Maiara Alvarez: O sul é tão fantástico quanto aterrorizante

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

O prédio já foi casa de gente importante, dono de umas terra ali pra trás de onde fica hoje a prefeitura. Depois, com a chegada da justiça, diziam, o cartório privado também fez morada ali. Com a estatização, mudaram prum prédio mais no centro, umas três quadras adiante. Hoje, é biblioteca. Não tinha o que fazer do prédio, aí criaram a biblioteca pública do município.

Não vem muita gente, não, mas tem bastante livro. Claro que numa biblioteca isso é o esperado, mas eu não sei de onde veio tanto. A cidade não tem tanta gente que compra livro, o prefeito, o novo, o velho, o anterior, nenhum deles comprou essa ruma de papel. Mas tem, e é um monte de livro.

Ali na frente ficam os últimos lançamentos, que são doações de pessoal que vem de fora. Trazem algumas caixas de livros bem usados. Até parece que, em algum lugar, tem muita gente que lê. Ou que pelo menos folheia bastante, faz pesquisa, eu acho. Devem ter uns dez anos. São os mais novos que a gente tem, com umas capas coloridas. Tem uns bem grande chamado barx, barra, não… Deixa eu ver aqui: Barsa. Eita, que é pesado. Barsa. Tem várias dessa, com uns números diferentes, que parece que tem a história do mundo todo, menos dessas banda daqui. Tem dos Egito, de quando descobriram o Brasil, mas não fala nada do sul do sul. Do interior gelado.

Faz calor no verão, mas agora é meio de julho. E esse prédio largo é bem frio. De renguear cusco. Hoje é certo que não aparece ninguém. Nem as escolas vêm muito. Esses tempo teve uma professora nova na cidade e na idade, que veio de outra localidade do interior logo que acabou o magistério. Veio com uma turma, tinham por volta dos nove, dez anos. Ela tava tão maravilhada com a biblioteca que as crianças até se animaram. Que Deus a tenha, a professorinha. Nunca acharam todo o corpo dela.

Ela revirou uns livro lá de trás, quando veio. Eu não sabia onde colocar de volta, e também não quis olhar no guia. Mas guardei todos. Ah, menos uns que tavam com as folhas caindo, esses eu levei pra casa, iniciam o fogo que é uma maravilha. 

Olha, a menina. Era uma das que veio com a professorinha, eu acho. É, acho que é ela mesmo. Não me ache estranho, eu não tenho muito o que fazer aqui, não é difícil lembrar ou contar todo mundo que aparece. Tem dia que não vejo viva alma. Achei que ela ia me pedir algo, mas acho que ela desistiu. Até que eu iria conversar hoje. Foi lá pra trás, deve tá procurando os livro que a professorinha indicou.

Tá faz horas procurando, e não acha. Vai me tirar tudo do lugar. Eu que não vou colocar de volta, não entendo esses código que deixaram. Mania de organizar as coisa dessa gente da capital. Mas, olha, ela tá colocando de volta. Viu? Não vai levar nenhum livro.

Vou dar um aceno de tchau, que eu fui bem educado. Tem alguma coisa na minha cara? Ih, lá vem me perguntar… Me olha com esses olhinho de criança pedinte.

— Boa tarde.

— Buenas.

— Estou procurando o livro Lendas do Sul. O senhor sabe se tem na biblioteca?

— Olha, não estou lembrado de cabeça agora, mas se a senhorita esperar, posso olhar nas fichas.

— Obrigada.

Acho que isso quer dizer que ela quer que eu olhe. Bom, parece que sim. Ai, que esse corpo velho não tá pra se agachar. Caixa pesada.

— Tu sabe quem escreveu?

— Não lembro, acho que um tal de Simão.

— S…Selvati, Santos… Silva… não tem Simão, é primeiro nome?

— Não, acho que não. 

— Hum… como era o sobrenome mesmo. Neto, neto alguma coisa, algo com L. Algo com L e Neto.

— Deixa eu ver… Lage, Laus, Lima Neto. Lopes Neto, Simões?

— Esse mesmo!

Vamos ver a prateleira. Claro, justo daquela que eu levei os livros caindo aos pedaços.

— Ih, moça, alguém já levou ele, agora eu lembro.

— Ah, mas tem, então?

— Tinha né, às vezes as pessoas não devolvem. Vamos ver se esse devolve.

Olha pro chão. Vai, menina, vai. Tá frio pra estar fora de casa.

— Obrigada. Boa tarde.

— De nada, bom retorno.

Quanto tempo mais será que…? Ah, ótimo, já está quase na hora. O bom de trabalhar na biblioteca é que fecha às cinco. Tô louco pra colocar aquele fogão pra funcionar. Se eu achar o livro, trago de volta, pode ser que a menina volte a incomodar.

Na rua tá mais frio. Ó o João, tarde, vizinho! Vai pro bar, o João, certo. Eu que vou pra casa, que nesse frio até beber em casa é melhor. Dá uma esquentadinha caminhar de volta. O bom é que é descida. Até a venda tá fechada já. Mas ainda tem mate e vinho pro quentão. Deu uma esquentadinha no corpo, mas não esquenta essas mão véia.

Finalmente. Vamos ver esse livro aqui. Não, esse já vou usar umas página pra ligar a lenha. Esse também não. Nem esse. Ah, aqui o dito cujo. Senhor João Simões Lopes N…

Eita, bom que tava de bota ainda, me foi cair bem em cima do dedo grande. Mas é tominho leve. Essa criança quer ler um livro tão velho e usado que já tá caindo todo o interior. Olha, Contos do Sul, vamos colocar aqui na capa. Lendas do Sul? Mas é lenda ou é conto? Quem é essa tal de Simone? Esse livro não é esse livro, será que os piá trocaram? E onde já se viu mulher escrever livro? Tudo escrito na máquina de escrever, não é livro publicado. Tá só costurado os papel. Vai ficar sem o livro, a menina.

A cis-ter-na tá escrito. Será que é livro mecânico, engenheiro? Que ensina de fazer as coisas? Não, fala de umas crianças. Ih, ferveu a água já? Vou só terminar de ler esse conto, antes de fazer a janta. É, até que eu gostei. Não sabia que passava o tempo rápido assim, lendo.

O cemitério de cães já vou gostar. Eu gosto dessas coisas que dá medo. É, um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer. O galpão até eu tinha medo, quando era guri, né… Deu uma puxadinha nos pelo do braço, até que deu.

Cavalo? Não tem potreiro aqui perto pro bicho escapar. Tá vindo de onde essa luz? Devo estar ouvindo coisa e vendo coisa. Ler é coisa de desocupado do diabo mesmo. Mas que parecia cavalo andando, parecia. Eu, hein, vou ter medo da noite, agora?

Tá bom que agora bateram na porta! Já tá tarde já. Minha nossa senhora, que tem que sair pra abrir porta tarde da noite…

— Quem é?

— Seu Alípio?

Eu conheço essa voz. Conheci hoje. Melhor abrir.

— Tá fazendo o que aqui, guria?

— Seu Alípio, o senhor encontrou o meu livro?

— Me olha a hora que é! Tu tá sozinha? Como sabe meu nome?

Cidade pequena, todo mundo sabe o nome dos outros, Alípio, deixa de ser besta.

— Encontrou?

— Não tô procurando o seu livro, não, eu disse que alguém pegou emprestado.

— Mas eu acendi essa vela pro menino do pastoreio, ele disse que tava com o senhor.

— Que menino do pastoreio?

— O que atende os pedidos das coisas perdidas.

— Guria, me diz onde que tu mora, que eu te levo pra casa.

— Não precisa, seu Alípio, sempre tem alguém me acompanhando.

— Não tem ninguém aqui, menina.

— Seu Alípio, o menino disse que o senhor não é homem bom, não. Também não é muito corajoso, por isso que nunca matou ninguém assim, de próprio punho. Mas já bateu em mulher, por isso que tá sozinho hoje. O senhor vem de uma família que já fez muito mal. Tu é descendente de bandeirante que levava índio pra escravizar, seu Alípio. O menino não gosta.

— Do que você está falando, menina?

— Mas eu só quero meu livro de volta.

— Que livro de volta? Qual o teu nome?

— O livro que eu escrevi. E meu nome é Simone.

Esfreguei os olhos. Que sonho estranho. Tá quase apagando o fogo. Deixei cair o livro de novo. Opa, quase esmaguei essa lagartixa. Deixa eu te ver aqui. Olha que bonita. Uma pele que parece uma joia, brilhante e vermelha. Que bem fogo. Que bichinha bonita…

—-

Ela canta tão lindo enquanto come…

Contos do Sul é um livro de Simone Saueressig inspirado nas Lendas imortalizadas por João Simões Lopes Neto. É um pequeno livro, com breves contos, que procuram e criam o fantástico e o terror que permeia o folclore sul-rio-grandense. Com um estilo de narrativa envolvente, a escritura de Saueressig me levou para vários lugares, especialmente da infância vivida no interior do Estado. Também fui para filmes do final dos anos 80 e início dos 90, aqueles com amizades de uma trupe de crianças, no estilo A coisa. Aliás, o folclore gaúcho serve bem ao terror. A partir daí, o difícil é não cair em lugar comum. Saueressig consegue equilibrar muito bem o comum com o inesperado do terror. E mais que inesperado, cada história, além de muito marcada pelas características dos seus personagens, é contada de uma forma diferente, criando seis mundos complexos e distantes em quase cem páginas. Contos do Sul foi publicado pela autora em 2015. 

Natural de Campo Bom, Simone Saueressig escreve principalmente fantasia, tendo uma vasta gama de publicações, como A Fortaleza de Cristal (2007), A Estrela de Iemanjá (2009) e aurum Domini (Artes e Ofícios), romance que recebeu o prêmio Livro do Ano – Narrativa Longa, da Associação Gaúcha de Escritores, em 2011.

Contos do Sul
Simone Saueressig
96 p.
978-85-9131-980-0
Edição da autora

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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