Folhetim LRS: Dois nós, Carolina Panta (parte três)

Arte: Giovani Urio

2003

Escuta, irmão, esta canção da alegria: um canto alegre de quem espera um novo dia. Vem, canta, sonha cantando. Vive esperando um novo sol em que os homens voltarão a ser irmãos.

Gargantas em uníssono ecoavam a canção entre as paredes do colégio. Escrita por Schiller em 1785 e musicada por Beethoven em 1824 na sua nona sinfonia, a Ode à Alegria é uma das músicas eruditas mais conhecida de todos os tempos. Barítonos e tenores cantavam na dureza sonora do alemão um hino à liberdade entre os adolescentes de uniforme.

O professor de música gesticulava como se quisesse tocar ele mesmo todos os instrumentos e cantar por todo o coro. A turma a sua frente, hipnotizada pelos movimentos, não tirava os olhos da batuta imaginária. Mas a adolescente permanecia de olhos fechados.

Durante a primeira introdução dos violinos, ela colocava os pés na areia úmida. Conectava-se ao chão erodido ao final do primeiro movimento. O vapor de sal tocava- lhe a pele enquanto o vento guiado pela orquestra bagunçava seus cabelos. Uma outra tempestade vinha ao horizonte. Ela sentia um pouco de medo, mas entregava-se às ondas entre raios quando o coro em ré menor garganteava a poesia cantada. Não lutava contra a correnteza, entregava-se. Estava viva. Finalmente.

Badalaram os sinos do meio-dia. O último movimento da sinfonia foi abafado pelo som de estojos e livros sendo guardados em mochilas. Os estudantes saíram, tomaram os corredores. Entre risadas e abanos de despedida, Beethoven ficara para trás. Mas se olhássemos nossa garota pelo longo corredor, poderíamos imaginar rastros de areia e água com sal.

Encontraram-se diante ao sagrado coração de jesus. Todo o planejamento da tarde já fora alicerçado pela amiga. Havia algo nos seus olhos verdes da colega. Era uma astúcia necessária aos caóticos, dispensável aos ingênuos e cobiçada pelos garotos do Ensino Médio do colégio de freiras.

A cobertura da Rua Duque de Caxias estava vazia. Com o primeiro despontar de calor acima dos 30º, os pais da amiga partiram rumo ao litoral. Seguindo a tradição de muitas famílias gaúchas, abandonavam suas residências durante os meses do verão rumo ao mar. Era necessário realizar a costumeira e adiada faxina para receber as visitas durante a estação, consertar geladeiras, analisar estragos da maresia nos metais, únicas testemunhas do abandono durante o inverno.

Chegaram e retiraram seus uniformes. Antes, passaram na locadora e escolheram os DVDs para a sessão de cinema da tarde. Alisaram os cabelos frente ao espelho como se indispensável fosse. O interfone tocou. A adolescente dona da casa confirmou nomes e liberou a porta. O pequeno grupo subia as escadas entre gargalhadas e empurrões. Eram cinco ao total. Entre eles, o rapaz do terceiro ano.

Nossa garota passara o ano observando a forma como o rapaz arrumava os cabelos para trás quando contava suas aventuras às meninas mais jovens e achava estúpida a forma como essas riam alto diante dele. Por certo, o tom alourado do seu cabelo ao sol era hipnotizante, e ele sabia disso. Enquanto estudava na biblioteca em tardes ociosas, via-o, pela janela, sentado ao banco de pedra, cada semana em uma companhia diferente.

Ela nunca fora bonita, mas possuía o charme dos inteligentes, dos livros sob o braço. Era um tipo comum, mesmo que a adolescência lhe tenha propiciado curvas nunca imaginadas quando na magreza de criança. Fizera-se em peitos há pouco tempo, demorara a aflorar como as amigas. A mãe preocupou-se, durante anos, com a aparência franzina da filha. Agora não mais. A cintura acentuada pela calça jeans centropê atribuía olhares à adolescente entre circuitos masculinos e contrastava com as acriançadas sardas em seu nariz.

A sessão de cinema daquele dia seria uma compilação nada interessante de meia dúzia de blockbusters de terror. Cada cena assustadora forçaria a aproximação entre os corpos quando as meninas apertassem, com força, o garoto vizinho de sofá. Com as reações planejadas, mal sabiam ser esse um daqueles momentos únicos de suas vidas.

Terminada a primeira película de sustos desnecessários, cansaram-se do jogo teatral estereotipado. Elas, por simular medo. Eles, por não poder fechar os olhos durante o assassinato final. Papéis bem representados, passaram ao próximo ato.

No canto da sala, o âmbar do whisky escocês comprado na fronteira amadeirava-se mais pelos raios de sol.. Era um convite. Seduzia-os. Não demorou muito para dominar os organismos novatos na arte de inebriar-se.

O terraço na ponta da Rua Duque de Caxias trazia a visão do Rio Guaíba crepusculado. Entregando-se ao horizonte, o sol manchava de laranja e tons de rosa os céus de Porto Alegre.

As cores quentes refletiam na tez dos jovens um espetáculo digno de museu. A pintura erguida na frente dos olhos emocionava os presentes. Alguns choravam ao contar situações familiares carregados pelo momento único ou mesmo pelo trago. Mas ela nunca falava sobre a mãe. Guardava para si todo e qualquer anseio sobre a vida de casa ou dúvidas sobre o pai.

Dentro da paleta de cores, são os tons quentes como aqueles do final de tarde os transmissores das vontades da alma. São essas as tintas que tingem nosso rosto quando em sensações nos fazemos pigmentados pelos rúbeos coloridos de sangue. Naquela tarde, entre lágrimas e raios de sol, o peito da garota entrou em erupção; as borbulhas vindas do magma interno de seu pensamento dominavam-lhe a face.

Os olhos bêbados do garoto terceiranista brilhavam sob o tom laranja já desfalecido no horizonte. Eram os mais belos olhos castanhos, amadeirados como os tons do destilado escocês. Tocavam-se de ombros debruçados no gradil do último andar enquanto, em silêncio, observavam a grande mostra oferecida pela luz. Encostou em seus cabelos. Procurou cócegas em seu umbigo. Beijaram-se.

O que sucedeu após o primeiro toque de lábios situou-se na encruzilhada dos acontecimentos como ritual de iniciação. Ambos perdidos entre braços e fluidos compartilhados acabaram por entregar-se ao instinto. Seus corpos, herdeiros da espécie, entendiam claramente como perpetuar sua existência.

Ao fundo, adentrada a noite, ela mirava o vulto das árvores projetadas pelas lâmpadas amarelas de rua antiga. Deitada na cama, olhava para o teto e cantarolava algo ininteligível para quem não estivesse ao seu lado. A nona sinfonia abafava a voz das risadas dos amigos na sala. Guardou somente para si esse momento em que sombras e violinos foram testemunhas da dor e do prazer de se fazer mulher.

2005

A palavra “puta” está registrada quatro vezes na porta do banheiro. As ocorrências “vadia” e “piranha” apresentam-se por três vezes. Entre as escrituras não- verbais, encontra-se símbolos do feminino e grandes pênis eretos. Defecção, analidade, exaltação sexual, romantismo, seios, impotência, masturbação.

No banheiro feminino, há a presença de uma maior liberdade na produção escrita em forma de elogios de caráter sexual. Já no masculino, o que se percebe são, em sua maioria, frases de confronto e violência.

A porta é o canal em que os indivíduos podem expressar suas singularidades e interesses, aspectos de suas personalidades. Constitui-se, portanto, como via de acesso ao imaginário humano. Nesse caso, o imaginário do Pensador. O bar completava seu primeiro ano de abertura no boêmio bairro da Cidade Baixa. Começou tímido, oferecendo cerveja de litro e algumas mesas na calçada. Com o passar dos meses, foi conquistando uma clientela de universitários com pouca grana e muita vontade de viver. Nesse primeiro aniversário, os abraços em Eloá já eram fraternais e os rostos, familiares. O Pensador era um sucesso.

Nas mesas de plástico amarelo, jovens discorriam acalorados sobre questões filosóficas e justiça social. Até altas horas, reuniam-se os intelectuais acadêmicos sobre a guerra no Oriente Médio ou mesmo sobre a política externa do país. De um tudo era questionado, pena, apenas, seus clientes permanecerem impassíveis diante àqueles que dormiam no chão das calçadas do outro lado da rua.

Foi nos anos de estudo do supletivo que conheceu Rogério. Ele também era um assalariado da noite. Trabalhava como garçom em uma churrascaria da Avenida Princesa Isabel, mas acreditava nos bolsos dos jornalistas e professores dispostos a tomar cerveja barata em mesas de plástico. Encantou Eloá com suas propostas e diferentes nomes possíveis para um empreendimento em conjunto. Em pouco tempo, passaram dos sonhos à cama.

Camila, sempre prioridade, agora era uma adolescente em busca de uma vaga na universidade federal. Não dependia da mãe para quase nada, senão financeiramente. Eloá enfim sentiu que poderia voltar a se entregar sem medo. E naquele primeiro aniversário do Pensador era isso o que fazia. Entre os braços de Rogério, sorria como apenas na outra vida, na sua outra Eloá.

Alguns amigos de Camila já maiores de idade ganharam bebidas naquele dia de festa. Ela, ainda com seus 17, fugia até o banheiro com Clarice para tomar uns goles longe das vistas da mãe. O sanitário antes pintado num bege encardido vinha, agora, estampado pelas reflexões femininas que ali circularam no último ano. Era uma linguagem interessante, pensou entre um gole dividido com a amiga. Putas, amores perdidos e filosofias regiam o tom dos manifestos. Eram diários íntimos, gritos de almas presas a um mundo que as silenciava publicamente. Era aquela parede, talvez, o único desabafo de uma Gabriela sobre um coração partido, ou mesmo de Maria sobre a incompreensão humana. O banheiro era o mundo, o receptáculo, o ambiente íntimo acolhedor. O lugar sem censura onde as adolescentes poderiam, naquele momento, apenas ficar bêbadas.

Mas o lugar abriu uma brecha no tempo. Passado e presente tornaram-se uma mentira conceitual, pois os escritos somente existiram naquele lugar, naquele momento. Eram pequenas arcas produzidas por uma sociedade. Além de descrever as coisas do mundo, esse ambiente de intimidade criava sentido para as realidades. E, entre um gole e outro de cerveja quente, Camila leu e releu palavras de incentivo à luta pelos direitos femininos, pela naturalização do corpo. Leu feminismo, mas pouco interpretou.

No auge da festa, surgiu a roda de samba dos sábados à tarde. O suor do rosto de Eloá a fazia retornar a uma felicidade não lembrada, guardada em um canto de memória de uma cavidade cerebral desconhecida.

Conjugadora de verbos, Eloá rodopiava em meio aos pandeiros pondo-se em graça. Era linda. Sorria, abraçava. E que luz dispendida daquele sorriso. As pernas e braços em compasso balançavam como se há tempos não se mexessem mais. Era graciosa, a idade lhe presenteara, ainda, com o frescor dos olhos azuis.

O cantor puxava o grito da favela carioca acompanhado pelas palmas meio sem ritmo do povo já embriagado. O gingado de força do chão brasileiro convidava os presentes no Pensador a lançar mão dos pudores dos dias de semana. Que deixassem os casacos e morais recostados às cadeiras e entrassem na roda acompanhados pelo copo e pelo corpo.

Recém saída do banheiro, Camila não a pôde reconhecer. Confrontou-se com a beleza da mãe e nem todos os apelos do sanitário a fizeram conter o ódio sentido ao ver Eloá sendo aquela pessoa desconhecida. O esplendor foi um afronte para a adolescente. O tom acaramelado da pele de Eloá era um absurdo em contraste com a palidez de Camila. E a forma como dançava. Seria realmente necessário dançar assim? Mas que merda, precisava mesmo balançar a porra da bunda daquele jeito?

Mas a filha não era a única contrafeita pela magnitude feminina de Eloá. Um Rogério amolado e bêbado, amparado ao canto da caixa registradora, contemplava a desenvoltura da companheira repleto de ciúmes e mágoa. Observava o cavaquinho que chorava com atenção especial para os requebrados da loira. Havia, de fato, uma sexualidade latente no pequeno bar de quinze metros quadrados. Era isso. Aquela era a Eloá de verdade. A mãe atenciosa era a máscara. Era puta como as outras.

Ao confrontarem os castanhos olhos da filha, a dançarina tornou-se a mãe. Enrijecida, encolheu-se em torno do umbigo. Dobrou-se em uma vergonha e dor há muito deixada para trás. Foi retirada da roda pelo braço agarrado de Rogério, avermelhado de ciúmes e raiva. Violada, voltou a ser quem há muito já havia abandonado.

O pretérito voltou com um empurrão no canto das caixas de cerveja de litro. Voltou com dois hematomas arroxeados no braço esquerdo.

Não sendo somente um evento físico, a formação de mais um passado tratou de transcender os limites da existência que a fez carne. E, nessa encruzilhada do acontecimento, virou arquétipo, tornou-se metáfora. Toda normalidade foi corrompida, toda existência, mais uma vez, fatigada. Era puta como as outras.

Com xingamentos e palavrões às próprias mulheres, encontramos cinco escritos ao lado do espelho. As palavras “puta” e “vadia” são as que ganham destaque sendo amplamente utilizadas. De cunho pejorativo e ofensivo, ambas vêm carregadas de atribuições culturais e são historicamente discriminatórias. Dessa forma, esses registros evidenciam que ainda se tenta atribuir distinções entre algumas mulheres e aquelas com padrões comportamentais aceitos ou considerados corretos pela sociedade.

V

Eu não posso dizer ter tido a melhor das relações durante a juventude com minha mãe. Sempre foi muito difícil ser adolescente perto dela. Muito pela minha personalidade capaz de guardar meus sentimentos em um baú. Muito pela comodidade dela de não querer vasculhar o que está devidamente trancado.

Descobri em leituras de revistas adolescentes muito daquilo posto em prática em relações de amizade e sexo. Conversar sobre esses temas era complicado, ela trabalhava demais. Nas poucas noites em que Eloá não estava no bar, nos dedicávamos a algum programa sobre moda ou culinária da TV fechada. Eu não queria ir além dessas conversas triviais. Ela não conhecia poemas e nem muitas palavras belas. Além disso, falava de política de forma superficial. Para evitar brigas, aprendi a calar.

A situação ficou insuportável, de fato, quando passei no vestibular para Ciências Socias. Ampliando meus estudos sobre a sociedade, passei a ver situações dentro da minha casa que me causavam asco à época. Um desses grandes conflitos aconteceu quando Eloá afirmou em uma conversa abusada enquanto jogava cartas com uma amiga só ser pobre quem realmente queria ser. Que olhassem para ela: antes só uma marisqueira filha de pescador e agora dona de restaurante. Sempre se esforçara muito, até hoje não eram raros os dias em que trabalhava mais de 16 horas. Sortuda era a Camila, essa sim nunca precisaria trabalhar pra ficar com essas besteiras de esquerda e militância da faculdade. Terminou o discurso dizendo querer de verdade que eu fosse advogada. Ou juíza, quem sabe.

Derrubei sobre minha mãe todas as leituras do semestre sobre meritocracia dos sociólogos norte-americanos. Obviamente, eu possuía a plena certeza da pouca compreensão dela sobre todos os termos científico-econômicos usados em meu discurso. Talvez eu mesma não compreendesse, de fato, o que dizia. Elencava os estudiosos apenas para engrandecer meu tom diante ao seu Ensino Médio de supletivo. Ela apenas fazia pulsar a veia da garganta em um pobre merece ser pobre, quando ganha esses benefícios do governo, bebe tudo.

Ela era muito ignorante, mas era minha mãe. Eu, muito imatura para perceber aquilo além das suas palavras cuspidas ao ódio.

Fui, naquela época, morar na casa do estudante da Avenida João Pessoa. Entrei em uma bolsa de iniciação científica na faculdade e gastava todo meu pouco dinheiro em cachaça com coca-cola nas noites de sábado.

O prédio antigo de paredes deformadas por infiltrações abrigava gentes dos mais diversos brasis. Claro, não era feito para aqueles que possuíam condições de alugar um apartamento, mesmo que pequeno, na zona dos bares da cidade, vizinhos ao Pensador. Em seus dormitórios tomados pelo cheiro de roupa suja e mofo, hospedavam-se estudantes que possuíam muito pouco além do conhecimento.

O meu caso era bem diferente. Para não parecer menina mimada cheia de rebeldias convenientes, inventava diversas famílias com inúmeros irmãos sem condições para bancar a estadia da filha mais velha na capital. Sacrificavam-se, coitados dos meus pais, para eu poder me alimentar. No começo, senti um pouco de remorso, admito, mas, com o tempo, minha família imaginária ganhava mais nomes próprios e características detalhadas. E foi nesses tempo que conheci Fausto.

Foi em um final de tarde. Cheguei ao corredor com algumas sacolas cheias de miojo, ele estava lá. Apoiado na parede, conversava com uma estudante de enfermagem do primeiro semestre. Umas dessas mocinhas que vem do interior e deslumbram-se com a capital. Ele sabia disso.

Fausto falava com a menina como se soubesse do mundo. De fato, dispensava muito de seu tempo aprendendo novas canções e lendo informações de qualquer tipo na internet. Não trabalhava, mal ia à faculdade particular de Publicidade e Propaganda. Não morava no prédio, mas sim em um apartamento confortável com cama box alugado pelo pai empresário.

Quando me ajudou com as compras, entrou no meu quarto sem minha autorização. Eu admito ter gostado da atitude, ele era um cara muito interessante. Já o havia visto cantarolando canções pelos corredores do centro estudantil, acho que tinha alguns conhecidos por lá.

A partir daquele dia, seu violão virou presença. Ele era um bom protagonista das narrativas que me contava entre um Marlboro vermelho e outro. Dizia-se depressivo, tomava algumas doses de medicamento controlado roubado da gaveta da mãe. Amenizava, também, seus conflitos nos vários baseados fumados da manhã até a noite.

Admito ter feito pouco para mudar o estado anímico dessa época de Fausto. Irritava-me seu sofrimento que eu não sabia se era real ou leve comodismo de filho de família rica. Era maconha ou depressão? Encantava-me, por outro lado, esse ar despreocupado com o futuro que se opunha às minhas tendências devoradoras de livros.

É certo, eu nunca passara necessidade até então, mas sabia que os conflitos com minha mãe poderiam ir até onde acabaria todo meu dinheiro. E assim aconteceu.

Voltei para a casa em uma sexta com nada na carteira. Eloá estava no quarto arrumando suas coisas para ir ao Pensador. Ela apontou a cabeça para fora da porta e levantou a sobrancelha como em um cumprimento. Poupou-me de um pedido de desculpas, e a ela de ceder em suas opiniões. Antes de sair, deixou sobre a mesa uma fatia de bolo e cinquenta reais.

2009

O peito arfava mesmo com o ritmo lento da caminhada em torno do parque. Os idos de janeiro não inspiravam o exercício na quentura úmida do calor do verão da capital. Com o colo encharcado, sentia uma aquosidade no meio das pernas. No ventre, nada além de uma ausência. Sem ser, sem nada.

Quando chegou à porta não identificada, horas antes, sentiu ter deixado algo para além daquele batente. Já havia semanas que de lágrimas se alimentava, somente consumia o proveniente do seu existir.

Gonadotrofina coriônica humana. Segmentações, gastrulações e organogeneses. Oito semanas de formação celular confirmadas em um papel.

O procedimento durou o mínimo possível que o pacote de dinheiro poderia pagar. Com uma fluidez avermelhada escorreu do ventre o pouco de evolução embrionária.

Quando em seu útero plantou-se a desconhecida semente e em seu eu irrigou- se a hera, o namorado afirmou ser cedo demais. Conheciam-se há pouco, eram apenas estudantes. Alimentada por nada, viu seu futuro longe do alcance dos dedos.

Ela não teve escolha.

Sob o manto do desconhecido, chegou ao ambiente que em nada parecia hospitalar. O odor de carne morta encheu as narinas misturado à lavanda do alvejante barato comprado a litro. As marcas nas roupas de cama deixavam latentes os destinos traçados naquele beco escondido de endereço residencial.

Cada canto sujo de lajota mal colocada guardava o epitélio de futuras gerações desconhecidas. O ambiente todo deixava claro que não funcionava conforme o padrão de outros locais. Ali somente se abatiam bois magros, carne de segunda.

Foi chamada pelo número, deixando que o anonimato das paredes encardidas fosse sua única testemunha.

Estava feito. Acordou de um desmaio engolindo pílulas e paracetamóis. As orientações foram poucas, entregues em um papel de rascunho amassado onde se poderia ler parte de um texto científico sobre endométrios e infecções.

Não se alimente. Não durma. Não sente. Não tinha mesmo vontade de comer, já estava farta de suas mágoas, mas poderia ter dormido por mil e um anos naquela tarde de asfalto e alma derretidos.

Dadas as orientações, precisava caminhar durante quatro horas para que a hemorragia pudesse fluir, retirando a matéria agora morta do seu eu. Ocorreu a ela, então, caminhar sob a sombra das árvores da Redenção. Sozinha no lugar sem lembranças andava. Apenas andava. Andou entorpecida pelos remédios e pelos trinta e nove graus de calor e febre. Julgada por cada galho de pinheiro, por cada flor caída dos ipês a chorar pelos troncos podres.

Sentia-se amorfa, um punhado de massa sem teor, de tópico sem assunto, de substância sem argumento.

Ela não teve escolha.

Por quanto tempo permaneceu morta ninguém pôde dizer. O que se sabe é que nossa garota precisaria, ainda, encarar a mãe naquele dia.

< Parte dois

Parte quatro >

Dois nós
Romance
Carolina Panta
135 p.
14 x 21 cm
978-85-53074-52-5
R$ 35
Editora Metamorfose

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