Minha rotina: Irka Barrios

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

“Acho que já compreendi que meu tempo de escrita é restrito e assim que ele se esvai não há porque insistir, a criatividade meio que morre. Preciso respeitar o ciclo”, reflete a escritora Irka Barrios, convidada da série Minha rotina. Nesta entrevista exclusiva, a autora de Lauren, livro finalista do Jabuti em 2020, compartilha seus processos criativos e revela seus espaços de leitura e escrita, além de autores e livros recomendados.

Confira abaixo!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Não sigo uma rotina e não escrevo diariamente. Infelizmente (ou felizmente, sei lá) perdi a ilusão da escrita como eixo central da minha vida. Tenho que tocar outros projetos, pagar boletos, como se diz. Mas não caio nessa de lamentar a falta de tempo para escrever. Acho que já compreendi que meu tempo de escrita é restrito e assim que ele se esvai não há porque insistir, a criatividade meio que morre. Preciso respeitar o ciclo. Ele me mostra que uma nova onda de pensamentos encadeados virá em alguns dias. Tento aceitar isso sem ansiedade.

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Eu gosto da pergunta porque ela me deixa em xeque. Eu gostaria muito e inclusive fiz oficinas que me ensinaram a enxergar o livro como um todo, um organismo. Mas tenho dificuldades de colocar em prática. Tento organizar pequenos esquemas, alguns armados apenas dentro da minha cabeça doida, e levar adiante. Mas fico feliz da vida quando eu descubro o que eu quero dizer com o livro que estou preparando. É como encontrar o caminho ou a clareira no meio da floresta.

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Como eu disse lá em cima, a minha rotina diária me distrai do trabalho da escrita. Muitas vezes vou para o consultório (sou ortodontista) pensando na personagem e não raro encontro uma saída para determinadas situações no meio de algum procedimento. Não sei se tudo é assim tão mágico ou fui eu que me condicionei a reconhecer as pequenas vitórias.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Nossa, eu sou muito lerdinha em tecnologia. Uso o Google Docs e o velho Word de guerra. Até pouco tempo atrás eu escrevia as cenas que me davam mais tesão de escrever e depois organizava a ordem da história. Dava um trabalhão desgraçado. De Lauren para cá resolvi escrever tudo num arquivo só, uma tripa enorme de texto. Tem cenas que a gente não quer escrever, eu sei. Mas essa estratégia (de escrever na ordem correta) pode servir como meio de diagnóstico: por que não quero escrever tal cena? Pensando nisso a gente descobre muitas coisas, a respeito da história e a respeito de nós mesmos.

O que uma escritora precisa para escrever?
Eu tenho minhas manias. Gosto de estar completamente só. Algumas vezes, bem raras, eu tenho aquele momento de iluminação e caio numa concentração que ninguém tira. Mas em geral preciso de silêncio, quietude, isolamento.

O que você está escrevendo no momento?
Uma novela que tá um barato. Estou aqui comemorando porque acabei de passar da metade da novela. Também estou com um livro de contos que deve sair ano que vem. Estou na fase ótima de revisar e selecionar os contos.

Quais autores e autoras são os seus preferidos e quais livros vocês recomenda?
Eu amo os latino-americanos, cada vez mais. Em especial as mulheres. Dentre os homens: Gabriel García Márquez, a obra inteira. Mas acho que estamos num momento para ler A incrível e triste história de Cândida Eréndira e sua avó desalmada. Crônica de uma morte anunciada e O veneno da madrugada também, atualíssimos. Estou descobrindo muitas autoras traduzidas pela Editora Moinhos e Revista Puñado. Maria Fernanda Ampuero é uma autora equatoriana que me impactou muito com Rinha de galos. Maria José Ferrada (chilena) me arrebatou com Kramp. Brasileiras, posso indicar inúmeras, mas vou me ater ao que estou lendo no momento: Carola Saavedra, O mundo desdobrável. De autores brasileiros homens também posso indicar vários, mas vou escolher o Marrom e amarelo do Paulo Scott porque é um livro que me fez repensar vários aspectos dentro da escrita, além de ser uma abordagem diferenciada sobre o racismo. Ah, também estou lendo Um defeito de cor da Ana Maria Gonçalves, 2666 do Bolaño, O deus das avencas do Daniel Galera e iniciando Nossa parte da noite da Mariana Enriquez. (Sim, sou dessas que lê vários).

Lauren
Irka Barrios
228 p.
R$ 39,90
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