Maiara Alvarez: 1911, Porto Alegre dos Amantes

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Cara pessoa leitora,

Serei direta: espero que você já tenha atingido a maioridade legal, pois tratarei, aqui, de literatura nada apropriada para as mais jovens e ainda ingênuas. Quero dividir com você minha mais recente leitura. Imagino que não nos conhecemos — ou talvez sim, quem sabe o quão pequena é esta capital de então e de agora? —, portanto, não sei dizer de seus gostos para a apreciação da arte literária, e acho que tampouco sei dos meus, mas imagino que, ao abrir esta missiva, você tenha algum apreço pelas minhas tolas opiniões e incursos no que é produzido nas terras do Rio Grande do Sul.

Trata-se de premiada obra, publicada em terras cariocas, de autoria do ilustre autor Enéias Tavares, acadêmico e docente da Universidade Federal de Santa Maria da Bocarra do Monte, que delineia acontecimentos na retrofuturista Porto Alegre, em brochura que marca o início da série Brasiliana Steampunk.

Começo esta resenha por explicar que o autor usou de personagens referenciais de reconhecidos autores brasileiros que passeiam por um cenário até então deles desconhecido. As já existentes Solfieri, Benignus, Bacamarte, Acauã, Rita Baiana, entre outras, se encontram com pessoas resultado do imaginativo Tavares e constroem intrincada narrativa contada por criativa forma de conjunto de relatos juntados por um curioso e influenciável repórter, que chega à capital do estado embarcado em usual veículo aéreo, o zepelim.

Isaías Caminha contará, a partir de suas observações e da coletânea de informações a que terá acesso (incluindo degravações, inquéritos e noitários), a história de Antoine Frederico Louison. Ou é o que o jornalista pensa ser inicialmente: somente a arrepiante história de um médico assassino que espera pelo momento de sua execução em um complexo hospitalar psiquiátrico saído do clássico dantesco.

Não saímos da luz e não voltaremos à luz. Somos filhos do silêncio e tudo o que podemos almejar é a desagregação das moléculas.

A narrativa em primeira pessoa, para minha agradável surpresa, que primeiro se incomodou um pouco com a descrição das mulheres (algo a que estou, contrário ao meu desejo, acostumada), está repleta de diferentes nomes e vidas que se enlaçam, trazendo, além da diversidade de rostos, decisões, perguntas e discursos que tiram a possibilidade de interpretação de via única.

“Boa literatura, mas, como toda escrita masculina, afeita aos sentimentos egocêntricos e às impressões causadas pelas figuras femininas. Para vós, todas nós somos um mistério, não?”

O episódio de que trata o livro é revelado por uma rede de informações, a princípio, dispersas, mas colocadas sobre o papel de forma mais ou menos cronológica, dando ao leitor a divertida tarefa de ir criando uma ordem e teorias do que acontecerá a seguir, ou do que aconteceu anteriormente para dar razão aos mistérios do que está sendo lido agora.

Entretanto, ainda mais interessante é a abertura de significados, que estão além de profanidade ou arcanismo, e se encaixam nas humanidades verossímeis e empáticas que temos ao entender, aos poucos, como todas aquelas vidas chegaram aos momentos em que agora estão.

Ademais, padecer é retornar à realidade, uma vez que nada nos traz mais ao mundo desalienado do que o pathos do sofrimento.

Cabe avisar, como fiz ao início desta carta, que o sofrimento relatado, embora sob fundo fantasioso, traz consigo dores a que crianças não deveriam ser expostas. Para adultos, entretanto, que gozam da estabilidade mediadora trazida com a experiência, desde que dispostos a enfrentar o temível, trata-se de um trabalho primoroso de literatura, afiado por uma base sólida de personagens, limado por uma apresentação diferenciada e de final ativo e esmeradamente redondo.

Espero que aprecies esta carta, assim como a leitura indicada, e que voltemos a nos comunicar através dessa ferramenta magnífica que a tecnologia nos proporciona, um sítio acessível pela rede internacional de computadores.

Até breve, querida pessoa leitora

Sempre a seu dispor

Maiara Alvarez

Enéias Tavares é professor, escritor, tradutor e produtor transmídia. Trabalha na UFSM desde 2012, onde fundou o ORC Studio Laboratório de Economia Criativa. É doutor em letras e especialista nos livros iluminados de William Blake. Em 2014, publicou A lição de anatomia do temível Dr. Louison, primeiro volume da série de ficção retrofuturista Brasiliana Steampunk, romance ganhador do Prêmio Fantasy, da Casa da Palavra/LeYa. Continuou a série com Parthenon Místico, publicado pela Darkside em 2020, além de outros escritos focados em personagens da trama inicial. É também co-autor do romance A Alcova da Morte, ganhador dos prêmios LeBlanc (Melhor Romance Fantástico de 2017) e AGES (Melhor Romance Juvenil de 2017).

A lição de anatomia do temível Dr. Louison
Enéias Tavares
320 p.
Leya Brasil

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

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