Qual a probabilidade de temas como Astrofísica, a escrita do angolano Agostinho Neto, o feminino e o distanciamento social provocado pela pandemia convergirem numa mesma obra de arte? Para a mente habilidosa da poeta Michelle C. Buss e da designer Clara Állygra Lyra Petter, muito alta. As artistas trabalham atualmente no livro (um parêntesis sobre distâncias), coletânea de poemas que está em vias de publicação através de uma campanha de financiamento coletivo (link externo). Na obra, Michelle e Clara unem esforços para tratar do tempo atual, mas também de tópicos subjetivos como amor, solidão e afeto.

Nesta entrevista exclusiva, realizada via e-mail, a escritora e a designer compartilham curiosidades sobre o processo criativo de (um parêntesis sobre distâncias), o impacto do mundo concreto e do subjetivo na obra e a relação inspiradora que as artistas nutrem. Boa leitura!

O título da obra parece convocar a uma reflexão sobre o distanciamento social que uma parte dos brasileiros tem mantido desde o início da pandemia. Esse movimento é intencional?


Michelle: Por incrível que pareça, a origem do título do livro é muito mais antiga do que o cenário da pandemia. Em 2014, eu e a Clara éramos colegas na Letras e decidimos fazer juntas uma disciplina eletiva de Astrofísica. Em uma dessas aulas, estudamos sobre como eram medidas as distâncias do Universo: a distância da Terra até o Sol, da Terra até a Lua, por exemplo. Em dado momento o professor fez um comentário sobre essas medidas e disse que era importante fazer “um parêntesis sobre distâncias”.

Clara: Porque ele ia acrescentar algo mais sobre o assunto, sabe, quando a gente diz “deixa eu fazer um parêntesis sobre isso”? A Michelle tem essa mania de ouvir as coisas soltas e achar palavras e frases legais, ela anota tudo em vários caderninhos e depois usa na escrita dela. Então quando começamos a pensar o terceiro livro dela em 2018, ela trouxe o tal “parêntesis sobre distâncias” como possível título, mas como ela tinha muitos poemas sobre a temática da mulher, na hora achei melhor focar nisso (e daí nasceu o livro não nos ensinaram a amar ser mulher) e deixar os parêntesis pra um livro futuro, sugerindo que ela maturasse outros poemas nessa temática.

Quantos poemas compõem a obra e de que forma a pandemia afetou a escrita ou seleção desses textos?

Michelle: Bom, em 2019 decidimos que era hora desse “parêntesis” sair da gaveta e começamos a trabalhar na construção do próximo livro. A ideia inicial era nos prepararmos pra publicar em 2020, contudo, ao nos depararmos com a realidade pandêmica, decidimos segurar o livro e repensar… até para entender melhor tudo que estava acontecendo. O tema deste livro é distância; com o coronavírus, a nossa noção de distâncias se transformou e muito e ficamos refletindo que era essencial repensarmos na construção do livro, na ordem dos poemas.

Clara: Existia também uma preocupação de fazer um livro mais leve, porque não nos ensinaram a amar ser mulher é um livro mais emocionalmente pesado, já recebemos o feedback de vários leitores falando que choraram lendo ele, que os poemas do livro despertaram uma nova consciência sobre seus relacionamentos, chegamos a receber relatos de mulheres que, após a leitura do livro, depois de anos em casamentos desgastados tiveram enfim coragem para se separar e começar um novo ciclo, coisas desse tipo… Eu mesma, toda vez que editava ele, acabava com lágrimas nos olhos, justamente porque estamos vivendo esse momento de refletir mais intensamente sobre o “ser mulher”. Então sempre achei que esse novo livro precisava ter uma ideia mais lúdica. Daí com a questão da pandemia, rever o livro se mostrou essencial porque o significado de distâncias mudou, e talvez o que antes não fosse um poema triste, agora tivesse um novo significado. Relemos tudo com a intenção de que o leitor saísse do livro tendo feito reflexões, sim, mas com um sentimento de mais esperança na vida. Levamos mais um ano justamente porque foi um processo mais lento e difícil devido ao momento.

Michelle: De março até novembro, trabalhamos cada uma em sua casa reorganizando os poemas, incluindo uns, tirando outros, mudando a ordem. Foram muitas chamadas de vídeo… e lógico, em muitos momentos, eu parava tudo que fazia ao me deparar com a dor e as transformações forçadas que a pandemia trouxe, então, eu escrevia… e me debruçava sobre o manuscrito do livro pensando se os poemas se encaixavam ou não, ou como minha atual vivência ressoaria nessa obra, eu queria derramar nos meus versos esse impacto das distâncias e do nosso contexto atual, mas ao mesmo tempo conferir a eles certa leveza, esperança, amor acompanhados de um componente de “ressignificação/transformação”. Foram verdadeiros mergulhos internos, longas reflexões existenciais e poéticas, inúmeras trocas ideias com a Clara, e no final ficamos com um livro com em torno de 60 poemas.

O poema a dor que carrego no peito parece sugerir um olhar sobre o ano de 2020, marcado por tragédias como os grandes incêndios no Brasil e a pandemia. De que forma a sua poética dialoga com o tempo atual?

Michelle: Esse poema começou a ser escrito em 2015, durante uma aula de Literaturas Angolana e Moçambicana. Eu ouvia o professor falar sobre Agostinho Neto e fiquei tocada com a potência dos versos e da vida de Agostinho. Mergulhada nesse universo da poética desse grande nome da literatura angolana, escrevi o primeiro esboço desse poema. A ideia inicial era criar uma metáfora sobre a “dor do amor” a partir de questões políticas. Nessa época, o Brasil já era palco de tensões sociais, ambientais, não é? Bom, depois de um tempo, comecei a lapidar os versos e me distanciei um pouco dessa metáfora inicial, trazendo ele mais para a esfera social. Por fim, o que começou em 2015, terminou no segundo semestre de 2020 com a arquitetura que ele tem hoje e que sim, acaba por dialogar diretamente (e infelizmente) com a nossa realidade.

Clara: No fundo essas problemáticas de hoje já vêm de mais tempo, né. Uma coisa interessante que percebo com alguns artistas, como é o caso da Michelle, é que muitas vezes eles começam a produzir algo a partir de sentimentos e situações do seu micro universo, mas existe uma certa sensibilidade e intuição do artista que faz com que o que ele produz consiga reverberar essas questões que são do macro, da sociedade, dos problemas que afetam a todos nós, e acho que é nesse ponto que a arte nos afeta, nos faz sentir a realidade de outro jeito.

Michelle, em seu livro anterior, não nos ensinaram amar a ser mulher, você exercita uma voz poética engajada com uma consciência do feminino e do humano e com uma reflexão sobre a posição das mulheres no mundo social e afetivo, concreto e subjetivo. Os leitores podem aguardar por esta abordagem em (um parêntesis sobre distâncias)?

Michelle: Sim! Desde que a escrita para mim se tornou palco, horizonte que abriga a potência das transformações e que é espaço de voz, muitos dos meus poemas percorrem essa temática. Como mulher que escreve em uma sociedade machista, homofóbica, preconceituosa, que marginaliza minorias; como indivíduo que vive nessa sociedade que constrói realidades duras e cruéis, minha voz poética é o lugar que tenho para expressar meus desassossegos, minhas incertezas, minhas contemplações, minha dor perante esse real, minha luta, minhas reflexões. Em não nos ensinaram a amar ser mulher, os poemas abrem um espaço para repensarmos questões como a posição das mulheres no mundo social, concreto, afetivo e subjetivo, porém, também são janelas para revermos e resgatarmos nossa consciência do humano e do feminino, independente de gênero. Essa dinâmica nascida em não nos ensinaram a amar ser mulher também deságua em (um parêntesis sobre distâncias). Mas, claro, o leitor também encontrará nesse próximo livro poemas de amor, de solitude, sobre saudade…

Clara: No fundo estamos usando um conceito expandido de distâncias, que permite discutir várias questões: distâncias geográficas, distâncias temporais, distâncias sociais, distâncias afetivas, vazios, linhagens, espécies, alteridade, linguagens… Apesar de termos a intenção de fazer com que (um parêntesis sobre distâncias) seja um livro de leitura menos dolorosa e mais lúdica, isso não significa que os poemas do livro não tenham uma proposta de engajamento social ou reflexão. Acho que depois que um artista começa a dar voz pra essas questões da sociedade e do humano, é uma porta que tem que ficar aberta, não se consegue mais fechar isso completamente dentro de si. Então, sim, o livro tem muitos poemas de cunho reflexivo, político e social, outros inclusive que podem ser lidos assim ou não (cabe à interpretação do leitor), a questão é que buscamos equilibrar a ordem e a quantidade dos poemas e suas temáticas, pra que, apesar dos temas pesados ainda aparecerem, o fluxo de leitura fosse uma experiência com sabor agradável.

Clara, como criadora do projeto gráfico, de que forma o design deste livro reproduz os conceitos que os poemas buscam alcançar?

Clara: Estamos aproveitando o período da campanha no Catarse pra ir criando junto. Estamos divulgando a campanha usando fotos tiradas por nós duas, do nosso acervo pessoal, que deem ideia de viagens, locais diferentes, distâncias percorridas, que é uma noção que a gente quer trazer nas recompensas também. Sobre o livro, o que dá pra falar é que desde sempre já tinha essa ideia de ser um livro com uma pegada mais lúdica, então eu queria trazer algum elemento diferente pra ele, e chegamos a pensar várias ideias. Nesse processo de recomeçar todo o projeto do livro do zero a partir da pandemia, joguei fora todas as ideias anteriores e tentei pensar algo que dialogasse com o que estamos vivendo. No momento decidimos trabalhar ilustrando o livro com “doodles”, sabe? Aqueles desenhinhos que a gente fica fazendo no canto do caderno quando tá entediado. Nós duas temos alguns nossos, e pedimos outros para amigos, porque eu acho que é algo que muita gente faz e vai se identificar, e que combina com essa ideia de estar parado entediado em algum lugar (um sentimento bem 2020), mas também com a ideia de viajar, imaginar, sonhar com situações diferentes e lugares distantes.

Michelle: Esses dias a Clara até já me mostrou uma primeira diagramação do texto, ainda sem essas ilustrações, e é interessante a sutileza da diagramação, que não é estática sempre igual em todas as páginas, ela por si só dá ideia de movimento. Na campanha que estamos fazendo pelo Catarse, algumas opções de recompensa têm junto o que chamamos de “lista de transmissão”, a partir da qual estamos enviando notícias conforme vamos propondo o projeto do livro. A ideia é que os apoiadores possam acompanhar mais de perto a produção e as escolhas que formos fazendo e alguns detalhes vamos poder abrir para votação também.

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