Um pouco do todo revelado nas Crônicas do Cotidiano

Doze autoras escrevem sobre suas experiências durante o distanciamento social

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

A série de lives que reuniu o grupo oriundo da Oficina de Literatura de Jacira Fagundes encerrou-se no dia 26 de agosto com a apresentação da coletânea de textos Crônicas do Cotidiano. Compartilhadas mediante leituras seguidas de comentários, as crônicas abordaram diferentes formas de viver os momentos difíceis impostos pelo distanciamento social. Os textos podem ser acessados no site de Jacira Fagundes (link externo).

“Embora cada autora tenha revelado, de forma muito pessoal, seu olhar significativo sobre os acontecimentos vivenciados tanto internamente quanto externamente, o sincronismo entre os textos foi relevante. O que possibilitou organizar, a partir da seleção de pequenos trechos das crônicas individuais, um texto único, facilitador e coerente, porém, mantendo as individualidades”, explica Jacira.

Um pouco do todo revelado nas Crônicas do Cotidiano é o texto final que o grupo traz a público. O texto tem autoria de: Clotilde Grassi, Maurícia Mees, Luzia Camargo, Terezinha Lanzini, Magaly Fernandes, Tusnelda Marins, Dora Almeida, Berenice Güez, Regina Célia Campana, Ana Maria Bettini, Sônia Coppini e Rita Paldes Faria (convidada) e composição final de Jacira Fagundes. Confira abaixo.

Um pouco do todo revelado nas “Crônicas do cotidiano”

A epidemia surgiu trazendo consigo pavor, afetando minha calma e paciência. Me fez angustiada. Tomou conta do meu apartamento, do meu prédio e do Parque Marinha aqui em frente. Subiu até as nuvens, invadiu as galáxias, ultrapassou o buraco negro, seguiu rumo ao infinito e não mais arredou pé.

O tempo parou, esqueci a idade exata dos filhos, a minha (para o bem ou para o mal?), sem comemorações, sem abraços apertados, não sei quando vamos recomeçar a contar o tempo de novo. Me causa torpor andar em círculos, tipo cachorro perseguindo o próprio rabo.

Imagens de praias vazias e cenários interioranos fazem com que eu queira me libertar das amarras em que me encontro presa há quase dois anos. Não bastam meus próprios enredos, têm aqueles criados por outrem com a desculpa de proteção, mas que causam mais do que medo, causam pavor.

A visão de cenários idílicos me levam a querer fugir da minha prisão atual, mas logo minha imaginação se eleva em voos sobre o espaço, onde sou intocável.

Além do invisível, ainda temos o temor cada vez maior do ser visível chamado humano – nosso próximo. Estamos em constante vigília.

O tempo parou e não sei quando tudo isso vai passar. Aos poucos vou aprendendo a caminhar no mesmo lugar, dentro de um mesmo tempo, a cada dia um outro dia se repete.

Vivo nesta bolha de tempo que continua a se expandir e parece nunca chegar a hora de estourar para libertar a todos nós desta prisão chamada covid, que alterou o estado de saúde de tantos e de todos seres neste planeta.

Vive- se uma história de ficção científica além da realidade. Quando tudo acabar não quero lembrar estes dias cinzentos e de tanto pesar para a humanidade. Vou recuperar meu estado de espírito e recuperar esse tempo estagnado.

Estamos tão longe uns dos outros e, por incrível que pareça , nunca antes, tivemos tanta facilidade de estarmos  perto.

Tudo mudou. O tempo mudou. E o novo tempo é de não deixar nada para amanhã. Ainda não há comprovação científica que demonstre como o Coronavírus surgiu na espécie humana. Porém, sabemos, que é cruel e democrático e já levou muitos de nossos amigos, conhecidos e parentes. Isso no mundo todo. E o que fica de aprendizado para nós que não fomos contaminados?

Momento surrealista, meu filho me liga e diz:

— Mãe, o que vocês estão fazendo no Shopping?

E assim passei a viver em isolamento social. Primeiro o choque, a intranquilidade, a retomada de planos. Tudo com muita dificuldade.

Fui salva pelo artesanato, pela literatura, pela música e pela TV. Por incrível que pareça, a TV, que há muito tinha deixado de lado.

Penso que vivemos um mundo machadiano de seu conto “O Alienista”.

Reinventamo-nos e seguimos, agora com sonhos e projetos em curto prazo. A ceifeira está na nossa soleira, temos que ser cuidadosos. A casa, o lar é um universo infinito. Lançamos uma ponte aqui outra ali e, na maciota, vamos ganhando mundo.

Eu fiquei impactada. Não passo nem na frente de cemitério, o que dirá desejar ver a morte cara a cara? Procurei me distrair com o celular, mas chegavam até mim pedaços de conversa.

Entrei no apartamento, fui acendendo todas as luzes. No quarto, me atirei na cama, puxei o edredom macio como abraço de mãe, quando vi nitidamente recortado na janela aberta um vulto esbranquiçado, com os olhos do padre.

O grito foi ouvido em todo o meu andar, as pessoas começaram a bater na minha porta, mas eu não conseguia sair da cama, nem atinava abrir os olhos.

De mim, só tinha sobrado o medo ancestral de pular daqui para lá.

Alguns dias, no verão, o calor é tão sufocante que a cidade muda de nome, passa a chamar-se Forno Alegre, não há onde a gente se enfiar, diz a vizinha do andar de cima, reclama de tudo, até do sabiá que canta de madrugada, não vai reclamar do tempo, imagina, e ainda mais agora, só fala na morte de uma pessoa em São Paulo, de doença misteriosa que veio da China e está se espalhando rápido pelo mundo, bem capaz ,mas, pelo sim pelo não, uma viagem ao Nordeste viria a calhar, amenizaria o calor e, se houver mesmo a tal doença, pelo menos passeamos um pouco antes dela chegar; convido amiga que topa na hora.

Na data combinada, você está no compromisso de buscar alguém no aeroporto, trata-se do Salgado Filho, em Porto Alegre. A previsão de chegada do voo é às 14h13min.

Tudo certo até você ficar elaborando que pode ser que falte luz e o portão eletrônico da garagem não abra. É, não. Aí vai ser no manual.

Melhor se armar de caneta e papel.

Enquanto isso, nos bastidores da vida cotidiana, seguia uma população cuidadosa, e ensejosa de conseguir atingir seus objetivos, com ânsia de fazer o que se propôs esquecendo da morte, não negligenciando-a, mas sublimando-a, pensando na vida e tentando fazer dessa oportunidade, dessa estada aqui no planeta, o melhor possível. Tirando proveito , na medida do possível. com alegria.

Quando foi sugerido que as Olimpíadas acontecessem, houve muitas opiniões controversas, devido ao momento de alto contágio. Também pensei que não seria prudente deixar acontecer um evento de tal magnitude, onde estariam presentes representantes de vários países, gente de todo o canto do mundo.

Porém, e apesar disso, os jogos foram abertos.

Em tempos de pandemia e de isolamento social, percebi que virei uma daquelas vizinhas fofoqueiras. Que sabem de tudo da vida dos outros, escuta todos os ruídos da rua desde a transloucada catadora de latas berrando com sua neta às 6 horas da manhã, ao carteiro no seu horário habitual, as entregas de mercadorias, ao entra e sai de pessoas. A qualquer movimentação, seja de uma mosca, um beija-flor ou pássaro já estou com os ouvidos em riste a espreita de um acontecimento.

A pandemia nos fez isolados sem ter oportunidade de encontros fortuitos e de cumprimentos diários de bom dia, boa tarde ou boa noite. Ou seja, a morte mora ao lado, só não enxerga quem não quer ver!

Nestes dias de ficar mais em casa, tenho reparado nos defeitos dos outros. É feio, eu sei, mas inevitável.

Sempre ouço dizer que o mundo vai melhorar depois de tudo isso. Talvez alguns já tenham entendido que estamos no mesmo barco, mas se vamos mudar de direção para não bater de frente com o nosso derradeiro fim, tenho lá as minhas dúvidas. Para que eu ou você possamos nos planejar, a única pergunta que fica mesmo é:

Até quando a humanidade aguenta?

Tudo isso uma tristeza só, vacinas que agora temos, ainda que de modo precário mas nos trazem alguma esperança como diz a vizinha do andar de cima, não reclama mais de nada, que depois do horror duma pandemia o que vier vem bem, a gente aguenta, e coloca o som bem alto, nem reclamo, até gosto, e fico ouvindo Caetano, ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos, tempo, tempo, tempo, tempo.

Arrastando minha cruz ao lado de Cristo, sinto que é lançada luz ao meu caminho, com um “vamos lá”, que a coragem vem. Medindo forças, vou, porque cada dia preciso honrar minha existência, minha ainda latente maternidade, como o sol disputando com as nuvens, às vezes mais claro, outras vezes, sombra.

Me permito um pouco de poesia e, dizer que, esses dias frios, nos conduzem a uma espécie de recolhimento, de delicadezas. Delicadeza de falar mais baixo, de buscar aconchego, olhar álbuns de fotografias antigos, de ficar mais em casa. Neste dias frios, há um silêncio onde se escuta o barulho das casas, o silêncio lá fora sob a chuva, sob o frio, sendo ele o responsável  pela quietude dos dias.

Entregou-se inteiramente àquela tarde. À preguiça infinita da tarde. Começou insipiente pela manhã, mas com o passar das horas tudo foi se revolvendo, se tornando lento, já não fazia sentido a pressa.

Quando levantou, lembra ter olhado o relógio, afinal, conferir se valeria a pena sair do sonho para mergulhar na realidade.

O prazer de enxergar o tempo. E não aprisionar-se a ele. Nada a lavar. Apenas a alma querendo mergulhar de novo: da realidade para o sonho.

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Uma resposta para “Um pouco do todo revelado nas Crônicas do Cotidiano

  1. Realmente um privilégio participar da coletânea de crônicas da Jacira Fagundes. E a compilação de nossas crônicas, feita pela Jacira, ficou genial!!
    Muito obrigada!!

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