Priscila Ferraz Pasko: Sobre abraçar buracos negros e ondas do mar

Sou fascinada pelos caminhos do processo artístico, as pegadas estudadas pela crítica genética, sobretudo de artistas mulheres

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

Uma imagem divulgada pela Nasa, na primeira quinzena de maio deste ano, animou curiosos e entusiastas da astronomia pelo mundo todo. Uma foto inédita de Sagitário A* — um buraco negro supermassivo acomodado no centro da Via Láctea — foi divulgada por astrônomos. Entrevistas com especialistas e reportagens reacenderam uma série de especulações sobre o objeto cósmico, registrado graças a um consórcio internacional de cientistas. Entre Sagitário A* e nós aqui na Terra, um pouco mais de 26 mil anos-luz de distância. 

Ao evento foram incorporadas reflexões que já orbitavam o meu pensamento em relação ao  processo criativo. Na minha lógica íntima, tudo converge. Isso porque dias antes a filósofa e professora de História da Arte Anelise Valls fez uma rápida provocação no seu perfil em uma rede social. Entre questionamentos sobre trabalhos artísticos autoprotegidos e insatisfações necessárias a este processo, uma das observações me cutucou: “uma arte sem buraco não vale muita coisa”. A professora falava de um contexto específico, fique claro, mas tomei a liberdade de me apropriar de uma perspectiva.

Me vejo em duas pontas: na de escritora, que responde a questões de como se dá o percurso da escrita, e na de jornalista, que indaga os bastidores do fazer artístico em suas mais diversas expressões. Ao contrário do que se possa supor, atesto, pelo menos pessoalmente, que o intercâmbio não facilita muito as coisas.

Como fruidores da literatura e da arte, é bastante aceitável que se tenha interesse em compreender os meandros de uma produção — tanto para o público geral, quanto para o sistema das artes. Há muito trabalho, pesquisa, rejeição ou filiação a escolas, estilos, conceitos, influência/referência, escolha dos suportes/técnica/gêneros, diálogos, muito estudo e dedicação. É aconselhável, para não dizer fundamental, que a/o artista se aproprie do exercício artístico, traga a objetividade para próximo de si

Ou seja, a razão está deveras presente. Ocorre que esta constatação pode frustrar aqueles que alimentam uma aura misteriosa aos artistas. Como aponta a linguista Cecília Almeida Salles ao falar sobre crítica genética no livro O gesto inacabado, explicações simplistas podem transformar o labirinto em uma trajetória linear. No entanto, Salles complementa, dizendo que “nem tudo é sempre passível de se reduzir a fórmulas de alquimia, à combinação aritmética de ingredientes que asseguram a receita justa”. O momento ímpar da criação, ou mais de um, muitas vezes, não pode ser capturado, compreendido ou explicado. E que bom. 

Em torno dos buracos negros, há um limite denominado horizonte de eventos, considerado um ponto de não-retorno à extrema gravidade, uma fronteira; depois de certo ponto, nada se sabe sobre ele, exceto a chamada singularidade, lá – seja lá onde “lá” for – as leis da física perdem sentido. De certa forma, e em certo grau, este fenômeno se assemelha ao processo artístico no que diz respeito àquela parte que escapa ao artista. Às vezes, não há respostas; por vezes, há falhas, equívocos nunca identificados que passaram a fazer parte da criação.

Em uma entrevista, a escritora norte-americana Toni Morrison (1931-2019) comenta sobre o estilo adotado em seu livro Jazz (1992). Diz ela que não se deve gratificar a escrita em excesso, “não se deve saciar. Sempre achei que aquela peculiar sensação de fome ao término de uma obra de arte — um anseio por mais — é realmente muito, muito poderosa”. Algo semelhante diz o crítico de jazz, romancista, ensaísta e biógrafo Albert Murrey (1916-2013) sobre aqueles que queriam estabelecer regras ao jazz em dado período no contexto norte-americano: “você não pode abraçar a entropia, o caos. É como querer abraçar as ondas do mar.”

Sou fascinada pelos caminhos do processo artístico, as pegadas estudadas pela crítica genética, sobretudo de artistas mulheres. É fascinante tomar conhecimento de todas as outras obras que aquela resultante deixou de ser no meio do caminho: a mutação, os esboços, o acaso, o vacilo, os pensamentos que rondaram a/o artista durante a criação. Deste lado, sigo tentando abraçar as ondas, não como um propósito, mas ciente da impossibilidade. Como escritora e como artista, me balizo na técnica, no exercício, no suor, no estudo, na frustração, no erro, no esforço de registrar o buraco negro que faz parte da criação, porém, sem me inconformar com a singularidade que me habita aqui, seja lá onde o “aqui” for.

Priscila Ferraz Pasko (1983 – Porto Alegre) é escritora, jornalista freelancer na área cultural e graduanda em História da Arte (Ufrgs) . É autora do livro de contos “Solo rachado por dentro” (Figura de Linguagem, prelo), “Como se mata uma ilha” (Zouk, 2019) – Prêmio Açorianos 2020 na categoria conto. Também integra a coletânea “Novas contistas da literatura brasileira” (Zouk, 2018). Paralelamente, Priscila se dedica à dança contemporânea e a experimentos em videodança. Se interessa ainda por artes visuais, pelo processo criativo/vivência de artistas mulheres e sonhos. Divide o teto com os seus dois gatos, a Pemba e o Arruda.

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s