Guilherme Smee: O Catarse e a cena independente de quadrinhos no Brasil

“Tanto os crowdsourcings como os crowdfundings são baseados na motivação e na satisfação da comunidade com as campanhas e com as plataformas que as hospedam e veiculam. Trata-se de uma relação de troca”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Segundo Aristóteles, catarse é um estado emocional que significa a purificação da alma através de uma descarga emocional, vinda após um trauma. No significado psicanalítico a catarse também vem desse sentido de libertação e liberação após uma situação desconfortável e de opressão. No caso da cena independente de quadrinhos no Brasil, a situação desconfortável e de opressão sempre foi o descaso das políticas culturais públicas e privadas para a arte sequencial, também conhecida como histórias em quadrinhos. No Brasil, existem pouquíssimos editais culturais públicos ou privados que beneficiem a cena independente dos quadrinhos. Exemplos notáveis são o PROAC de São Paulo e os editais da Fundação Curitiba, bem como ações pontuais na Bahia e em Pernambuco. Por isso, o surgimento de uma plataforma de financiamento coletivo, como o Catarse, em 2011, trouxe esse sentimento de descarga emocional e criativa para o cenário independente de quadrinhos no Brasil. A primeira obra em quadrinhos a utilizar o financiamento coletivo do Catarse foi Achados & Perdidos, de Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho, que viriam, anos mais tarde a participar de trabalhos revitalizando o personagem Bidu, de Maurício de Sousa, para a iniciativa Graphic MSP.

Segundo um levantamento feito em 2012, existiam mais de 170 sites de crowdfunding, o financiamento coletivo, no mundo, 17 deles no Brasil. Um dos mais importantes do mundo é o Kickstarter, fundado em 2009 para concretizar aspirações artísticas e culturais e serviu de base para plataformas do tipo no mundo inteiro. Contudo, o primeiro site de crowdfunding do mundo surgiu em 2006 e se chamava Sellaband, que ajudava músicos a gravarem seus álbuns e vendê-los para suas comunidades. No Brasil, o primeiro de todos foi o Catarse, mas outros também são bastante conhecidos como o Benfeitoria, o Apoia.se, o Kickante e o Vakinha, cada um deles com suas idiossincrasias.

Pesquisadores apontam que a gênese do crowdfunding vem de sites de crowdsourcing, ou seja, alimentados pela multidão, cujo exemplo mais notório são as wikis, e como destaque, a Wikipédia. Entretanto, sistemas operacionais como o Linux e o Apache, e os bancos de dados como IMDB e IStockPhoto também funcionam através de crowdsourcing, e são alguns dos exemplos mais conhecidos dessa prática. Tanto os crowdsourcings como os crowdfundings são baseados na motivação e na satisfação da comunidade com as campanhas e com as plataformas que as hospedam e veiculam. Trata-se de uma relação de troca: o público oferece a confiança (e o financiamento, no caso de financiamento coletivo), a plataforma oferece o caminho e os autores, as recompensas. Tudo isso envolve uma pesada estratégia de divulgação por parte dos proponentes das campanhas de financiamento coletivo, principalmente através das plataformas digitais, e-mail e aplicativos de troca de mensagens. Para um autor, desenvolver uma estratégia de financiamento coletivo é necessária uma dedicação quase exclusiva para estratégias comunicacionais, algo que pode ser exaustivo e frustrante para muitos. No início, os autores precisavam desenvolver um blog para compartilhar as novidades do processo de produção de suas obras com seu público, hoje, o Catarse já conta com uma ferramenta de disparo de novidades direto para o e-mail dos apoiadores.

Com o incremento de ferramentas, o que também mudou foi a taxa cobrada pelo Catarse, que era de 7,5% das metas de campanhas para cobrir custos de manutenção e pessoal em 2012, para 13% em 2021. Mas não foram somente as taxas que aumentaram nesses mais de dez anos de existência do Catarse. As campanhas de quadrinhos, por exemplo, que eram pontuais nos anos iniciais, passaram a ter mais incremento com a popularização de eventos de quadrinhos como o FIQ e a CCXP. A razão para esse incremento sazonal diz respeito à necessidade de lançamentos em quadrinhos para se participar da área de artistas dos eventos, bem como ser uma forma de facilitar a parte mais dificultosa de uma campanha de financiamento coletivo, que são os envios através dos Correios, feitos, então, em mãos, nos eventos de quadrinhos.

Entretanto, nos últimos cinco anos o Catarse se viu invadido por uma outra força dentro do cenário dos quadrinhos: o das editoras. Algumas independentes, outras não, as editoras têm trazido para a plataforma trabalhos que não necessariamente sejam feitos por autores brasileiros, mas que incentivam trazer para nosso país, materiais de autores e editoras de outros países. Ao meu ver, esse tipo de movimento muda a cara do Catarse, de um site que era voltado à produção nacional de campanhas de financiamento coletivo de artistas independentes para uma ferramenta de mobilização e popularização de editoras que poderiam, de outra forma, utilizar suas próprias ferramentas como lojas online e pré-vendas para fazer esse tipo de campanha.

Não é de hoje que o financiamento coletivo no Brasil enfrenta algumas polêmicas, como essa da grande presença de campanhas de editoras no Catarse. Entre um dos problemas principais está a demora nos prazos de entrega (campanhas passando de um a dois anos de demora), e também a falta de comunicação por parte dos autores com seu público. Polêmicas relacionadas à precificação posterior de produtos de campanhas de quadrinhos em sites online como Amazon também foram frutos de discórdia entre o público e editoras de quadrinhos que se utilizaram do Catarse. Esse tipo de descaso, por parte de algumas campanhas, acaba minando a imagem do Catarse e, por conseguinte, de outras campanhas realizadas na plataforma. Em grupos de Facebook voltados à discussão de histórias em quadrinhos é fácil reparar em opiniões de desistência do uso do financiamento coletivo por vários usuários depois da frustração com o andamento de determinada campanha de quadrinhos.

Procurei o Catarse para um posicionamento acerca da importância da plataforma de financiamento coletivo para a cena dos quadrinhos independentes no Brasil. Raíssa Pena, diretora de publicações do Catarse, e Leandro Saioneti, analista de campanhas de Jogos e HQs, responderam meus questionamentos, comprovando que o Catarse é uma ferramenta fundamental, senão imprescindível para a atual cena de quadrinhos independentes brasileira. Fui informado que desde 2018, os quadrinhos se mantiveram (junto com Literatura) entre as duas categorias que mais lançaram campanhas no Catarse. Segundo os entrevistados, nos últimos três anos, 451 quadrinhos foram financiados pelo Catarse com 100% ou mais da meta atingida durante suas campanhas.

Os números das campanhas mais bem sucedidas de quadrinhos na plataforma impressionam: “Em primeiro lugar temos Confinada, de Leandro Assis e Triscila Oliveira, publicado originalmente na internet, agora impresso em uma edição especial pela Todavia. A campanha arrecadou mais de R$ 615 mil, com 891% da meta inicial. Logo em seguida vem Carlos Ruas, veterano do financiamento coletivo, com De Onde Viemos?, publicado de forma independente. Foram captados R$ 589 mil para o projeto, que representaram 841% da meta base. Por fim, o nosso pódio é fechado com Ilustralu e a Editora Seguinte, que firmaram uma parceria para publicar a versão impressa de Arlindo, outro sucesso das redes sociais. A campanha arrecadou pouco mais de R$ 385 mil, alcançando 455% da meta original”, me contaram Raíssa e Leandro. O que me chamou a atenção é que duas das campanhas mais bem-sucedidas de quadrinhos na plataforma contam com a participação de duas representantes de grandes editoras de livros brasileiras: a Todavia e o selo Paralela (da Companhia das Letras), indicando que não só as editoras de quadrinhos grandes e pequenas estão de olho no Catarse e na possibilidade de lucrar através do financiamento coletivo.

Segundo os entrevistados, desde o início das campanhas de financiamento coletivo no Brasil, o mercado de quadrinhos mudou e o Catarse vem mudando conforme as necessidades que se colocam nos novos tempos, fazendo parte do mercado “de modo orgânico, e entendemos que seguimos construindo isso de forma bem aceita, mas ainda com muitos desafios e tarefas a cumprir”. Por parte do Catarse, os entrevistados acreditam ter consciência do seu papel como formador e desenvolvedor do cenário de quadrinhos independentes brasileiro, “mas o mais importante, sabemos que temos a missão maior de sempre trabalhar em favor do protagonismo dos artistas nacionais e do público que valoriza essa arte. São eles que movimentam essa roda e que foram responsáveis pelas centenas de histórias em quadrinhos já financiadas no Catarse”.

Os entrevistados também foram perguntados sobre as polêmicas envolvendo editoras e o descaso de alguns autores a respeito da comunicação e entrega do material prometido em suas campanhas. Eles acreditam que não existe um desequilíbrio de forças entre o que chamam de “criadores-editoras” e “criadores-autores”. “Claro, por vezes, uma editora terá uma estrutura maior para produzir e gerenciar o seu projeto de financiamento coletivo, mas ambos os modelos de gestão conseguem obter êxito dentro da plataforma. Um claro exemplo é nossa relação de campanhas finalizadas, disponível publicamente dentro da seção de buscas”, colocam Raíssa e Leandro, completando que não enxergam uma concorrência dentro da plataforma, mas que, de forma orgânica atende sazonalidades e oportunidades de mercado, como contratos com grandes editoras.

Já as falhas de comunicação entre criadores de campanhas, tanto por editoras como autores, têm chamado a atenção do Catarse mais frequentemente nos tempos atuais do que em tempos anteriores, o que levou à plataforma reforçar aos criadores de campanhas que a comunicação é o pilar do financiamento coletivo. “Problemas podem acontecer, mas se não comunicados, criam uma cadeia de eventos que prejudicam todo o ecossistema do modelo. Somos completamente contrários à falta de comunicação e pedimos a todos os criadores que se encontram nesta situação que reforcem o diálogo com o seu público”, concluem os entrevistados.

Como pudemos perceber, mais que uma ferramenta de viabilização de publicações, o Catarse é, para a cena independente de quadrinhos brasileira, uma forma de criar uma base de fãs, de comunicação com seu público, de chamar atenção para novos lançamentos e também uma vitrine de credibilidade. Cabe, contudo, com a consolidação de uma cena de publicação de histórias em quadrinhos independentes no Brasil, uma organização por parte dos autores independentes, para evitar prejuízos à imagem desse cenário, para reivindicar seus direitos junto a outras instituições e para a criação de outras alternativas de publicação que não dependa tanto do financiamento coletivo. Casos como algumas campanhas pontuais do Catarse com descaso por parte dos seus criadores, a demora na remuneração de artistas independentes por parte da Social Comics em 2018 e 2019, o golpe da organização da Horrorcon no interior de São Paulo, são alguns dos motivos que a representação política dos criadores de quadrinhos independentes brasileiros se faz necessária para que essa classe não seja ainda mais precarizada e prejudicada por motivos que podem ser revertidos a partir de uma organização mais representativa nessas ocasiões.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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