Ana Paula Cecato: Os dragões existem e podem ser derrotados

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Contos de fada são a pura verdade: não porque eles nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser derrotados.
G.K. Chesterton (perífrase do livro Coraline, de Neil Gaiman)

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Estamos em uma época em que os dragões estão soltos por aí, cuspindo fogo por todos os lados. Tem sobrado até a literatura para a infância e a adolescência, com a restrição de publicações e adoções de livros de seres encantados do folclore, entre outras situações veiculadas amplamente pela mídia (incrível que quase nunca mostram projetos de literatura bem sucedidos). Tenho ficado muito preocupada com a falta de respeito à inteligência e à receptividade da criança e adolescente, quando os mediadores de leitura institucionais (família e escola) os privam da sua curiosidade de ler um livro. Acredito e trabalho na perspectiva da curadoria compartilhada, em ouvir os desejos e necessidades da comunidade de leitores, no poder da mediação como um ato de generosidade e vínculo, em que o mundo é descoberto pela via do simbólico. 

Quando comecei a trabalhar com a literatura para a infância e adolescência, junto ao período da faculdade de Letras, me reconheci como leitora desse gênero, embora já tivesse contato com uma infinidade de narrativas e versos quando criança. Também pude conhecer o processo de criação dessas obras híbridas, em que o discurso verbal e visual ora se misturam, ora se complementam, potencializando sentidos que não têm idade para serem lidos. Mesmo assim, há quem diga que a literatura para a infância e juventude deva ser classificada por faixas etárias, por níveis de ensino, pela extensão do texto, pela presença ou ausência da ilustração. Pior ainda é quando há o cerceamento da leitura: há bibliotecas em que os livros estão classificados em “os livros dos anos iniciais” e “os livros dos anos finais”. Em outras, há um armário trancado a chaves com livros de “temas polêmicos”. Bem que eu gostaria que alguém me explicasse, de forma consistente, o que são temas polêmicos. Na minha família, gostar ou não de mocotó é um tema superpolêmico.

É preciso saber que os dragões e os perigos do mundo existem, mas que eles podem ser derrotados. Para se chegar até lá, é preciso buscar soluções efetivas e curtir o percurso nestas rotas imaginárias, assim como o astuto Ulisses fez para retornar à Ítaca, como a corajosa Coraline salvou sua família, como a intrusa Maria Mudança fez a diferença na vida do Seu Anacleto.

Ana Paula Cecato é graduada e mestre em Letras. É professora de Língua Portuguesa e atua no Núcleo de Formação de Mediadores de Leitura na Câmara Rio-Grandense do Livro, coordenando os cursos de extensão Tessituras: formação de mediadores para programas de leitura, e o Encontro de Práticas de Mediação de Leitura. Também coordena programas de leitura que levam autores a escolas públicas. Através do projeto Descobrinhança, visita escolas, bibliotecas, feiras de livros, ministrando encontros de formação para mediadores de leitura.  www.facebook.com/descobrinhanca e anacecato@gmail.com.
Foto: Acervo pessoal.

Literatura RS

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