Estratégias e sucessos de um crowdfunding

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

As campanhas de financiamento coletivo já são uma das ferramentas mais difundidas entre autores independentes que buscam viabilizar a edição de uma obra através da autopublicação. Os desafios para o sucesso da captação de apoiadores são muitos e exigem envolvimento permanente do autor. O relacionamento com uma rede de possíveis leitores é fundamental para alcançar o objetivo, sejam autores estreantes ou experientes.

No dia 24 de julho, o escritor e ilustrador Paulo Alonso lançou a campanha de crowdfunding para o livro Estroma, uma antologia de 78 poemas e ilustrações que promovem um passeio introspectivo pela subjetividade do autor sob um jogo de luz e sombra. Inicialmente, a campanha estipulava a impressão de cem exemplares e um orçamento de R$ 3.500 – o que foi alcançado em um mês, possibilitando que o autor aumentasse a meta para R$ 6 mil e 300 exemplares.

O rápido sucesso da campanha de Paulo Alonso motivou esta conversa com o autor, que é apoiador de LRS, sobre essa experiência, como ela se compara com o crowdfunding do livro anterior, Plêiades (2017), e quais são as estratégias que poderiam inspirar outros escritores em busca de autopublicação. Confira abaixo!

Esta é a segunda campanha de financiamento coletivo que você realiza para a publicação de um livro. Como você avalia o resultado até agora, se comparado com a campanha anterior?
Eu acredito que uma campanha de financiamento coletivo não deve ser vista como um fim em si mesma para projetos artísticos. As campanhas aproximam o autor/artista do público, e esse é o grande diferencial, pois quanto mais valor for entregue ao público como recompensa, maior fidelidade se ganha para seus próximos passos artísticos. E é essa fidelidade que noto de diferença da primeira para esta segunda campanha de financiamento que estou concluindo. Na primeira campanha, eu perdi a conta de quantas pessoas eu entrei em contato diretamente (conhecidos e desconhecidos) para vender a minha ideia. O esforço para me colocar como poeta e ilustrador e convencer que minha primeira obra era boa, foi enorme. Já nesta segunda campanha, muitos que adquiriram meu primeiro livro já deram o apoio logo no início, inclusive com apoios mais caros. Não tive todo o esforço de divulgação que tive na primeira, e mesmo assim, a meta inicial foi alcançada em metade do tempo, em apenas um mês. Assim, o crowdfunding funciona como uma alavanca para criação de público, e de um público necessitado de um contato mais próximo ao autor/artista.


Artigos que serão enviados para os apoiadores de Estroma. Fotos: Divulgação

Quais são os segredos para atingir a meta do crowdfunding e buscar a meta dobrada? Como você trabalhou a campanha junto ao seu público?
Acho que o principal segredo é ter uma meta mínima humilde e razoável. Ser realmente o mínimo necessário para concretizar sua obra. Para isso, fazer orçamentos, cálculos, saber quanto está disposto a investir do seu próprio tempo e dinheiro. Com o valor da meta mínima, você sabe quantas unidades precisa vender e a qual custo. Sabendo quantas unidades será preciso vender, você pode mensurar com seu público que te segue nas redes sociais, que interagem contigo, sua família, etc. Isso tudo não garante atingir sua meta, mas te faz ter os pés no chão e saber qual é o seu mínimo necessário. E também o esforço necessário para a divulgação.

Outro ponto muito importante é quanto ao público. O efeito da campanha não dura somente durante a campanha. Há diferentes tipos de apoiadores: (1) os poucos que irão te apoiar logo nos primeiros dias; (2) os que irão te apoiar durante a campanha se você convencê-los; (3) os que irão te apoiar se outros apoiarem; (4) os que dirão que irão apoiar, mas nem abrirão o link da campanha, e pode incluir familiares; (5) os que não dirão nada e aguardarão a obra se concretizar para comprar de ti; (6) os que nem saberão de sua campanha e que vão descobrir muito depois de já ter terminado. É importante não ter altas expectativas quanto ao público.

Quanto a dobrar ou triplicar a meta, é uma questão de estratégia, que precisa ser pensada em ações de divulgação.


Nesta segunda campanha, pelo menos 6 meses antes, eu já tinha criado um perfil no Instagram específico para o novo livro, e aos poucos fui divulgando registros do processo de criação, ilustração, ou curiosidades. Meu objetivo foi fazer com que meu novo livro ainda sem data já fosse conhecido e esperado previamente. Quando começou a campanha, muitos já sabiam, estavam preparados para apoiar e com altas expectativas. Acredito realmente que divulgar o processo de criação valoriza qualquer obra. Outra coisa que busquei reforçar nesta segunda campanha foram os parceiros, pois quanto mais redes conectadas ao projeto, mais pessoas conhecem que você existe e o que você produz. Mesmo que você não venda naquele momento para aquelas pessoas, em algum outro momento futuro, elas lembrarão de ti. 

Você é autor do texto, das ilustrações e do projeto editorial de Estroma. Essa autonomia completa pode facilitar ou dificultar a produção?
Na minha experiência quanto à segunda obra que realizo todas estas etapas, posso dizer que facilita e muito a produção de um livro. Vejo um livro como uma obra completa. Sua apresentação, sua experiência de leitura na interação com o leitor, seu impacto visual. Tudo isso está presente em uma única obra. Quanto mais profissionais colocam a mão para realizá-lo, mais a comunicação entre eles deve ser estreita, pois pode resultar em divergências ou incoerências entre forma e conteúdo. No meu caso, eu pude escolher e realizar a ilustração que acreditei dialogar com o texto, torná-la parte da obra e de sua linguagem, assim como a diagramação, a capa, a tipografia, o espaçamento, os respiros, as aberturas de capítulos, etc. Tudo, no fim, fará parte de uma única experiência com a pessoa que terá o livro em mãos. Tudo deve ser pensado para esse momento, para essas sensações, desde a apresentação visual, até a qualidade textual.

A campanha para a publicação de Estroma está em seus dias finais. Para apoiar, clique aqui.

Sobre o autor
Paulo Alonso, 34 anos, é poeta, artista visual, arteterapeuta em formação e pesquisador assíduo de campos simbólicos como a mitologia, psicologia, astrologia, oráculos, e outros. Designer de profissão, formado em análise e desenvolvimento de sistemas (2007), seguiu carreira com estudo das artes visuais (UNESPAR – Curitiba – Inacabado, e UERGS – Montenegro – Inacabado) e da psicologia e terapias (Arteterapia – Psiquê – 2018). Estroma é seu segundo livro. O primeiro, Plêiades (2017) feito também por financiamento coletivo, possibilitou a produção de 300 exemplares, hoje restam apenas 14 destes.

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