mariam pessah: O avesso do cânone

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de acervo pessoal

Como escrever sobre a raiva, a revolta, as tremendas consequências do racismo, sem gritar? No seu novo livro, Jeferson Tenório não levanta a voz, ele levanta as emoções. O autor fala baixo, continuo, ele completa todas as frases. Ao longo de 188 páginas vai contando peças da história, como se fossem um quebra-cabeça. Uma história não linear. Todas ao seu tempo e na segunda pessoa.

Ele é ciente que tem uma mensagem muito importante a passar.

Jeferson começou alto. Seu primeiro livro, O beijo na parede, já trazia o diálogo entre personagens que vinham de Rio de Janeiro morar em Porto Alegre. Pessoas negras. Uma família pobre que usava um livro como apoio de mesa. E continuou com Estela sem deus, seu segundo livro, em um caminho que incomoda ― a certos cânones e canônicos ―, numa busca do sentido da vida. Neste, ele falava em saber administrar a tristeza; agora, n’O avesso da pele, ele vai falar em domar a tristeza e aceitar conviver com ela. E o livro, agora, estará embaixo do braço do professor negro, na sua pasta, na sala de aula. No amor à leitura.

Jeferson nos traz mais uma vez aquele velho interrogante que se pergunta se o/a escritor/a narra o mesmo livro ao longo da sua vida.

Se é assim, eu não sei, mas o que posso dizer a vocês é que O avesso da pele é um estrondo, um Livro maiúsculo, um acontecimento para ler e reler e dar de presente. Uma obra que dividirá as águas entre as amizades que leram e gostaram, daquelas “indiferentes”. (Nesta sociedade, entenderemos muito bem, essas “indiferentes”, em quem votam e porquê.)

Nota-se um crescimento forte do autor que sempre colocou o racismo e suas agruras nos seus livros, mas agora ele vai mais longe, mais fundo, sem perder a ternura jamais.

O avesso da pele é um arrepio, um livro necessário. Fico sonhando em comprar cem, mil livros e sair distribuindo-os junto com Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, entre tantos outros. Precisamos muito conhecer o outro lado, o lado que nos foi ocultado, minimizado, distorcido. Precisamos, como leitoras e leitores, conhecer o avesso do cânone e entender a literatura brasileira em sua completude.

*mariam pessah : escritora, poeta e tradutora, autora do Grito de mar e organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre. Coordena a Oficina de escrita e criatividade feminiSta.

O avesso da pele
Jeferson Tenório
192 p.
R$ 59,90
Companhia das Letras
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