Guilherme Smee: Orgulho na representação e na representatividade transexual nos quadrinhos

“Laerte também apresentou essa nova realidade que passou a viver quando seu alter-ego nas tirinhas que produz, Hugo, passou a se chamar Muriel, refletindo a transição da autora

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Tenho defendido o uso da expressão “queer” em meus artigos acadêmicos e informais sobre o assunto. Queer, além de ressignificar um termo pejorativo do inglês que significaria estranho ou esquisito, ainda simboliza uma aliança dessas sexualidades dissidentes, como defende a filósofa do gênero Judith Butler em seu livro Corpos em Aliança. Também não existe uma palavra no léxico da língua portuguesa que tenha o mesmo sentido que queer, por isso, alguns estudiosos e defensores do termo na América Latina prezam pelo uso do termo “cuir”, que além da sonoridade semelhante, ainda se inicia com a sílaba da palavra monossílaba transgressora, “cu”.

A expressão queer também acaba por não destacar nenhuma letra ou facção do movimento. Quando a sigla LGBT era popular e politicamente correta, a letra “T”, referente a transexuais, era a mais apagada de toda representação e de toda a representatividade da “sopa de letras” que acabou se tornando a sigla para sexualidades dissidentes.

Na minha opinião, as pessoas incluídas na letra “T”, da sigla, são as mais desprivilegiadas na sociedade, dentro do espectro queer. O ostracismo das travestis as fez serem incluídas nos maiores índices de violências e assassinatos cometidos contra mulheres e pessoas queer. As fez desenvolverem uma cultura própria e ainda mais, uma linguagem única como o pajubá, para sua sobrevivência nas ruas, promovendo sua defesa contra clientes, policiais e outras violências cotidianas.

Por sua vez, a transexualidade por anos foi encarada como transexualismo, uma patologia constante do CID e somente na virada do milênio foi aceita como uma condição que faz parte da existência humana e de uma sociedade generificada. As transformistas, as drag queens, os intersexuais, como no caso notório de Roberta Close, fizeram somente nublar ainda mais o que a opinião pública e o imaginário popular sabia sobre as pessoas trans. Transformistas, drag queens e intersexuais não são, necessariamente, pessoas transexuais. Mais apagados da existência são os homens trans, homens que nasceram com órgãos genitais femininos, mas que passaram por uma transição de gênero para se configurarem e sentirem-se mais à vontade, performando o gênero masculino.

Se a transexualidade é invisibilizada na memória coletiva e execrada no imaginário popular, como poderiam exigir para este tipo de identidade movimentos de representação nas mídias ou de representatividade enquanto produtores de conteúdo cultural? Vale ressaltar que a representação se refere a como uma identidade é mostrada na mídia, na cultura, na política, na sociedade em geral. Já a representatividade diz respeito ao movimento desenvolvido por pessoas em prol de uma maior visibilidade na mídia, na cultura, na política e na sociedade. Enquanto o primeiro termo abrange sobre produtos culturais, o segundo aborda atores sociais.

Toda essa explicação era necessária para conduzir o leitor desta coluna até o assunto principal: a representação e a representatividade de pessoas trans nas histórias em quadrinhos, este último tema-coração deste espaço. Começo dizendo que não é minha intenção traçar uma genealogia da identidade transexual nas histórias em quadrinhos, ou seja, demonstrar como essas produções surgiram e contar sua história, mas sim, destacar alguns movimentos. Primeiro falarei rapidamente sobre representação e depois, sobre representatividade.

Nas histórias em quadrinhos de super-heróis da Era de Ouro, ou seja, anteriores ao desfecho da Segunda Guerra Mundial, havia alguns personagens que performaram gêneros diferentes dos com os quais nasceram. Madame Fatal era um homem disfarçado de uma mulher idosa que assaltava bancos e cometia outros pequenos crimes. Já o Tornado Vermelho era a dona de casa Ma Hunkel, que com um pijama e um balde na cabeça atuava como um super-herói e ainda foi integrante da Sociedade da Justiça da América, a Liga da Justiça da Era de Ouro. Nessas produções, enquanto performar o gênero feminino estava associado à vilania, a performatividade do gênero masculino transformava uma “simples” dona de casa com excesso de peso em um viçoso e potente super-herói masculino.

Mesmo assim, no decorrer da história dos quadrinhos de super-heróis estadunidenses, toda vez que um personagem transicionava seu gênero não o fazia de forma definitiva, podia alterar esta característica a seu bel-prazer, sempre através de elementos fantásticos. Era o caso de Nuvem, na década de 1980 e de Xavin, nos anos 2000, ambos na Marvel. Foi o selo adulto da DC Comics, o Vertigo que trouxe as primeiras super-heroínas trans dos quadrinhos: Coagula e Lord Fanny. Coagula era uma mulher trans, participante da equipe Patrulha do Destino e foi criada por Rachel Pollack, umas das primeiras escritoras trans dos quadrinhos, que também é uma famosa taróloga. Já Lord Fanny foi criada pelo roteirista bissexual Grant Morrison em Os Invisíveis. Fanny é uma travesti brasileira criada no México e que tem poderes xamânicos. Assim, personagens trans estavam relegadas a um selo de “histórias maduras” de super-heróis e assemelhados.

Já na década de 2010 o mercado das histórias em quadrinhos de super-heróis se abriu para a representação e para a representatividade trans. Alisa Yeoh, mulher trans, colega de quarto da Batgirl, foi criada em 2013. Madeleine Visaggio, Lilah Sturges e as Irmãs Wachowski, criadoras do mega sucesso Matrix foram algumas autoras trans que despontaram nesta época ao trabalhar com quadrinhos nos Estados Unidos. Mais recentemente, em 2022, a personagem Sonhadora, personagens trans interpretada pela atriz trans Nicolle Maines na série Supergirl, ganhou sua versão para os quadrinhos após o sucesso na televisão.

No livro E se estivermos errados? de Chuck Klosterman, o autor faz um panorama sobre a presença trans na cultura pop: “Em 1999, era quase impossível de se encontrar um exemplo de pessoa trans na cultura popular; em 2014, uma série de TV dedicada exclusivamente a esta ideia venceu o Globo de Ouro de melhor série da televisão. Nesse espaço de 15 anos, não houve nenhum aspecto da civilização internacional que tenha mudado mais” (KLOSTERMAN, 2017, p. 38).

No Brasil, este cenário também vem mudando, mas se formos analisar anteriormente a presença da representação de pessoas transexuais em quadrinhos produzidos em nosso país, só poderíamos encontrá-las, assim como qualquer outra sexualidade dissidente, em publicações voltadas para o humor ou para o pornográfico. Muitas publicações dos anos 1980, onde este tipo de representação começou a se tornar presente, costumavam confundir os termos ao se referirem a pessoas trans, transformistas, drag queens ou a travestis como “gays”. Ou seja, toda sexualidade dissidente era etiquetada neste tipo de publicação como “gay”.

Contudo, uma grande quebra de paradigma nos quadrinhos brasileiros aconteceu em 2010, quando a premiada cartunista Laerte se assumiu como uma mulher trans e passou a militar pela diversidade de gêneros. Laerte também apresentou essa nova realidade que passou a viver quando seu alter-ego nas tirinhas que produz, Hugo, passou a se chamar Muriel, refletindo a transição da autora. Outros grandes nomes brasileiros surgiram a partir da década de 2010 no cenário trans dos quadrinhos como Luiza Lemos, produtora das tiras Transistorizada, em que apresenta de forma autobiográfica recortes de sua vida em que seu gênero é questionado; Alice Pereira, criadora da graphic novel Pequenas Felicidades Trans, traz a história de sua transição em quadrinhos, bem como situações em que sofreu preconceito por ser uma mulher trans; Ellie Irineu desenvolveu e organizou a coletânea Histórias Quentinhas Sobre Sair do Armário e organizou ao lado de Gabriela Borges e este colunista a antologia Quadrinhos Queer, que traz um panorama das produções queer no Brasil contemporâneo; por último, mas não menos importante, temos Lino Arruda, homem trans que contou em fanzines e na publicação autobiográfica Monstrans: Experimentando Horrormônios seu processo de transição, entre outros causos da vida de um homem trans. O projeto foi contemplado pelo programa RUMOS, do Itaú Cultural e foi vencedor do prêmio MIXLiterário de 2021.

Como coloquei anteriormente, os nomes citados aqui, no Brasil e nos Estados Unidos, são apenas parte do cenário de quadrinistas trans que tem se intensificado e se incrementado. Recentemente, por exemplo, a Editora Skript trouxe ao Brasil a graphic novel Minha Adolescência Trans, com a história autobiográfica da mulher trans que se nomeia como Fumetti Brutti. Existe um panorama de histórias sobre e criadas a partir de pessoas trans que merece ser conhecido pelo público em geral e em particular pelas pessoas que se identificam com uma sexualidade dissidente da norma hegemônica.

No livro de Klosterman há uma reflexão interessante sobre a transexualidade aliada ao filme Matrix, das irmãs Wachowski, talvez as pessoas trans mais conhecidas da cultura pop. Vale lembrar que a analogia às pílulas de Matrix vem sendo apropriada por grupos masculinistas tóxicos em diversos canais da internet, em um espaço que ficou conhecido como a “manosphere”. Klosterman nos leva a questionar como Matrix poderá ser lembrado nas décadas que se seguirão:

“Em alguma realidade distante, historiadores do cinema vão reinvestigar um filme de ação extremamente comercial que foi dirigido por duas pessoas que (sem o conhecimento do público) eram mulheres trans. De repente, o significado simbólico de um universo com dois mundos – um falso e construído, o outro genuíno e oculto – assume um significado totalmente distinto. A ideia de um personagem que tem de escolher entre uma pílula azul que lhe possibilita continuar sendo um peso morto falso e uma pílula vermelha que lhe obriga a confrontar quem ele de fato é torna-se uma metáfora bem distinta. Pensando desse ponto de vista, Matrix pode ser outro tipo de avanço. Poderia parecer mais reflexivo do que divertido, o motivo exato porque algumas coisas são lembradas e outras se perdem” (KLOSTERMAN, 2017, p. 39).

Assim, a partir das acepções que as pílulas de Matrix nos trazem, podemos entender que a associação do sexo biológico com a construção cultural do gênero pode ser pensada como o gênero é uma amarra social que causa sofrimento nas pessoas. Podemos entender a que ponto a maioria das pessoas precisam se fixar em algo dado antes de seu nascimento, por pessoas que ninguém sabe quem são, para apontar o que é normativamente dado como certo ou como errado. Enquanto isso, um sentido genuíno e oculto de ser quem realmente é, sem se importar com o sexo com que nasceu, acaba enterrado sob camadas de significados artificiais. Essas camadas nada significam além de uma mordaça para pessoas que nasceram em um corpo que não tem nada a ver com seus sentimentos ou seu modo de ser e de se expressar. Que estas reflexões, estes exemplos de representação e representatividade ajude a mais pessoas romperem a mordaça do sexo e do gênero com que nasceram e passem a viver de forma mais autêntica e livre consigo mesmas e com as pessoas que realmente importam.

Leia mais em:
KLOSTERMAN, Chuck. E se estivermos errados? Pensando no presente como se fosse o passado. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2017.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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