Carlos Nejar é o patrono da Feira do Livro de Porto Alegre

“Não somos nós que inventamos as palavras, são elas que nos inventam”, disse o escritor durante anúncio de seu patronato na manhã do dia 20

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de CRL/Diego Lopes

Porto-alegrense, 83 anos, poeta, mais de cem livros publicados, ficcionista desde os 40 anos, ocupante da cadeira número 4 da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar é o patrono da 68ª Feira do Livro de Porto Alegre. O anúncio foi feito na manhã de segunda-feira, 20 de junho, em coletiva de imprensa no Hotel Master Express, no centro da capital. Além de jornalistas, o evento contou com a presença de autoridades, diretoria da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) — entidade responsável pela feira —, comissão organizadora do evento e convidados.

Carlos Nejar realiza um feito histórico: sucede seu próprio filho, Fabrício Carpinejar, no posto de patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. A mãe de Fabrício, a poeta Maria Carpi, foi patrona da edição de 2018 do evento. Neste ano, o processo para escolha ocorreu via consulta com a diretoria da CRL e com o Conselho de Patronos, organização que reúne todos os escritores e escritoras que já ocuparam o posto.

O novo patrono foi apresentado pelo seu filho e patrono de 2021 Fabrício Carpinejar. Foto: Diego Lopes/CRL

Com uma fala carregada de emoção e delicadeza, Carlos Nejar recebeu o patronato com reiteradas manifestações de ternura e gratidão. “O pampa é tão forte em mim que ele começa a existir e eu começo a desaparecer. Quero abraçar a todos como se a minha terra me abraçasse. O amor ao livro e à nossa feira dá um sentido de superação”, declarou. “Na medida em que nós somos frágeis, somos fortes. Eu penso que o espírito humano não é derrotável, é maior do que a derrota, é maior do que a morte. Por isso que a gente, hoje, pega um Cervantes, Dom Quixote, e ele está atualíssimo. Ou um poema de Camões, e ele está vivo. Ou Fernando Pessoa. Eles viveram, mas a palavra continuou vivendo deles. Esse é o segredo da permanência. É preciso marcar com alegria o momento de dificuldade e com transcendência o momento de tribulação. O espírito humano não pode se render aos percalços da fragilidade”, completou, remetendo às características de sua própria poética, fortemente marcada pelo aspecto existencial e transcendental. O novo patrono ainda ressaltou sua curiosidade pelas novas gerações de leitores de 30 anos que têm descoberto sua obra em anos recentes, em todo o Brasil: “Nunca previ isso”.

Confira abaixo um dos poemas de seu livro de estreia, Sélesis, de 1960:

Fui gerado
Como as sombras te geraram
Ai, as sombras
Que pariram nas cavernas
Ai, as sombras que pariram
Minha sombra nas cavernas

Tantos gestos que se buscam
Tantos lábios que se entregam
Tantos corpos que se apagam
Nas cavernas

Ah os homens serão tristes
Pois não sabem donde vêm
Ah os homens serão tristes
Pois não sabem onde vão

Fui gerado Noite adentro
Tua fome me vestia

Fui gerado Noite adentro
Como a terra
Que as raízes não consomem

Fui gerado Noite adentro
Era o Sol que fecundava
Era a terra que sangrava
E do íntimo da terra
Era um homem que brotava

Fui gerado Noite adentro

A 68ª Feira do Livro de Porto Alegre ocorre de 28 de outubro a 15 de novembro de 2022 na Praça da Alfândega, Centro Histórico da capital gaúcha. Esta edição será a primeira da nova gestão da CRL, presidida pelo livreiro e sócio da Editora AGE Maximiliano Ledur. A programação cultural do evento, totalmente presencial, será divulgada nos próximos meses.

Saiba mais sobre o patrono abaixo:

“Quero abraçar a todos como se a minha terra me abraçasse”, declara o patrono. Foto: Diego Lopes/CRL

Carlos Nejar nasceu em 1939, em Porto Alegre, onde formou-se em Ciências Jurídicas em 1962. No ano seguinte foi aprovado em Concurso para o Ministério Público Gaúcho. Como Promotor de Justiça viajou pelo interior do estado, onde testemunhou seu tempo e seu povo, temática muito presente em seus poemas. Poeta desde os 17 anos, é também ficcionista, tradutor e crítico literário, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filosofia. Considerado um dos mais importantes poetas da sua geração, Nejar, também chamado de “o poeta do pampa brasileiro”, destaca-se pela riqueza de vocabulário e pela utilização das aliterações, que tornam seus versos musicais. Lançou seu primeiro livro, Sélesis, em 1960. Como tradutor traduziu autores como Pablo Neruda. O critico literário Ronald Augusto o colocou como um dos três melhores poetas do estado no final dos anos de 1970, juntamente com Mário Quintana e Heitor Saldanha. Traduzido em várias línguas, tem sido estudado em universidades do Brasil e do exterior. Foi indicado, no ano de 2019, ao Prêmio Nobel de Literatura, com apoio da Academia Brasileira de Filosofia, Academia de Letras de Brasília, Pen Clube e inúmeras instituições culturais do Brasil e do Exterior.

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