Deivison Campos: Meus amigos patronos!

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre fotos de Diego Lopes, Vitor Diel

“Foram encontros de vida que uniram o jornalismo, o antirracismo, o ensino e a Literatura

Aproxima-se a temporada de feiras do livro e, de alguma forma, o anúncio dos patronos me fez lembrar que mesmo sem produzir Literatura sempre estive próximo a essas pessoas nas coisas que eu faço, nas áreas em que atuo. Pessoas que fazem literatura. Pessoas que vivem a literatura. Num tempo em que todos imaginam fazer tudo, é certo que ninguém faz; melhor, poucos fazem bem. Felizmente foi com alguns desses que tive e tenho o prazer de conviver, ou ao menos compartilhar alguns momentos. Quanto aos patronos, Fabrício, Lilian e Maurício, conheci todos através das atividades para as quais dedico muito de minha vida.

Há alguns anos, tenho definido minha experiência como uma vida de “muitas oportunidades e poucas escolhas”. Talvez isso possa ser chamado de sorte, mas não tenho certeza de que ela exista. No entanto, sorte não é algo sobre o que pretendo falar, mas sim sobre a oportunidade de conhecer pessoas e de querer estar em comum com elas. Foi isso que me possibilitou compartilhar com Oliveira Silveira, Eliane Brum, Carlos Moore e claro com os patronos Fabrício Carpinejar, Lilian Rocha e Luiz Maurício Azevedo, respectivamente em Porto Alegre, Canoas e Osório, mas isso vocês sabem. Foram encontros de vida que uniram o jornalismo, o antirracismo, o ensino e a Literatura.

Conheci o Carpinejar pelo jornalismo entre o lançamento de seus primeiros livros As solas do sol (1998) e Um terno de pássaros ao sul (2000). Na época, a Unisinos estava mudando seus processos de comunicação e montou uma nova equipe de assessoria e entre os contratados estávamos eu e o Fabrício. Eu não o conhecia à época, mas tínhamos uma amiga em comum que até já havia comentado sobre o escritor de São Leopoldo. Carpinejar ainda usava roupa social naquela época sua escrita tinha interesses menos mundanos – não que isso tenha mudado sua escrita, somente os interesses mesmo. Aliás, nos últimos anos sua faceta de comunicador tem ganho mais visibilidade, apesar de sua escrita seguir primorosa e ele já não se vestir da mesma forma. Aliás, deve disputar com suas camisas florais a atenção com os ipês da praça.

Lilian surgiu na aproximação com o Sopapo Poético. Conhecia a Associação Negra de Cultura, surgida de articulações do Oliveira, e a Cristina, presidente da associação a qual o Sopapo está vinculado. No entanto, por questões profissionais, demorei a conhecer o sarau. Já havia encontrado Lilian em outras ocasiões, mas foi lá que a ouvi dizer sua poesia e entendi a potência de sua performance. Sua arte, portanto, favorece a experiência e liga-se ao universo dos Saraus. Por isso, quando os slams tomaram as ruas de Porto Alegre, ela já era referência daqueles meninos e meninas que concorriam de forma colaborativa com suas poesias. A forma como lhe olham entregam a admiração por Lilian, cuja identidade secreta é Lilian Rocha, a farmacêutica. A poeta carrega em si um africanismo visível que é o comunitarismo. Sua obra tem a característica da coletividade. Se você ainda não fruiu sua performance, Canoas será uma boa oportunidade.

Canoas indiretamente também me oportunizou conhecer Luiz Maurício. Foi lá na Ulbra que lecionei para nosso editor Vitor Diel no curso de jornalismo. Mantivemos contato depois de sua formatura e num dia em que nos encontramos na Praça Marechal Deodoro, a praça dos três poderes em Porto Alegre, ele disse que eu precisava conhecer o Maurício. Acabei por conhecer aquele escritor que era professor e pesquisador de Literatura. Foi um encontro surpreendente e bastante frutífero. Compartilhamos a educação, o vigor antirracista e o amor aos livros. Costumo dizer para todo mundo, quando surge a oportunidade, que tenho editor e editora, só não tenho o livro. Há anos ele me chama nas redes, ou whats para dizer que estou atrasado com o texto. Talvez passe o tempo e eu frustre sua expectativa. Talvez com o tempo, ele me convença. Sua escrita e posicionamento são sempre provocativos, mesmo quando passamos algum tempo discutindo sobre a centralidade do marxismo, ou não, no embate antirracista. A feira de Osório terá a possibilidade de experimentar sua verve crítica.

Prevejo um circuito esplêndido de feiras. A possibilidade de voltar a circular entre os livros emoldurada pelo patronato dessas pessoas faz querem viver todos esses momentos. Tudo isso para dizer que a Literatura estabelece laços indizíveis e improváveis mesmo entre fazeres diversos, como jornalismo, educação e antirracismo – mesmo que estejam numa pessoa. O mundo fica mais complexo e mais uno com a escrita. Sempre constrói a possibilidade de estarmos em comum. Feliz com meus amigos patronos. Feliz em ver as feiras entendendo a importância de serem diversas depois de um conjunto de movimentos negros. Que seja permanência.

* O título é inspirado no documentário de Joel Zito Meu amigo Fela (2019), baseado na biografia Fela, esta vida puta (BH, Nandayala: 2011) escrita por Carlos Moore. Meu amigo Moore não é patrono, mas é um monumento da diáspora negra.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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