mariam pessah: Literatura: esse sonho acordado da palavra / que a pá-lavra

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

“Nosso continente é feito de fantasmas e silêncios”

Terminar de ler um livro que gostamos muito é sempre um PLASH. Mais ainda se esse livro é da Carola Saavedra. Aí já é um PLASH e um Tchuuuuiiiuii. Seus finais são sempre imprevistos, assim acontece nos seus romances, menos no último, Com armas sonolentas, que não tem final.

O mundo desdobrável – ensaios para depois do fim se desdobra de surpresas.

a autora vai dando pistas
ao longo do livro
o longo livro é
um jogo
um vai-e-vem constante
um espiral de perguntas que
se auto reformulam?

Sabe esses livros que você quer que tudo mundo leia? Sobretudo, neste caso, pessoas do mundo da literatura. Acontece que nosso continente é feito de fantasmas e silêncios.

O mundo desdobrável possui um belo “manual” de escrita, uma permaescrita, termo cunhado por Carola, uma observação amorosa da arte de plantar a palavra e regar seus fonemas. O mundo é uma proposta de busca, de brincar, de se perguntar quem eu sou (“gosto do exercício impossível de imaginar como seria a voz de um personagem-fungo, sua forma de pensar, uma voz sem eu, uma voz-nós”) e pensar. É um longo passeio a pé. Uma conversa com direito a risadas e emoções nas quais ela nos conta, também, aventuras da filha e tudo o que a gente aprende com as crianças. A quantas pessoas que não vêm, nem virão, seguimos esperando? Afinal, o que é, o que pode a literatura quando nada é natural na natureza? Porque até os elefantes ― e as elefantas ― choram suas/seus mortas/os. Para os Yanomami na Amazônia, os aborígenes na Austrália o “eu” não existe, então, nada do que a pessoa faça pertencerá a si mesma. Assim, a sua obra é sua obra, mas também é a de todxs que vieram antes dela. A permaescrita talvez nos diga que cada livro não é um objeto em si, mas que ele também está inserido num sistema, que inclui muito mais do que um único livro, muito mais do que uma única autora, ou autor. O próximo livro eu estou escrevendo desde sempre, nos diz Carola, desde que nasci e inclusive, desde antes do meu nascimento. O próximo livro já começou a ser escrito nas palavras das suas/seus ancestrais.

Enquanto isso, a obra de Chantal Akerman é uma constante tentativa de narrar o que não pode ser dito.

Sustentar o não entender exige uma imensa coragem. Um mundo-livro para ser desfrutado do início ao fim. O que é o fim em se tratando de Carola Saavedra? Um passeio pela literatura de muitos gêneros e tempos. Desde o começo eu tive essa emoção, quando finalmente chegou o objeto-livro na minha casa. Eu tinha comprado ele na pré-venda e, por essas coisas dos Correios e da pandemia, demorou mais do previsto aumentando minha ansiedade. Quando, depois de dois meses ele chegou, eu me sentia a própria personagem de Felicidade clandestina. Então, fazia de conta que esquecia que tinha chegado, assim, quando comia pão com manteiga … ui ui uiiii aí estava O mundo, me espiando desde uma paisagem desdobrável.

Sabe uma leitura na que você é submersa e vai conversando com a autora e com você mesma/o? porque O mundo provoca tempo todo. Todos os livros de Carola são circulares. Mas o que é a literatura? É possível escrever sem ler? Quem é o autor, ou a autora dos textos? Eu só tenho uma crítica para fazer, a autora ainda utiliza o genérico masculino. Eu vou dizer e vou escrever isto, quem sabe, assim (nos conta Carola) como Ursula K. Le Guin foi criticada por usar o masculino como referência e fez modificações na sua obra, quem sabe nossa amiga faça igual. E é só na obra, porque na cabeça, tenho certeza, as alterações já foram feitas.

Escrever é dar nome ao silêncio. Acreditar no mundo significa suscitar acontecimentos.

O mundo desdobrável é um livro que merece ser traduzido e interpretado em várias línguas. O que significa habitar a encruzilhada?

Para desmontar os TEMAS UNIVERSAIS (em caixa alta e luzes de neon) Carola propõe começar a contar o que permanece em silêncio. A autora fala sempre dos silêncios e escreve com e junto a eles. Vamos ouvir?

*mariam pessah : escritora, poeta e tradutora, autora do Grito de mar e organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre. Coordena a Oficina de escrita e escuta feminiSta.

O mundo desdobrável: ensaios para depois do fim
Carola Saavedra
216 p.
R$ 48
Relicário Edições
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