Ana Paula Cecato: Que todos signifique todos: pelo direito de crianças e jovens à literatura

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

“Ao promover programas de incentivo à leitura de literatura, a experiência singular do leitor é confrontada com outras experiências, a de quem escreve, ilustra, conta histórias, declama poemas, põe o texto em cena – a experiência de outros leitores e leitoras”

Tomo emprestado o título de um artigo da escritora argentina María Teresa Andruetto, ganhadora, em 2012, do Prêmio Hans Christian Andersen, equivalente ao “Prêmio Nobel da literatura infantil”. Neste primoroso texto, entre outros temas, Andruetto fala sobre a “autoanestesia” e a “anestesia na leitura”, dois processos que se forjam na indiferença pelas injustiças que se passam no mundo e que, por conta dos privilégios acumulados e do consumo de uma literatura que não as problematize, passam inócuas por não leitores e leitores, inclusive.

Que literatura é essa, a qual se refere María Teresa Andruetto? “Um caminho de fórmulas fixas, estereótipos que impedem penetrar na superfície dos textos e da vida.”- ela responde, e vai além. Ao descrever o processo de um escritor que se senta na cadeira para produzir seu texto, ela revela a responsabilidade desse ofício, pois será a partir de sua literatura que muitas subjetividades poderão se tornar visíveis, mesmo quando estão invisíveis para o mundo.

E é sobre dois grupos invisíveis que venho falar hoje: as crianças e os jovens.

Antes de tudo, é preciso dizer que penso em infâncias e juventudes, no plural, para colocar em destaque a invisibilidade exponencial, sobretudo nos tempos pandêmicos que correm, das infâncias e juventudes periféricas, negras, indígenas, da zona rural, com deficiência, neurotípicas, LGBTQIA+, da escola pública brasileira.

Além da vulnerabilidade econômica e social, podemos falar também na vulnerabilidade cultural das infâncias e juventudes, como apontou tão bem o jornalista Vitor Diel no editorial “Um espaço de vulnerabilidade”, publicado recentemente no portal Literatura RS.

O fio condutor da reflexão do texto é a falta de uma programação de autores de literatura para a infância e juventude na Feira do Livro de Porto Alegre deste ano, mas podemos vincular a decisão da Câmara Rio-Grandense do Livro a outros movimentos que têm ocorrido com os programas de leitura no Rio Grande do Sul mesmo antes do início da pandemia. Lendo pra Valer, Leituração, Fome de Ler foram programas de leitura abrangentes, de referência, e atualmente descontinuados por suas mantenedoras públicas. Outros, como o Adote um Escritor, foram descaracterizados, em termos de abrangência, de orçamento, de formação de mediadores de leitura, de assessoria técnica e acompanhamento pedagógico às escolas.

Um percurso formativo de leitura literária, realizado tanto nas feiras de livro quanto nos programas de leitura, atende as infâncias e juventudes mais vulneráveis bem como suas famílias. Arrisco-me a dizer, por já ter vivido tal experiência como professora, pode atender toda a comunidade. O compromisso em realizar um trabalho de tamanha importância com consistência requer planejamento e investimento, dois componentes que estão bastante prejudicados em função das incertezas econômicas e sanitárias. Mas também requer envolvimento e vontade política, que não necessariamente dependem dos componentes mencionados anteriormente, uma vez que há formas de contornar as incertezas, com a certeza da necessidade de que a formação de leitores literários nas infâncias e juventudes seja um dos princípios estruturantes de um evento literário ou de um programa de leitura.

Como forma de apontar caminhos e abrir possibilidades de diálogo e construção de um cenário em que a produção literária crianças e jovens tenha espaço e voz, penso em algumas possibilidades, algumas delas já realizadas, inclusive. Em relação aos eventos, talvez seja razoável equilibrar planilhas de custos com as programações para o público geral (adulto) e para o público de crianças e jovens; fortalecer programas de formação de público leitor, nas etapas prévias e durante o evento (destaco, como exemplos, iniciativas já feitas na Feira de Porto Alegre: o curso Tessituras: formação de mediadores de leitura, e o Quintanares, bônus-livro para estudantes de escolas públicas); buscar patrocinadores exclusivos e parcerias com instituições que atendam a esses públicos, não apenas na área da educação e cultura, mas também instituições da área da assistência social, da garantia e proteção de direitos, do meio ambiente, entre outras.

Em relação aos programas e projetos de leitura, as possibilidades que se lançam para contornar as dificuldades são a realização de campanhas de apadrinhamentos literários, em que pessoas físicas e jurídicas podem custear a compra de acervo; parcerias com editoras, distribuidores e livreiros de forma a garantir o pagamento dos cachês dos autores; promover a participação da comunidade nas iniciativas, e também articular parcerias com outras áreas e entidades que atuem junto a crianças e jovens. Em poucas palavras, trabalho de formiguinha.

Trabalho esse que não pode ficar à própria sorte de quem está na ponta e faz a leitura acontecer. Trabalho esse que precisa ser amparado por políticas de leitura consistentes, construídas a partir da interlocução com os segmentos da cadeia do livro – da cadeia produtiva à mediadora e com as crianças e os jovens, suas famílias e a comunidade. Através do envolvimento da sociedade civil, tais políticas poderão contemplar os saberes, as necessidades e as decisões de cada comunidade, promovendo, assim, uma democracia verdadeiramente participativa e inclusiva.

A professora Cyana Leahy no seu livro Educação literária como metáfora social cita a pesquisadora da área do ensino da literatura Louise Rosenblatt para dizer que “a literatura alimenta o tipo de imaginação necessária em uma democracia, isto é, a habilidade de participar nas necessidades e aspirações de outras personalidades e vislumbrar o efeito de nossas ações em suas vidas”.

Ao combinar a experiência do leitor, constituída pelo seu repertório afetivo e imaginário, com o olhar particular que uma obra literária apresenta sobre determinados temas e experiências de ser e estar no mundo, a leitura literária opera uma experiência muito singular, seja por impulsionar seja por deslocar a subjetividade de quem lê. Ao promover programas de incentivo à leitura de literatura, a experiência singular do leitor é confrontada com outras experiências, a de quem escreve, ilustra, conta histórias, declama poemas, põe o texto em cena – a experiência de outros leitores e leitoras.

Como promover, então, a circulação e a socialização das práticas individuais de quem lê? Clubes de leitura, saraus, encontros com autores/as, contações de histórias, desafios literários, círculos de leitura, feiras de livro – muitas são as possibilidades para potencializar a experiência dos leitores e leitoras. E quem faz leitores sabe que atualmente existem muitas ações, projetos, programas acontecendo, mesmo com as perdas e retrocessos, o que certamente é fruto dos resultados positivos que o trabalho e a vivência com a leitura literária oportunizam.

Sem querer fechar essa complexa questão, mas, ao contrário, abrir possibilidades de diálogo, assim como este que fazemos hoje, compartilho o desejo de que, neste tempo presente, nos organizemos coletivamente, a fim de que nenhuma ação de formação de leitores esteja sob riscos, e que os retrocessos sejam revistos. Endosso as palavras finais do editorial do portal Literatura RS: “Literatura RS deseja que esta realidade não seja um ‘novo normal’ advindo com a pandemia e que todos os profissionais de todos os segmentos da literatura e do mercado editorial mobilizem-se por este campo sob ameaça que é a literatura para a infância e a juventude.”

Pelo direito de todas as crianças e jovens fruírem de uma literatura de qualidade, que respeite suas inteligências e acolha suas subjetividades. Pelo direito dessa literatura estar nas programações de todas as feiras de livros e programas de leitura.

Ana Paula Cecato é graduada e mestra em Letras e professora de Letras – Português/Inglês do IFRS – Campus Rolante. Fez parte da equipe da Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre, trabalhando na curadoria da programação, nos programas de incentivo à leitura e na formação de mediadores de leitura. Coordena o curso de extensão “Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura”. Foi jurada do Prêmio Jabuti em 2019 na categoria Fomento à Leitura.
Foto: Acervo pessoal.

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