De peixes estranhos: entrevista com Leonardo Brasiliense

“Meu palpite é que a Literatura sirva para experimentarmos conflitos alheios e assim aprendermos ou adquirirmos ferramentas para lidar melhor com os nossos próprios”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre foto de Marcelo Brum

Desilusão amorosa, incomunicabilidade, individualismo e narcisismo. Estes são alguns dos temas pelos quais o romance Peixe estranho atravessa em suas 120 páginas. Mais recente livro de Leonardo Brasiliense, a obra é uma publicação da Companhia das Letras e vem agregar ao excelente currículo construído pelo autor de São Gabriel que coleciona prêmios como Jabuti, Açorianos, Minuano e AGES, além de indicações como finalista e de seleções para o PNBE. Nesta entrevista exclusiva, o autor analisa e aprofunda alguns aspectos de seu livro e escolhas narrativas. Confira abaixo!

Peixe estranho permite ser lido tanto como uma comédia, pelo ridículo do relacionamento do protagonista com a boneca Analice, quanto como uma tragédia, quando percebemos a sofrida incapacidade de comunicação e entrega de Marvin. Esse duplo efeito foi premeditado?
Eu diria que isso é inerente à cena: plasticamente ridícula de se ver e ao mesmo tempo triste se pensarmos nas razões de alguém viver com uma boneca. Acho difícil separar um aspecto do outro.

Marvin é um sujeito inseguro, narcisista e com tendências à misantropia. Tipos como este surgem a todo momento na literatura, como em Jean-Paul Sarte, mais especificamente no conto Eróstrato, e no romance O Grifo de Abdera, de Lourenço Mutarelli, para ficar em apenas dois exemplos. Por que a recorrência deste tema?
Porque gente exemplar rende biografias, não romances. É estranho falar da própria obra depois de publicada (ela passa a ser mais do leitor do que nossa), mas confesso que a misantropia não foi meu foco. Quando me cocei a trabalhar com a ideia da boneca de silicone (ao ler uma matéria sobre um inglês divorciado que vivia maritalmente com uma dessas), o argumento veio em alguns dias (provavelmente não foi o primeiro, não lembro): sujeito se divorcia duas vezes porque é ciumento demais, porém insiste no amor, e espera resolver o problema se casando com uma boneca de silicone. Então retomei minhas referências literárias do tema: Medéia (Eurípedes), Otelo (Shakespeare) e Dom Casmurro (Machado de Assis).

O que Peixe estranho nos diz sobre o homem heterossexual contemporâneo?
Talvez o texto possa nos dizer algo sobre isso, mas eu não sei, não sou sociólogo. Da minha parte, só garanto que Peixe estranho nos diga algo sobre Marvin (e Analice). Na lógica do romance, o personagem bem poderia ser homossexual (ou uma mulher) e ter comprado um boneco masculino. Como disse antes, o texto agora é do leitor.

As ex-esposas do protagonista são identificadas como “a primeira ex” e “a segunda ex”; a empregada Judith tem sua individualidade percebida de forma difusa por Marvin — evidências de uma visão utilitarista que o personagem alimenta pelas mulheres. Por que isso ocorre?
Poucos personagens são nomeados no livro além do casal protagonista (me lembro de Stephen Malbus, o funcionário da fábrica de bonecas; dona Judith, a faxineira; Nina, a dona do restaurante; e Analice, a menina; o resto fica assim: “meu amigo da faculdade”, “o dono do miniestaleiro”, “o ceguinho”, “o garçom menor de idade”, “o vendedor de milho verde” etc.), e as esposas são numeradas em vez de nomeadas para realçar a recorrência do problema. É uma visão utilitarista do autor para não confundir o leitor, o personagem não tem culpa.

Como foi realizada a pesquisa sobre a indústria e o mercado de bonecas realistas de silicone?
Li muitas reportagens sobre pessoas que vivem com bonecas, visitei sites de fabricantes (especialmente o da Real Doll, minha referência), assisti a um documentário no YouTube (Sexo de silicona – Cuando los hombres aman a las muñecas, da DW Documental) e dois filmes de ficção: Lars and the Real Girl (Craig Gillespie) e Her (Spike Jonze). Comprar uma não era possível, porque em 2015, quando comecei a pesquisa, elas já eram muito caras, e ter uma em casa talvez assustasse as crianças. Lá por 2018, eu acho, meu primo Luiz Antonio de Assis Brasil (o projeto de Peixe estranho começou numa oficina dele) me mandou links de matérias sobre novos modelos que já falavam, e também por essa época estavam começando a fazer as primeiras com Inteligência Artificial; ele me sugeriu “atualizar” o projeto, mas depois de refletir bastante, decidi datar a história, já que a mudez de Analice era essencial para minha narrativa.

Fale-nos de seus dois livros anteriores, Eu vou matar Maximilian Sheldon, publicado em 2019 pela Editora Coralina, e Roupas sujas, de 2017, pela Companhia das Letras.
O Maximillian foi um pedido do meu amigo Cláudio B. Carlos, que estava iniciando uma editora e queria um nome semifamoso para impulsionar o negócio (não vi ele nem o sócio comprando BMW depois disso), e por acaso eu tinha mesmo um livro de contos inacabado na gaveta. São dez contos que “falam de tudo e de nada ao mesmo tempo”; eles têm mesmo uma unidade temática bem frouxa no conjunto, ou sutil: os personagens são heróis anônimos, protagonistas de nada além do que os filmes de suas próprias vidas. Escrever conto dá um prazer diferente de escrever romance, sem falar que no mesmo período de três ou quatro anos eu posso conviver com mais personagens e as situações em que eles se metem. Já o Roupas sujas é um romance de tragédia familiar, uma bela história de (falta de) superação, de moto-contínuo desastroso. A história se passa, na sua maior parte, no final dos anos 1970, mas avança até o início da década de 2000. Colonos, descendentes de imigrantes italianos, vida rude, muito trabalho, muita rigidez nos costumes, pouco diálogo. Bem diferente de hoje em dia, quando nos sobra mais tempo, somos mais descolados… mas continuamos não conversando porque passamos com a cara grudada num smartphone (enfim o sociólogo amador sai do armário).

O que um escritor precisa para escrever?
Convivência real com gente de carne e osso para ter material consistente, solidão e café para trabalhar focado e, de preferência, um computador.

Quais autores e autoras são os seus preferidos e quais livros você recomenda?
Meu palpite é que a Literatura sirva para experimentarmos conflitos alheios e assim aprendermos ou adquirirmos ferramentas para lidar melhor com os nossos próprios. No meu gosto, são atraentes autores que tratam de realidades mais distantes de mim, que tenham pouco a ver comigo no cotidiano; assim fica mais evidente o vínculo inarredável que temos, todos nós, só pelo fato de compartilharmos a mesma sina de sermos humanos. Gosto muito do Bukowski com aqueles personagens desajustados…

Peixe estranho
Leonardo Brasiliense
120 p.
R$ 69,90
Companhia das Letras
Compre aqui (link externo)

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