Minha rotina: Gustavo Melo Czekster

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de acervo pessoal

“Os leitores não leem os livros tentando encontrar o pensamento vivo de outra pessoa, ou as suas opiniões sobre o mundo, ou as suas observações, mas sim buscam uma história com a qual possam não se identificar, mas rever a sua vida em uma realidade alternativa”. Gustavo Melo Czekster é um escritor compromissado em, acima de tudo, promover uma experiência estética em parceria com o seu leitor. Autor de dois livros de contos, O homem despedaçado (Dublinense, 2013) e Não há amanhã (Zouk, 2017), Czekster alcançou grande reconhecimento com o título mais recente. O livro foi vencedor do prêmio Açorianos 2017 na categoria Contos, do prêmio AGES de Literatura nas categorias Contos e Livro do Ano e do prêmio Minuano de Literatura também na categoria Contos. Foi ainda finalista do Prêmio Jabuti 2018 na mesma categoria.

Convidado desta edição da série Minha rotina, o doutor em Escrita Criativa pela PUCRS fala sobre escrita, leitura, cotidiano e recomenda muitos livros e autores, incluindo a apoiadora de LRS Irka Barrios. Boa leitura!

Você tem uma rotina para escrita? Você escreve diariamente?
Por muito tempo tive uma rotina de escrita, mas agora não consigo mais. A minha rotina transformou-se em “aquilo que preciso escrever” e quem dita o prazo é o local ou veículo para onde estou escrevendo. Mas, como toda boa transgressão (e a literatura é uma forma de transgredir), às vezes me escondo dos compromissos – e de mim mesmo – e escrevo por prazer, algo que sinto necessidade de colocar em papel ainda que não tenha em mente publicar. Comparo minha rotina de escrever ao estilo de luta de Jackie Chan, o “drunk fight“: vem uma ideia, começo a escrevê-la, no meio surge outra, eu anoto, então alguém me pede um texto, eu escrevo o primeiro e o terceiro ao mesmo tempo, mas elaborando mentalmente o segundo texto, e assim os dias vão passando. É um sistema caótico, mas o caos também retroalimenta a escrita, e os textos feitos simultaneamente dialogam entre si, ainda que somente eu veja essa tessitura. Por isso, mesmo não querendo escrever diariamente, ou desejando ter uma folga, posso dizer que estou sempre escrevendo: textos ficcionais, ensaios, resenhas de livros, artigos científicos, comentários sobre os documentários que assisto, ideias de histórias, petições jurídicas. A melhor maneira de elaborar o estilo é estar sempre em movimento.

Você elabora algum planejamento para a produção dos seus livros?
Eu tento. Sempre começo qualquer projeto ou ideia desenvolvendo uma cronologia, esboçando personagens, refletindo sobre o narrador e o foco narrativo, pesquisando sobre o cenário ou aspectos históricos, mas, quando começo a escrever, em um determinado momento abandono todo o planejamento e sigo o instinto. Sou também o meu primeiro leitor, tenho a curiosidade natural de saber como a história vai acabar, por isso escrevo aos arranques o restante da história e deixo o planejamento de lado. No entanto, após esse primeiro esboço, reescrevo tudo e repenso vários aspectos, então posso dizer que o meu planejamento é a versão inicial da história, uma espécie de esqueleto, que depois é retrabalhada e refeita.

Fotos: acervo pessoal

O que você faz para distrair-se do trabalho da escrita?
Considero que tudo o que faço ou pelo que me interesso orbita em torno do escrever. Assim, na cabeça estou sempre escrevendo, e considero que o material ou a inspiração está ao meu redor esperando para ser descoberto. Assim, quando não estou escrevendo, leio (vendo como outros escritores apresentaram as suas histórias), assisto filmes e seriados (pegando detalhes na construção dos personagens e diálogos), ouvindo músicas (prestando atenção nas letras e ritmos). Também costumava caminhar – nos períodos pré-pandemia – e observar as pessoas, imaginando como seria possível descrevê-las em palavras ou arquitetando dramas e comédias ao redor delas. Pode parecer um pouco chato, mas sempre considerei estar com a cabeça aberta para novas ideias como uma forma de escrever sem estar necessariamente escrevendo.

Qual plataforma ou editor de texto você utiliza para escrever? Por quê? E como organiza os arquivos?
Dois anos atrás, redescobri os prazeres de escrever à mão. Eu sinto melhor o texto quando o escrevo à mão, ainda que me machuque também. No entanto, a dor de escrever algo também me faz ter maior atenção e respeito ao texto. A literatura não deveria ser algo do qual escapamos impunes. Depois dessa primeira escrita manual, passo o texto para o LibreOffice, pois daí é mais fácil revisar e corrigir. Organizo os arquivos por títulos de textos, dentro de duas grandes pastas: em uma delas, estão os textos encerrados e, em outra, os textos nos quais estou trabalhando ou que estão incompletos. Os romances tem uma pasta exclusiva dividida por capítulos, e trabalho cada um deles individualmente.

O que um escritor precisa para escrever?
Sou um pouco antiquado: para mim, antes de qualquer outro elemento, o escritor deve ter vontade de contar uma história. Pode parecer óbvio, mas é o mais difícil. Todos querem colocar cenas, impressões pessoais ou reflexões dentro dos seus livros, mas poucos se concentram em contar uma história, tentar suspender a realidade por alguns instantes para que personagens somente imaginados se tornem tão palpáveis e vivos quanto seres de carne e osso. Os leitores não leem os livros tentando encontrar o pensamento vivo de outra pessoa, ou as suas opiniões sobre o mundo, ou as suas observações, mas sim buscam uma história com a qual possam não se identificar, mas rever a sua vida em uma realidade alternativa. Depois da vontade de escrever uma história, aí tudo é questão de ajuste: algumas pessoas precisam de lugares silenciosos, outras de qualquer lugar, existem aqueles que bebem álcool, outros que só conseguem escrever tomando café ou chá. Mas, como afirma a Virginia Woolf, creio que um escritor precisa de um “teto todo seu”, ou seja, um espaço físico e mental em que possa trabalhar livre de quaisquer pressões familiares, pessoais ou econômicas. Infelizmente só existe em circunstâncias ideais muito difíceis de conseguir, então cabe a cada um encontrar o espaço que conseguir dentro da sua vida para escrever.

O que você está escrevendo no momento?
Estou revisando um livro de ensaios que oscilam entre contar histórias da literatura e das artes em geral, junto com ironia e bom humor (e algumas lições esdrúxulas de etiqueta), mas também estou escrevendo outro romance ( o primeiro deve sair em breve pela Zouk), que devo terminar pelo final do ano, e é um livro com temática meio fantástica, meio mitológica, tratando de uma história oculta dos primórdios do Rio Grande do Sul. Está sendo bem divertido dosar a linguagem e reduzi-la ao máximo de significação e força. Nos intervalos, também finalizo um livro de contos de terror para o público juvenil, atendendo a um monte de pedidos dos jovens que já me ouviram contar ao vivo algumas histórias e gostariam de lê-las.

Quais autores são os seus preferidos e quais livros vocês recomenda?
Nos últimos tempos, tenho lido mais literatura brasileira contemporânea, e posso dizer que estamos muito bem servidos de autores e autoras por todo o Brasil. Em matéria de contos, gosto muito dos livros do Ronaldo Correia de Brito (Livro dos homens), Emir Rossoni (Domanda Nísio), José Francisco Botelho (Cavalos de Cronos) e André Balaio (Quebranto), mais os meus clássicos pessoais (Lygia Fagundes Telles, Marina Colasanti, Alberto Mussa). Quanto a romances, li – e gostei muito – a Aline Valek (As águas-vivas não sabem de si), a Irka Barrios (Lauren), a Hilda Simões Lopes (Tuiatã) e estou lendo O avesso da pele, do Jeferson Tenório, e Morte Sul Peste Oeste, do André Timm. Quanto à poesia, gosto demais dos livros da Jeanne Callegari e da Ana Martins Marques, além do meu clássico favorito, o Murilo Mendes. Sobre literatura fantástica, tem muito livro que li nos últimos tempos, mas deixo somente duas indicações: os contos de terror do Márcio Benjamin em Fome e o romance extremamente criativo da Nikelen Witter, Viajantes do abismo.

Não há amanhã
Gustavo Melo Czekster
Contos
160 p.
16 x 23 cm
R$ 49
Editora Zouk

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