Minha rotina: mariam pessah

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

Radicada em Porto Alegre há mais de vinte anos, a argentina mariam pessah é uma escritora que concilia em sua subjetividade duas aptidões aparentemente contraditórias: a introspecção da escrita solitária e a construção coletiva para a mudança social. Autora de Grito de mar, antologia de poemas lançada pela Editora Taverna em 2019, mariam organiza há mais de três anos um dos saraus mais reconhecidos de Porto Alegre, o Sarau das Minas, que tem o objetivo de visibilizar a literatura de autoria de mulheres.

Sua escrita e sua posição na vida coincidem para a construção de uma carreira na literatura que dialoga que o tempo atual, uma visão de mundo que, na entrevista abaixo, se mostra enraizada numa consciência sobre as mulheres que a antecederam e aquelas com as quais ela compartilha o tempo presente – um exercício que ela faz com veemência através de sua Oficina de Escrita e Criatividade FeminiSta. Convidada desta edição da série Minha rotina, mariam pessah compartilha a seguir seus processos criativos, de escrita e de leitura. Confira!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Não. Eu tenho uma rotina para a leitura. Eu leio todas as manhãs, primeira coisa que faço ao acordar, antes, inclusive de tomar café. Se estou num projeto de escrita, eu leio coisas que têm a ver com o tecido que estou produzindo, e aí fico em conversa, então, estou escrevelendo. Para mim é impossível (ou pobre) separar o ato da escrita do da leitura. Escrever é também estar em diálogo. Se não estou trabalhando num projeto determinado, às vezes igual, algum poema fica escrito/inscrito entre os livros e papéis que sempre me rodeiam. Poema gera poema em mim.

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Eu escrevo diferentes coisas, tanto prosa quanto poesia, e tanto ficção, quanto não ficção. Sou gêmeos (risos). Então, cada projeto pede uma elaboração diferente. O que estou elaborando agora é um poemário. Mas também tenho uma novela que me levou bastante planejamento, pois não tem uma narrativa linear. Cheguei a ficar com as paredes e o piso tomado pela história. Um outro projeto nem tão a longo prazo que venho escrevendo devagar e constante, é um livro de memórias e reflexões, algo como um álbum de palavras.

Vou contar um pouquinho mais. Respeito ao livro de poemas, o processo foi bem diferente que o do Grito de mar, publicado em 2019. Havia um importante prêmio ao qual eu queria submeter o “meu livro”, mas ainda não havia livro. Eu sabia que eu vinha escrevendo e arquivando poemas numa pasta, mas não fazia ideia de quantos eu tinha, de alguns já tinha até esquecido. Não por tempo, mas por não ter voltado a eles e porque estes tempos pandêmicos nos submergiram em outra noção de tempo/espaço. Fui revisando e imprimindo todos os poemas, depois fiz uma edição. Alguns ficaram de fora. Outros, mereciam mais tempo de cocção. Trabalhei uns dez dias só com isso. Minhas leituras matinais, nesses dias, foram releituras de poetas que admiro. Voltei a imprimir os poemas que tinham sofrido correções e fui lendo e anotando palavras chaves. Na hora de dar uma ordem, fui unindo não necessariamente por temas, mas eu me importava em manter uma cadência. Que os poemas fossem em si e também com o todo. Recém então passei para amigas poetas darem uma lida. Voltou a mim e continuo em pensamento e trabalho, deixando decantar um pouco. (Pro concurso já enviei, mas na minha cabeça o processo continua).

Fotos: acervo pessoal

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Atividade física para mim é essencial. Em épocas normais ando de bicicleta, mas como já tive alguns acidentes bem feios, quero evitar qualquer visita a um hospital, com o qual, tô louca de saudades da Cleta. Caminho na Redenção e, durante a pandemia, comecei também na esteira e a fazer exercícios em casa. Também adquiri um novo hábito e é o de assistir séries. Não sou muito boa para a tevê. Durmo frente à tela. Recentemente vi 8 em Istambul, super-recomendo! Já aviso, o tempo é mais vagaroso que o ritmo de cinema europeu. É muito interessante a organização do tempo e a construção das personagens, o que vai sendo revelado e o que não, vai criando um quebra-cabeças. Lembra o filme Do outro lado. Vi ele há anos e sempre quis voltar a ver. Fui googlear agora para ter certeza que fosse esse o nome e uma parte também acontece em Istambul, a outra, na Alemanha. Tem esses jogos anacrônicos que eu adoro, meio labirinto. Curto muito reler e rever, já sabemos, né, nunca se toma o mesmo banho de rio, sintoma de que a obra é boa. Outra coisa é interagir nas redes sociais. Um pouco faz parte do meu cotidiano. Ver o que outras pessoas estão lendo e comentar sobre isso. Também sobre a realidade inimaginável que a gente vive. Hoje as redes a mim me informam e, por momentos, nos ajudam a uma catarse coletiva. Outra coisa que me faz muito bem são os dois espaços que organizo como o Sarau das minas e a oficina de escrita e criatividade feminiSta que dou uma vez por semana. São atividades que me mantêm ativa. Escrever envolve muitas ações até chegar ao trabalho braçal, inclusive, às vezes o momento exato da escrita é menor que o tempo que passamos lendo e pensando e refletindo e conversando sobre. Uma vez, lendo uma reportagem, uma escritora dizia que o tempo que ela passava na rede, olhando para o céu, ela o considerava dentro do tempo de trabalho. Embora minha mãe nunca compreenderia isso, a mim me acontece igual. Sobretudo quando somos poetas. Claro que para escrever prosa o tempo é outro. Não sei quanto tempo sobraria a Dostoiévski para a rede. Outra distração é a limpeza da minha casa. Às vezes encontro ritmo até na hora de passar o pano no chão. No ir e vir.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Geralmente primeiro escrevo em papel e depois passo ao computador. Eu sempre usei o Word, mas um ano atrás troquei o computador e não vou pagar para Microsoft, então baixei o LibreOffice que, não é igual, mas é eficiente. Tenho guardado o meu antigo computador e, às vezes, passo de um ao outro para revisar coisas que esta plataforma não me oferece ou eu não sei usar. A organização dos meus arquivos é bem caótica. Sempre tento melhorar, juro que vou perguntar às pessoas como fazem. Atualmente tenho uma pasta que é Escrevendo, antes tinha outra: Yo. Quando “lota”, atualizo. E aí estão todas as pastas de poemas, com Novo livro, a minha Novela, os arquivos de Álbum de palavras que têm várias pastas dentro, têm outra de ensaios, de publicações. E assim vai.

O que uma escritora precisa para escrever?
Eu acho que um espaço próprio com certeza. Disso falam desde a Virginia Woolf até a Carolina Maria de Jesus que, no barraco, estava fazendo um espaço para os seus livros e para sentar a escrever. E, certamente, ideias, mas só com ideias a gente não escreve, a gente escreve também com pensamentos e reflexões, coisas que a gente só vai descobrir na hora da escrita. A mim me acontece de ser acontecida pelo texto. Que ela, a escrita, me revele coisas de mim que eu desconhecia que pensava ou que sabia. A gente escreve quando lê e conversa e reflete e questiona e faz um aporte dando uma volta a um tema considerado comum. Escrever, como fotografar, é mostrar algo que pode estar conosco no cotidiano, porém dito de uma forma que gera uma epifania, como o cego que mastiga chiclete na Clarice. A foto que “eu também tirei” o conto que “eu também escrevi” não acrescenta. E como a gente vai acrescentar? Pensando, refletindo. A ideia é a ponta do iceberg, mas se ela não é desenvolvida, fica nisso mesmo. Um grande motor é a curiosidade, assim como na escrita social é a raiva. Eu trabalho muito com ela. Já fizemos como tema de vários Sarau das minas e foram ótimos! Saímos super pilhadas. Porque a raiva, diferente do ódio, é a tinta, o motor da escrita é combustível para a ação. Não existe revolução sem raiva, não é possível nenhuma mudança de base sem ela.

Outra coisa que a gente precisa para escrever: ferramentas. Assim como para cortar a grama, para ser médicx, para ser artista. Só escrever na hora da inspiração ou contando o que “me aconteceu”, mesmo que em prosa poética, tem um limite. A gente vê que está no ofício o dia que não sabe como começar, por onde ir e continua. Um princípio muito conhecido se denomina horas bunda. E, uma das coisas mais lindas que já me aconteceu é quando estou no processo de uma história e caminho pelas ruas de Porto Alegre com a minha personagem. Conversando com ela e vendo suas reações.

Quais autores e autoras são os seus preferidos e quais livros vocês recomenda?
Como escritora lésbica e ativista por muitos anos, vou começar mencionando primeiro a literatura, tanto teórica como literária, de Monique Wittig, que tem me influenciado muito, assim como a da Adrianne Rich e Gloria Anzaldúa. E o livro Esta puente mi espalda. E a Natália Borges Polesso e o seu incrível Amora. Eu sou uma defensora de ler autoras e autores vivxs. Mencionar algumas é sempre deixar outras sem nomear, mas não fora. Tá? Sou muito fã da poesia da Angélica Freitas, dos romances da Carola Saavedra, Adriana Lisboa. De Veronica Stigger e da Conceição Evaristo, que têm vários gêneros e isso me representa muito. Aprendi muito lendo a Carolina Maria de Jesus. Eliane Brum, minha última paixão! Adoro a Lilian Rocha e a ousadia de Ana dos Santos. Uns anos atrás li muito o Cristovão Tezza, gosto muito de Jeferson Tenório. Algumas escritoras argentinas como Paula Jimenez España. Indo para não vivxs, Virginia Woolf, Cecilia Meireles e Clarice Lispector, elas três, tem prateleiras especiais na minha biblioteca. Amo a Wislawa Szymborska. Infaltável Dostoievski ― estou relendo Crime e castigo, a gente aprende tanto com ele! ― Julio Cortázar e Borges e Ricardo Piglia (mesmo com conflitos e contradições). Como livros, recomendo Matate amor, que foi traduzido como Morra amor, da escritora argentina Ariana Harwicz, na mesma linha, o Uma duas, da Eliane Brum. São livros que trazem visões cruas sobre relacionamentos entre mães e filhxs. Adorei A morte de paula d, de Brisa Paim, com uma prosa poética inovadora. Já com outro viés, está Com armas sonolentas, da Carola Saavedra, embora dela eu recomendo todos os seus livros, este poderia dizer que é literatura em 3D. Também recomendo A resistência, de Julián Fuxs, e Morreste-me, de José Luis Peixoto. Assim, como Eu sou macuxi e outras histórias, de Julie Dorrico.

Grito de mar
mariam pessah
126 p.
R$ 39,90
Editora Taverna
Compre aqui (link externo)

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