Folhetim LRS: Dois nós, Carolina Panta (parte um)

Arte: Giovani Urio

I

Quando um rio morre, tudo o que é terra ao seu redor seca. Vira pó de areia. Toda vida se vai. O restante são cursos de água sepultados por metros de sujeira endurecida.

Mas não morre um rio de uma hora para outra. Sua secura não se define em um virar de doze horas. Passa anos esvaindo-se em um leito delgadinho daqueles que só molha o tornozelo. Começa a sucumbir quando se vão os primeiros afluentes. Pouco a pouco, suas belas ramificações galhadas vão minguando até tornarem-se cicatrizes em terra rachada. Ali morre o solo e quase nada brota além de umas ervas daninhas.

Em sua margem, começam a acumular detritos e sedimentos rochosos. Isso dificulta que a água escorra com vontade, já não mais alagando um desenho rumo à foz.

Alguns cursos d´água, contudo, demoram muito tempo até seu perecimento total. Outros, mais debilitados por uma vida pouco caudalosa, são extintos em questão de um punhado de anos.

Claro, a extinção de um traço de geografia depende de muitos fatores a desembocar em um fim trágico. Mas, quando aparecem os primeiros sintomas, é necessário todo e qualquer cuidado com o leito fluido. Toneladas de peixes morrerão todos os dias, produzindo um desastre ambiental cujos efeitos são muito difíceis de ser avaliados, mas que, por certo, se prolongarão por anos a fio.

Até seu fim total, o rio antes belo, poético e cheio de doçura, deixará apenas seu rastro nas leivas do que, um dia, fora terreno fértil.

Aquela foi uma manhã derradeira. Quando acordou, Eloá não pôde imaginar ser o dia de sua morte. Arrastou chinelos pela casa, passou o café. Conversou com a filha sobre trivialidades do telejornal matinal, mas não reclamou da queimação estomacal sentida já havia uma semana. Camila não a deixaria em paz enquanto não fosse a um dos especialistas de uma lista de médicos. Mas as safenas de alguns anos não eram motivo para preocupação.

Sentaram as duas à mesa durante um punhado de minutos. Camila saiu com seu pão pela metade. Despediu-se com um beijo jogado ao fechar a porta.

Naquele dia, Eloá parou de ser. Seus olhos fecharam-se em uma contração pouco dolorida quando o fluxo de sangue tranquilo foi interrompido, de vez, pela obstrução no início da coronária. 

Com o remédio para o coração nas mãos, caiu ao chão enquanto as ramificações do músculo cardíaco perdiam o fluxo sanguíneo. Caiu ali, sozinha, às 10h da manhã.

Peito seco, perdeu o brilho aquoso dos olhos azuis.

1992

O caminhão tombado no quilômetro 80 fez desacelerar o ritmo da estrada sentido capital. Os motoristas já engarrafados especulavam o motivo do acidente. Alguns julgaram, em comissão de caráter extraordinário, serem os ventos cortantes da Lagoa dos Barros o motivo causador do sinistro. Outros culpavam a menina de branco, alma penada da estrada. Divididos entre as três largas pistas, os automóveis, por sua vez, dormiam lado a lado sem previsão para despertar. 

Mutiladoras de geografias, a autopista era uma cicatriz traçada entre os morros altos. Ali, punha-se fim à serra e brotava da margem das lagoas o solo claro de cristal de sílica e cheiro de mar.

Pena estarem os ocupantes dos veículos agrilhoados ao levantamento do guincho do autosocorro. Perderam a lua cheia de céu refletida nas águas de abandono de mar. Prateada, clarejava o que os idos e vindos marítimos deixaram na regressão de 12 mil anos atrás. Não assistiram ao relevo caprichoso do derramamento basáltico que delineava perfis humanos nas escarpas. Ficariam emocionados se compreendessem a organização sistemática das lagoas que abraçam a terra e alimentam os homens. Mas tudo isso era dispensável enquanto o caminhão tombado atrapalhava a circulação da Freeway.

Ao longo da rodovia, o Fusca azul geladeira punha-se arrastado como um velho animal. Agachara-se, agora, no ponto da parada. Retrato do progresso de outros tempos, o automóvel era registro de decadência de uma época. Em pouco menos de vinte anos, passara de milagre da economia a metal corroído, tal qual os anos de chumbo de um governo ditatorial que lhe deu um motor com 46 cavalos de potência.

Resolvido o problema na via, o carro cacarejou ao dar a partida. Fez coro aos grunidos dos transportadores de tijolos lançando ao ar o breu com fedor de progresso.

Já não era sem tempo. Dava-lhe arrepios ficar parada em meio ao engarrafamento frente à lagoa. Nem a opulência do derramamento basáltico nem mesmo a lua cheia nascida ao leste a retiraram do estado de torpor do início de noite bem quente para aquela época do ano. Entre os dedos, o cigarro já passado do filtro saciava o vício e o medo. Acompanhada de seus fantasmas, relembrava histórias de amor e morte contadas pela tia. Um corpo encontrado na lagoa décadas atrás da mocinha porto-alegrense estuprada e morta pelo seu noivo. Dessa vez, não pôde sorrir com encantamento e medo de menina diante à história da mulher que a criou. O olho arroxeado refletido no retrovisor não a permitia. Não era da alta sociedade como a adolescente. Não viraria lenda merecida de ser contada. Seu corpo apodreceria atolado em um lamaçal entre um mato aquático qualquer sem tornar-se mito ou capa de jornal.

Morta, ao menos poderia assombrar o caminhoneiro da faixa esquerda a lamber os beiços em sua direção pouco se importando com a criança que brincava de bonecas no banco de trás do volkswagen.

Cento e oitenta quilômetros depois, na manhã seguinte, a pequena olhava o labirinto erguido por esquinas. Acordaram junto ao sol no posto de gasolina às margens da rodovia após um breve descansar. Seguiram, então, rumo à capital erguida ao horizonte.

Por horas, percorreram um centro da cidade composto de mosaicos entre estilos modernos e antigos. A trama cimentada entalhava na paisagem janelas que tocavam os céus. A menina de sardas observou curiosa o ritmo acelerado das pessoas nas calçadas. Imaginava as linhas de chegada, os pódios e troféus para a corrida travada pelos passantes. Não entendia, nos seus quatro anos, a capacidade humana de competir para chegar primeiro a lugar algum.

Os olhos infantis fixaram-se em uma das figuras dormentes em colchões nas calçadas. Os monstros daquele novo lugar de pessoas morando umas sob as outras pareciam bem perigosos. Seriam eles maus? Bateriam também em crianças?

Com uma garrafa em mãos, o ser pôs-se a balançar de forma familiar. Seguia, agora, os homens de pasta em troca de moedas. Pelo modo como as moças tapavam os narizes, concluiu ela que a criatura deveria estar morta: cheiro de peixe podre, com certeza.

Um velho senhor de boina as conduziria dois andares acima. As paredes do corredor sofriam de uma sudorese constante naqueles dias de umidade. Os climas de Porto Alegre brutalizavam os ambientes em tempos de águas e quenturas. Nada parecido com as brisas de mar a balançar as cortinas ao fim de tarde na lagoa. Mas agora o passado não as acompanharia mais. 

Molemente largada aos braços, a pequena dormia um sono agitado de criança cansada. No agora, restava à mãe subir os dois lances de escada e suportar todo o peso que pudesse carregar. 

O JK encarpetado possuía apenas uma janela ao fundo. Pouco entrava no ambiente a luz da rua. Refletido no paredão branco do edifício da esquina, esse era o sol possível de ver por sua única abertura. As histórias presas àquele chão, pedaços de pele e fios de cabelo alheios, foram varridas pela mulher.

A criança não demorou a observar outros monstros pela janela. Ao fundo, o som dos parlamentares na tv abafava seus suspiros de medo enquanto os gritos de impeachment disfarçavam o soluçar da mãe.

II

Saí do banho, desenhei formas no espelho. O vapor deixado pela quentura excessiva da água ia se dissipando. O calor amoroso dava agora lugar ao frio do porcelanato. 

Doze horas. Metade de um dia. Uma mentira protocolada por despertadores e jornadas de trabalho. Essa dúzia de convenções temporais tornou meu mundo outro quando, naquela manhã, o coração dela nos deixou. Minha mãe parou de ser. 

A notícia veio em forma de telefone que toca em horário inapropriado. Todos os acontecimentos posteriores foram parte de uma narrativa surreal, obra de algum escritor embriagado. Causas e efeitos de natureza extraordinária fizeram de mim protagonista do insólito. No caixão, parecia mera figurante. Um objeto cênico obrigado a ouvir, de alguns presentes, suas piadas prontas de jornal. 

O que aconteceu depois não sei se inventei agora ou ao sentir seu cheiro em minhas roupas. Talvez eu realmente tenha sido parte daquilo. Talvez tenha visto exatamente como aconteceu. 

Toda a atenção foi dispensada em flores jovens e na escolha entre mogno ou carvalho. Alojaram minha mãe dentro do esquife de matéria morta. Estava envolvida em um manto branco de crisântemos. Aliás, era um lindo receptáculo para disfarçar suas orelhas já murchas.

Acabaria rápido. Pedi que fosse assim. Lembro-me de como ela detestava esses rituais. Pensei em como ficaria nervosa, mexendo nas chaves dentro do bolso. Era o tipo de pessoa que só aguentava até a vela ser soprada, cantava os parabéns já olhando para a porta. Agora, ela não teria mais pressa. Seu rosto foi consumido por uma tranquilidade inabalável. Nada mais a crisparia a testa, nem as contas a pagar ou mesmo a crise política do país. 

Não pôde irritar-se com o discurso pregatório repleto de metáforas barrocas do pároco de plantão. O céu, o inferno, a salvação das almas (onde estaria agora a alma de Eloá?). Eu, perplexa pela ladainha, resolvi falar algo que soasse mais honesto pelo menos para mim. Nunca fui grande literata, mas pude ler alguns escritos tecidos durante as horas de preparação dos atos. Assim, de um canto de semiconsciência, vieram palavras. Emocionei os presentes, mas eu mesma não pude me ouvir. 

O cortejo saiu. Perdi o rosto das pessoas na luz projetada pelo crepúsculo. Caminhávamos sob a égide do tempo, conduzidos pela prova maior de nossa insignificância. Pequenos e efêmeros, éramos somente sombras impressas no chão de pedra pelo pôr do sol.

Desenhei com contrastes o momento. Rascunhei os traços expostos à luminosidade. Fotografei com a retina dos olhos afogados o instante único. Quem sabe eu precisasse revisitar esse momento vezes e mais vezes para compreender ser aquele o fim de nossos dias juntas, de suas bochechas bêbadas de vinho, das agulhas de tricô. Precisaria eu, dali por diante, pensar no pretérito – tempo verbal de memórias ocasionais. Sem suspiros, sem cheiro de perfume. Eloá parou de ser. Nos deixou naquela terça ensolarada. Nos roubou seus tempos, modos e conjugações.

Deixou a mim ser conduzida por outras mãos, por braços que me acolheriam. Deixou-me a outros ombros. Privou-me dos nossos momentos em meio a conversas durante a novela quando ela me contava sobre sua infância pé no chão. Durante esses instantes, se fazia líquida e transparente. Naqueles intervalos, retirava suas máscaras, depunha seus disfarces. Chegava a sorrir.

Destinou-me a lembrança do apartamento do Centro, nosso primeiro refúgio. Guardados em mim, nossos momentos mais reclusos quando tricotávamos luvas para o inverno úmido que viria pela frente. Quando comparávamos o tamanho de nossas mãos. Uníamos a nós. Tramávamos nossos laços. 

O vapor dissipou-se. Doze horas depois, estava eu sozinha diante ao espelho sentindo o frio do porcelanato. Nas mãos, o registro do cartório, a comprovação de sua inexistência em tinta impressa sobre papel timbrado.

Minha mãe parou de ser. De tudo, me restaria apenas o passado. Pretérito perfeito, tempo verbal de memórias ocasionais.

Parte dois >

Dois nós
Romance
Carolina Panta
135 p.
14 x 21 cm
978-85-53074-52-5
R$ 35
Editora Metamorfose

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s