Luiz Carlos Torres Araújo: Análise do livro Vozes de Retratos Íntimos, de Taiasmin Ohnmacht

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

“Taiasmin trabalha histórias dentro de outras histórias e também revela dramas intensos que através de esmerada resenha envolvem o leitor nos conflitos

Li com muito interesse Vozes de Retratos Íntimos da escritora Taiasmin Ohnmacht, editado pela Taverna. Ela conta a história de pessoas e famílias que buscam, com enorme aflição, o espaço e a substância para construir suas vidas. Quase toda a narrativa se passa no século XX e se derrama pela Europa, África e América concentrando-se, enfim, no Brasil. Os “retratos” são dos familiares da autora que com habilidade separa fios genealógicos, de cores e texturas diferentes, e tece as origens e os ingredientes da sua própria existência. É uma história real sem ser autobiográfica e considero que este é o primeiro dos muitos acertos de Taiasmin.

A obra apresenta planos diferenciados. Um deles é o contexto histórico que desponta como um cenário de fundo com referências genéricas a acontecimentos políticos que influenciaram a vida das pessoas. Essa virtude da autora me fez lembrar de A Insustentável Leveza do Ser, onde Kundera cria sua trama ao largo da Primavera de Praga. É a relevância da Literatura em relação à História. Outro plano é o da abordagem direta dos cancros da humanidade: a macheza, o racismo e a ideologia colonialista. Nesse fundamento a autora é magistral porque não elabora um discurso antagônico, que até poderia ser compreensível, mas, em contrapartida, descreve situações vivenciadas pelos seus personagens reais. Dessa forma é o leitor que tira as suas conclusões sobre quanto doloroso foi, e é, esse processo de desconstrução do humano.

Como se não bastasse, a obra entrega ainda mais porque evidencia as agruras dos migrantes voluntários ou compulsórios, o embaraço da miscigenação, a importância da contação de histórias dos adultos para os jovens, o sentimento de culpa descabido e a desinformação somada ao terror no processo educacional e religioso. Além disso, o leitor é contemplado por uma redação repleta de recursos narrativos, muitas vezes poéticos. Até me permito citar breves passagens: “pensem na voz, uma voz sem palavras”; ao quebrar a estátua “rezou para que a santa lhe perdoasse os maus pensamentos e chorou juntando os cacos de sua fé”. Outro engenho apresentado são as frases sínteses: o padre “sabia até de colegas de batina de outras congregações que já admitiam alma nos pretos, condenando a escravidão”; “nós também não sabemos de qual etnia ou região da África vieram nossos ancestrais, e não temos nenhuma outra referência de sobrenome que não seja o do colonizador”. Essas frases condensam a trajetória de uma população estrangulada socialmente e refém de uma história, sem dúvida imprecisa, contada pelo dominador.

A exemplo de Itamar Vieira Júnior, em Torto Arado, Taiasmin trabalha histórias dentro de outras histórias e também revela dramas intensos que através de esmerada resenha envolvem o leitor nos conflitos. Bom exemplo são as cenas que se sucedem à morte do nenê prematuro seguido pelo assédio violento do pai sobre a doméstica e as consequências do atraso da moça ao chegar em casa. Gostei muito da passagem em que a autora narra o momento em que o espírito de Isabela é flagrado acalentando uma criança como se fosse sua filha, pois reúne a beleza e o mistério do além e esse é um terreno que Itamar transitou com frequência.

Há trechos em que a autora conversa com o leitor: “Mas não vou fazer isso, não vou me apresentar, esqueçam o olhar assustado, …”; “Não, não acaba aqui com um casamento porque essa história…” Embora não seja inédito, é um recurso rico em interação e intimidade. Algumas vezes sou tentado a escrever algo assim.

É verdade, no meu entender, que a fidelidade da história à arvore da família determina a aparição de muitos personagens e isso somado à alternância de épocas, locais, idas e voltas, forma um novelo que não facilita a vida do leitor. Em paralelo, registro um balanço que a escritora propõe entre o infortúnio e o entusiasmo. Há cenas de rudeza constrangedora (as falas de Benedita humilhando a filha e o desespero de Antônia não aceitando o amor entre o filho branco e uma menina negra) mas há relatos emocionantes pela ternura contida como o da alegria da filha da autora brincando com o novelo de lã que, talvez, represente uma forma de encarar o futuro.

A leitura me alertou para uma coisa. A história está pronta, já existiu, porém, a narrativa faz as conexões, traz a poética, mostra as feridas e é um convite imperioso à reflexão.

Para usar uma figura contida no texto, Taiasmin fez o trabalho reverso de quem tricota, separou e identificou os fios e isso me permite dizer que a obra deve ser lida por muita gente, principalmente da comunidade branca.

*Luiz Carlos Torres Araújo é pós-graduado em História e Ecologia Humana pela Unisinos – RS. É natural de Porto Alegre. Lecionou em diversas cidades, mas concentrou seu trabalho em São Leopoldo e Novo Hamburgo. A atuação na vida sindical o levou a escrever e palestrar sobre temas ligados à educação e aos conflitos sociais. Depois de atuar no ensino médio e superior, uniu a experiência resultante das andanças ao encanto pela literatura de ficção. Desse enlace surgiram contos, crônicas e romances. Antes de Os Condenados publicou A Noite Não Termina (2019). Seu próximo lançamento abordará os duzentos anos da Independência do Brasil.

Vozes de Retratos Íntimos
Taiasmin Ohnmacht
160 p.
R$ 49,90
Editora Taverna
Compre aqui (link externo)

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