Cristiano Fretta: Rastros de João Gilberto Noll

“Há alguns anos tive a impressão de vê-lo sentado em um canto de uma lancheria na Andrade Neves, tomando um café. Creio que isso tenha ocorrido em 2015, dois anos antes de sua morte”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de
Adriana Franciosi

Às vezes acontece de a gente pegar uma estranha curiosidade pelas pessoas. Por exemplo, quando eu estava no Ensino Fundamental, isso nos idos dos anos 90, eu nutria um esquisito interesse por tudo aquilo que poderia remeter à vida privada da quarentona austera que era a minha professora de Geografia. Eu olhava para sua roupa e pensava: como todo mundo, a dona desse coração impiedoso, incapaz de sorrir para qualquer um de nós, também tem um guarda-roupas, talvez parecido com o da minha mãe. Uma chave de carro vista em cima da mesa de nossa sala de aula já me levava ao raciocínio de que ela tinha, obviamente, um carro, e, portanto, uma garagem, e, portanto, um lar e, portanto, um banheiro e, portanto, uma privada e, portanto… bem, por aí a coisa ia. Certa vez, enquanto ela explicava a diferença do fuso horário entre Porto Alegre e Tóquio, eu fui hipnotizado pelo dedão de seu pé, que, pintado de vermelho, saltava solitário como uma língua debochada pela única abertura de sua sandália. Ela, percebendo minha distração, parou de explicar e ficou me olhando com ar de reprovação. Eu, constrangido, fixei o olhar no quadro, franzindo o rosto com interesse. Até hoje, por algum motivo, aquele dedão está vivo na minha memória. 

Não lembro de alguma vez ter visto aquela professora sorrir. É verdade também que eu tinha o mesmo tipo de curiosidade por várias outras pessoas cuja vida privada se demonstrasse em uma medida ou outra um pouco inacessível: o pipoqueiro da esquina, o coordenador de turno, o padre da igreja, a “tia” do SOE, a moça da secretaria, enfim, as pessoas que faziam parte do meu ambiente escolar poderiam ser alvo das minhas bizarras curiosidades.  Até hoje penso que não estou sozinho nesses meus delírios e que uma legião de pessoas envergonhadas e que imaginam, por exemplo, o chefe vestindo uma cueca rasgada ou então batendo com o dedo mindinho na quina de um móvel cruzam comigo todo dia pela rua. Se você for um deles, por favor me mande um e-mail. Estou cansado de me sentir esquisito sozinho. 

Terminada a vida escolar, esta minha esquisita capacidade fabulatória por vezes se expandiu em direção aos professores da Faculdade de Letras: não foram poucas as vezes em que eu praticamente enxergava os pós-doutores em linguística reproduzindo a cena de Dançando na Chuva, brincando de carrinho no chão ou até mesmo chorando freneticamente quando bebês, em virtude de um doce negado ou algo do gênero.

Foi em minha graduação em Letras que pela primeira vez tive contato com a obra de João Gilberto Noll. Não lembro exatamente qual foi a disciplina, mas algum professor indicou veementemente o livro Acenos e Afagos. Até então, Noll era para mim o nome de um autor contemporâneo que seguidamente me chegava aos ouvidos. Movido pelo estímulo da aula, fui até a biblioteca, peguei Acenos e Afagos e, naquele mesmo dia, iniciei a leitura. Não é exagero dizer que foi uma espécie de amor à primeira vista. Um amor meio estranho, é verdade, que me deixou um tanto quanto incomodado não por toda aquela epopeia libidinal que se desenrolava na narrativa, mas sim pela própria fluidez do texto que, mesmo preciso e certeiro, parecia carregar algo que na época eu não sabia definir. Hoje compreendo que talvez esse incômodo tenha sido em relação ao anonimato dos personagens e ao fato de a trama ser menos importante do que a estética da linguagem. Alguns dias depois, terminada a leitura, lancei-me a devorar outro livro de Noll: dessa vez seria A Fúria do Corpo. Assim que li as primeiras páginas não tive dúvida: ali estava um autor diferente de tudo o que eu já havia lido. E com um detalhe: universal e porto-alegrense ao mesmo tempo.  

Foi então que sobre mim se abateu uma curiosidade imensa sobre o homem chamado João Gilberto Noll. Procurei o que pude sobre sua vida, assisti a entrevistas, depoimentos e li inúmeros artigos sobre sua obra. Me fascinava a sua fala tranquila e o jeito como ele, por trás de seus óculos redondos, apertava os olhos ao final de algumas palavras. Não demorou muito para que minha incontrolável capacidade de colocar as pessoas em situações vexatórias entrasse em ação e a vítima fosse, naturalmente, João Gilberto Noll. Imaginei-o rodando e rindo na beira de uma praia, comendo um crepe e a seguir caindo de bunda no chão, entristecendo ao ver o seu lanche todo sujo de areia. 

Sempre que eu lia João Gilberto Noll e pensava que aquele era um autor porto-alegrense vinha-me a sensação de que, apesar de seu provincianismo, Porto Alegre também carregava dotes universais. Sim, era possível flanar pela cidade, perdido, descobrindo ruas, sentir-me imerso na multidão, quase de braços dados com Baudelaire, mesmo que fosse explicando para o francês que a Rótula das Cuias não são tetas. Noll tinha a característica de ter vivido boa parte de sua vida em trânsito entre Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, sem contar suas inúmeras viagens como escritor para inúmeros países. Ainda assim, no entanto, nunca se desgarrou de Porto Alegre. Há alguns anos tive a impressão de vê-lo sentado em um canto de uma lancheria na Andrade Neves, tomando um café. Creio que isso tenha ocorrido em 2015, dois anos antes de sua morte. Não soube como abordá-lo. Faltou-me coragem. Em 2021, lendo a biografia Noll aos Pedaços, de Flavio Ilha, descobri que o escritor era muito solícito com seus admiradores. Tarde demais. Naquele dia, após ter comprado minha água, acabei saindo da lancheria desperdiçando a minha única oportunidade de conversar com João Gilberto Noll. Em 2017, Noll faleceu, não deixando dúvida de que um grande nome da literatura contemporânea brasileira havia nos deixado. 

Em setembro de 2021, eu mexia no site de um conhecido sebo aqui de Porto Alegre quando me deparei com a primeira edição de A Fúria do Corpo. O detalhe interessante estava na descrição do livro: autografado. E mais interessante ainda era o valor de 25 reais. Não pode ser, pensei comigo. Imediatamente liguei para a livraria, confirmei a presença do exemplar e pedi para que me reservassem o volume. No dia seguinte, após uma manhã inteira de aula em uma escola particular, dei uma pequena flanada pelas ruas do Bom Fim em direção à tal livraria. Chegando lá, na Avenida Osvaldo Aranha, identifiquei-me e, após alguns instantes, com expectativa peguei o livro. Paguei-o e pus-me a folheá-lo ali mesmo, à procura do autógrafo. No entanto, não havia nada na primeira página, nem na segunda, nem na terceira, nem em lugar algum. O livro simplesmente não estava autografado. A moça que havia feito a venda me olhava com certa curiosidade. Eu mostrei a ela a ausência de qualquer assinatura. Ela fez o mesmo que eu havia feito antes: procurou com cuidado qualquer resquício de uma caligrafia de João Gilberto Noll, mas também não encontrou nada. Constrangida, disse que deveria ter havido algum erro na hora da catalogação e que, se eu quisesse, poderíamos desfazer a compra. Eu disse que estava tudo bem, afinal de contas, tratava-se da primeira edição da obra. Ela, ainda constrangida, agradeceu. Eu, decepcionado, guardei o livro em minha mochila e fui embora. Dobrei a Osvaldo Aranha à direita, na Rua General João Telles. Foi então que percebi um amontoado de gente na calçada à minha frente, olhando para o prédio do outro lado da rua. À minha esquerda uma fumaça preta surgia do topo de um prédio. De dentro dele, inúmeras pessoas saíam assustadas. Tenso, parei para observar. Havia no ar um forte cheiro de queimado que era possível ser sentido até mesmo por baixo da máscara. Poucos instantes depois os bombeiros chegaram e numa incrível agilidade entraram no prédio com uma mangueira. Já havia uma pequena multidão observando o ocorrido. No dia seguinte fiquei sabendo que, ainda bem, não houve nenhum ferido naquilo que havia sido somente um princípio de incêndio. No entanto, a ausência daquele autógrafo, aquela fumaça preta, o desespero das pessoas descendo do prédio, a minha caminhada por aquelas ruas, enfim, todas aquelas situações de uma forma outra pareciam me colocar dentro de um livro do João Gilberto Noll. Havia algum tipo de solidão naquilo tudo e não foi difícil pensar que algum personagem de João Gilberto Noll vagava por ali, perdido, observando a fumaça e as pessoas na calçada, pronto para se lançar a mais uma caminhada rumo a um enredo desconhecido e não planejado.

Naquele dia, cheguei em casa e guardei o meu livro não autografado em minha biblioteca.  Vez ou outra, eu ainda o pego e viro suas páginas, na esperança de que o autógrafo como que por milagre surja em um canto qualquer. Para mim, seja pela vez que não o interpelei no bar, seja pelo livro sem sua assinatura, o homem João Gilberto Noll sempre pareceu esquivar-se de mim. Foi então que em fevereiro de 2022 fiquei sabendo do festival Rastros do Verão, cujo homenageado era, obviamente, Noll. Inicialmente o nome Rastros do Verão me chamou a atenção, pois esse não me parecia ser um dos livros mais conhecidos do escritor. Aliás, essa era uma das poucas obras que aborda Porto Alegre como cenário, mas que dificilmente é lembrada quando se elencam livros que falam sobre a capital gaúcha. Do dia 05 de março ao dia 02 de abril o que se assistiu foram muitos debates, conversas, enfim, encontros com temas os mais variados possíveis em diversas livrarias de Porto Alegre, sempre reunindo muita gente bacana. Não consegui participar de todos os momentos, mas nos que estive presente o carinho a João Gilberto Noll e a devoção à sua obra sempre estiveram pulsantes. Havia explícito no ar a vontade de que a aglomeração em um mundo de pessoas vacinadas também servisse como antídoto ao provincianismo de nossa cidade cujo poder público, nos últimos anos, parece pouco ter incentivado a cena cultural. E como é bom juntar gente para falar de literatura, ver os escritores à nossa frente, desgarrados das telas, separados de nós apenas por alguns passos. João Gilberto Noll foi um radical da palavra: em um país cuja cultura nunca foi devidamente valorizada, ele fez a arriscada escolha de viver de literatura, sabendo que o preço a pagar seria uma intensa instabilidade financeira que o acompanharia por toda a sua vida. E como Noll gostaria de saber que estava sendo celebrado naquelas inúmeras livrarias de Porto Alegre, como ele sorriria e apertaria os olhos antes, durante e depois de cada encontro cujo objetivo não era outro senão celebrar a força da literatura e, portanto, a força da arte! 

De alguma forma eu passei a não sentir mais necessidade daquele autógrafo no meu A fúria do corpo. Foi como se a realização do evento Rastros do Verão houvesse juntado os rastros que eu colecionava de João Gilberto Noll em um lugar só, e o escritor parecesse ainda mais próximo e vivo, pois o que fica, afinal de contas, como já diria o clichê, é a sua obra. Além disso, a ideia de vê-lo rindo na beira da praia comendo um crepe e caindo um tombo me pareceu extremamente plausível. Afinal de contas, todas aquelas discussões fizeram de Noll uma pessoa muito próxima, mais porto-alegrense do que antes eu imaginava. Não havia mais rastros: era possível reconstituir Noll como uma existência senão física pelo menos literária, portadora de força e, principalmente, presença.

Cristiano Fretta tem 34 anos, é mestre em Letras pela UFRGS, músico, compositor e professor de Literatura e Língua Portuguesa em escolas privadas de Porto Alegre. É autor das obras Chão de Areia, Tortos Caminhos e A luz que entrava pela janela. Também colabora com as revistas digitais Parêntese, do grupo Matinal Jornalismo, Passa Palavra e com o jornal Extra Classe. 

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