Gabriela Silva: Toda salvação é possível num livro de poemas

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

Falar de poesia nunca é fácil. Existe uma série de ideias, nuances, questões que nos perturbam e fascinam. Octavio Paz em o Arco e Lira, um dos textos mais conhecidos para aqueles que se interessam em estudar poesia e conhecer um pouco mais a respeito do fazer poético, diz que ela tem muitas qualidades e formas de ser percebida, como salvação e loucura, sentimentos e expressão de mundo, do cotidiano, de tudo que compõe e constitui o poeta e o seu universo circundante. A poesia une o sagrado e profano, o que é vivido todos os dias com o inusitado, o diferente, o ilógico.

A poesia contemporânea é justamente marcada por essa leitura do cotidiano, das ações, coisas e memórias que a todo momento reverberam em nossas palavras, gestos, emoções. Nada é demais, nada excede, tudo pode ser material para o poeta: a imagem de uma foto, o tênis surrado e velho, o disco de vinil abandonado sobre uma mesa, o livro que se perdeu entre as estantes, o último gole quase morno de Coca-Cola.

Desde Fernando Pessoa, lá no começo do século XX, as sensações foram percebidas com mais atenção. Pessoa chamou a esta ideia de “sensacionismo”. O ponto principal era o sentir do mundo, ou seja, o poeta deveria sentir tudo que fosse possível e que estivesse ao seu alcance através dos sentidos: paladar, audição, olfato, tato e visão, para depois refletir sobre isso e colocar na poesia todas essas impressões. Afinal, “pensar é estar doente dos olhos”, diz o heterônimo Alberto Caeiro. E é isso mesmo, a poesia nos exige, antes de tudo um “sentir das coisas e do mundo”, a experiência de contato com tudo que existe e depois, para dar corda no coração, para fazer a memória trabalhar e sempre voltarmos àquela sensação é que os versos tomam corpo, materialidade e se tornam parte do mundo real. As páginas dos livros de poesias são expressões de tudo o que o poeta viveu e, em alguns casos, são também o desejo de viver, de experimentar o que o grande parque de diversões que é a vida, pode oferecer.

Esse resgate que faço do fazer poético é o que sinto quando leio a poesia de Davi Koteck, lembro quando ele me mostrou seus poemas, quando me perguntou o que eu lia naqueles versos. Li tantas coisas que minha cabeça deu imensas voltas. Encontrei naqueles poemas um universo retido por bonitos olhos de um sujeito do seu tempo, reverberações de cotidianos do passado e do presente.

O exercício de escrever o mundo já é algo que Davi faz há algum tempo, é que vemos em livro de estreia, O que acontece no escuro, publicado em 2019, pela editora Taverna. São dezessete contos que compõem o livro, narrativas construídas através de um caleidoscópio de beleza, imaginário e singularidades. Esse exercício de criação, e de qualidade de linguagem e imagens construídas, continua em Todo abismo é navegável a barquinhos de papel, novo livro do autor, agora numa experimentação poética. A publicação é da Editora 7Letras, que tem como marca essencial a qualidade das obras que publica, especialmente as de poesia.

Todo abismo é navegável a barquinhos de papel é dividido em três partes: Refluxo lírico, Sanatórios de ternura e Cascas de parede. Cada parte é lúcida e amorosa em suas epígrafes e poemas. São quarenta poemas que se espalham por essas partes oferecendo ao leitor um convite muito interessante de leitura e comunhão com o fazer poético.

Se colocarmos a poesia de Davi contra a luz, reconheceremos ali, um tanto de toda a poesia do mundo, desde os seus tempos mais remotos, desde o momento em que a humanidade decidiu tentar reproduzir a vida em palavra, sonoridades, fábulas e tramas. A poesia tem exercido, desde então, seu papel fundamental de tentar contar de tudo que nos acontece, através de escolhas e sons que ficam registrados em nossa memória. Em Todo abismo é navegável a barquinhos de papel encontramos Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Walt Withman, Laurence Ferlinguetti, Leonard Cohen, William Carlos Williams, Ginsberg, Jack Kerouac, Ferreira Gullar, Baudelaire, Rimbaud e tantos outros. Há referências a cultura pop, músicas, filmes e livros. Há Bowie, Bob Dylan e Iggy Pop, Lou Reed e Caetano Veloso, Coca-Cola e os táxis laranjas de Porto Alegre.

Há luzes, camas, copos, toalhas, braços, pernas, olhos, cabelos, livros, discos, gotas de suor, lágrimas, sal e mel, memória e desejo. Tudo está ali, atrás de cada palavra, ecoando nas margens das páginas, querendo ganhar o mundo, conquistar olhos e corações, inquietar mentes e provocar cada leitor a procurar a poesia no seu próprio cotidiano.

É então que se apresenta a melhor característica de Davi Koteck: ele é um poeta que escreve sobre o que vive, observa e sente. Por isso sua poesia nos comove, nos faz sentir que somos semelhantes àquele eu lírico dos poemas, a encontrar objetos e memórias e sentir a imensa vontade de falar sobre isso.

Se a poesia é salvação como nos diz Octavio Paz, Davi mostra isso em Todo abismo é navegável a barquinhos de papel. Versos livres que ocupam um espaço na página e na leitura, deixando todo o resto para o leitor, para que ele se conheça, experimente. Davi, assim como explica Paz, foi feliz em cada palavra que escolheu para construir sua poesia. E a poesia contemporânea é um exercício árduo de fazer frutificar um mundo doente, repleto de dores e que já está repleto de cicatrizes salientes e ainda doloridas. O poeta Davi fez isso muito bem, através de cada verso pensado, escrito, relido e finalmente, compartilhado conosco. A mim, como leitora, só resta agradecer a alegria proporcionada por esse encontro de imagens e sensações.

Escolher um poema, apenas, para mostrar a poesia de Davi Koteck é difícil, no entanto, eu deixo aqui um dos meus preferidos, para que os leitores possam entender o convite que é feito, e o universo que ele nos oferece, na dor e na alegria que é o fazer poético. E que todo abismo é navegável a barquinhos de papel, material do sonho e do desejo, elemento primordial da memória, pois que o papel representa o delírio da possibilidade e o abismo é o próprio mundo, onde a escuridão e a claridade oscilam a cada fração de segundo.

a primeira vez
se fôssemos dois junkies
no final dos anos noventa
em algum beco escuro
do reino unido
talvez injetássemos heroína
(ouviríamos iggy pop the stooges david bowie)
com dentes apodrecidos,
duas línguas misantrópicas
enroladas no gosto de morte;
gritaríamos choose life
no meio da avenida cinzenta
como adolescentes gritam sempre
as descobertas

se nascêssemos em outra época
se nascêssemos ao contrário,
no avesso do mundo,
num lugar mais escuro
talvez os habitantes de lá nos acusariam
de anacrônicos.
E se não fosse possível
achar de novo aquilo
que não se encontra:
viajar com os pés no para-brisa
beijar tua boca cega
manusear a língua com calma
como se sentisse o gosto de cada agora
pela primeira vez.

Então, leitor, tudo o que somos e desejamos está na poesia, por isso temos tantos poetas ao longo da história do mundo, por isso Davi é um poeta de hoje, porque me faz pensar quem eu sou. Agora.

Gabriela Silva é Doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS.

Todo abismo é navegável a barquinhos de papel
Davi Koteck
Poesia
80 p.
R$ 36
7Letras

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