Guilherme Smee: Neil Gaiman, Sandman e a virada literária nos comics

“Uma virada, em termos acadêmicos, acontece na sociedade quando a maioria das pessoas passa a assumir um novo paradigma na forma como vê ou analisa um objeto”

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Quadrinhos não são literatura, como já expliquei na minha coluna de estreia aqui no Literatura RS, mas eles podem conter literatura, assim como podem trazer elementos de outras artes, como música, artes plásticas, artes cênicas, cinema, e assim por diante. No mês de agosto de 2022 estreia a primeira versão live-action de uma das melhores séries em quadrinhos já publicada em língua inglesa: Sandman. Publicada em 1989 pela DC Comics, a mesma editora de Superman, Batman e Mulher-Maravilha, a ideia original era revitalizar um super-herói homônimo, Sandman, que era publicado pela editora durante a Segunda Guerra Mundial. Para esta tarefa foi incumbido Neil Gaiman, um escritor de Londres, que também passou a fazer parte da chamada Invasão Britânica dos quadrinhos de super-heróis.

Embora mais comumente o termo Invasão Britânica se refira a um fenômeno dos anos 1960, ocorrido principalmente na música, com Os Beatles e outras bandas de rock, que tiveram grande influência nos Estados Unidos, existe o uso deste termo para os quadrinhos da década de 1980. A Invasão Britânica dos quadrinhos foi levada para os Estados Unidos por editores como Karen Berger e Dick Giordano, da DC Comics, para que os escritores contratados trabalhassem conceitos de personagens esquecidos ou novas criações. Começando por Alan Moore, que viria a criar Watchmen e já estava desenvolvendo V de Vingança, que ficou responsável por revitalizar o Monstro do Pântano. Gaiman foi um dos escritores indicados por Moore, que a princípio desenvolveu a minissérie da Orquídea Negra. Outros nomes da Invasão Britânica são Grant Morrison, Jamie Delano e Peter Milligan. Mais tarde se juntaram a eles Warren Ellis e Garth Ennis, este último responsável pelas séries em quadrinhos Preacher e The Boys, que também foram adaptadas para o live-action.

Algumas das marcas de estilo da geração da Invasão Britânica em comparação com seus pares estadunidenses é o uso de personagens mais cínicos e desiludidos, bem como do humor negro e ácido. Mas outra característica que chamou atenção de cara tanto aos leitores como aos críticos de quadrinhos foi a literariedade que estes roteiristas emprestavam aos seus trabalhos. Os britânicos tinham uma maior sensibilidade à linguagem própria dos quadrinhos, mas também à prosa. Douglas Wolk fez uma comparação entre roteiristas estadunidenses e britânicos afirmando que os primeiros eram “contadores de histórias ousados, porém medíocres manipuladores de palavras”, uma vez que os diálogos contidos em suas histórias eram dirigidos pelas ações da trama. Os representantes da Invasão Britânica, diferentemente de seus pares dos Estados Unidos, pareciam, ao público e à crítica, totalmente em comando de seus estilos. Essa possibilidade de identificar o texto de um roteirista em específico, através de suas marcas de estilo, criou uma espécie de “culto ao autor” nos quadrinhos, principalmente voltada para o aspecto do texto, a partir dos anos 1980. Outra coisa que diferenciava essa geração de roteiristas era a sua desconfiança e até falta de empolgação com os quadrinhos de super-heróis, trazendo outras referências de outras artes para dentro da indústria dos comics. Uma honrosa exceção é Grant Morrison que até atualmente escreve roteiros para a DC Comics com a mesma empolgação sobre esses fenômenos da cultura pop como nos anos 1980. 

Neil Gaiman foi um dos grandes representantes dessa Invasão Britânica e foi sobre sua popularidade com a série Sandman que acabou construindo toda sua carreira literária. Seus livros Deuses Americanos e Belas Maldições também já foram adaptados para o live-action. Gaiman é um escritor inglês filho de pais judeus cientologistas. Ele não cursou faculdade mas começou a carreira como jornalista tendo escrito livros informativos sobre a banda Duran Duran e sobre o livro O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. Começou nos quadrinhos com sua aproximação a outro escritor inglês, Alan Moore, que o ensinou a fazer roteiros de quadrinhos. Sua estreia nos comics foi uma pequena história do Monstro Pântano, que acabou saindo no encadernado Dias da Meia-Noite. De lá pra cá ele trabalhou em Miracleman, Orquídea Negra, Livros da Magia, 1602, Eternos e, claro, a sua maior criação e contribuição para a história dos quadrinhos, a série Sandman, em que narra as aventuras da encarnação do Sonho e sua família, os Perpétuos.

Sandman acabou se tornando mais que um nome para Lorde Morpheus, o Sonho, passou a ser uma marca guarda-chuva para vários tipos de histórias em quadrinhos fantásticas que, se por um lado poderiam servir de laboratório para Gaiman e seus colaboradores, por outro lado nada tinham de experimentais e sim, tinham uma carga de literariedade que estava ausente em outras séries em quadrinhos. Foi nessa série que Gaiman homenageou descaradamente o bardo William Shakespeare, colocando-o como um dos personagens da história Sonhos de Uma Noite de Verão, em que uma trupe teatral vai encenar a peça homônima, mas que acaba sendo substituída pelos próprios personagens do reino de faerie, como a rainha Titânia e o rei Oberon. Essa história ganhou o prêmio World Fantasy Awards, o primeiro e único dado a uma história em quadrinhos. Também, nos últimos números da série Sandman, Gaiman volta a homenagear sem rodeios Shakespeare, desta vez, fazendo a sua versão da peça A Tempestade.

Talvez a influência mais flagrante de Shakespeare sobre Gaiman sejam as frases “mundo cão” que ambos escrevem, retratando o lado agridoce da vida. São frases que agradam por mostrarem de forma contundente, porém simpática e por vezes irônica como funciona esse mecanismo chamado humanidade. O crítico Clay Smith fala o seguinte sobre a influência de William Shakespeare sobre Neil Gaiman: “Enquanto tal manipulação permanece relativamente escondida, a mão da autoria(dade) de Neil Gaiman aparece mais explicitamente através de grande parte de seu trabalho na forma de citações, comentários, paratextualidade – em menor parte, por meio de sua incorporação atributiva do corpo de outros trabalhos dentro do corpo do seu próprio trabalho. (…) A despeito de sua presença em formatos aparentemente diferentes (graphic novels, entrevistas, e webpages), essa referencialidade (re) articula a mesma mensagem: Gaiman é o vortex (uma de suas imagens recorrentes) do qual sua narrativa única transpira e da qual a maioria dos leitor não pode (não quer) escapar”.

Em diversas oficinas literárias é ensinado que tudo que não for usado em favor da história deve ser cortado. Coisas como digressões de personagens. Para quem não sabe, as digressões são momentos em que os personagens “pensam em voz alta”, ou “filosofam”, ou “fazem reflexões”. Isso, na cátedra literária, é considerado “gordura”, algo que não acrescenta em nada e só serve para encher linguiça, segundo as oficinas de contos e prosa. Contudo, eu discordo com essas regras. Penso que é  exatamente no momento da digressão que conhecemos mais tanto o autor quanto os personagens. Seja numa metáfora, ou numa analogia do mundo da história com o mundo real é onde se encontram os diálogos mais memoráveis de todos. Principalmente no mundo dos quadrinhos, a digressão não é gordura, mas uma forma de buscarmos as marcas autorais numa história e uma forma de ela falar mais alto para os leitores. É, como dito acima, onde encontramos a autoralidade do autor, a literariedade de uma história em quadrinhos, as marcas de estilo que nos fazem identificar uma idiossincrasia. Ou seja, foi o que fez toda a diferença entre um quadrinho feito por um estadunidense e por um britânico e que revolucionou toda a indústria dos comics na época. 

Neil Gaiman e Garth Ennis são dois nomes que são exegeses na digressão. E, não por acaso, estão sendo extremamente festejados pelo público e pela crítica com as adaptações em streaming de suas histórias em quadrinhos. Gaiman, por exemplo, produz diálogos elevados, que nos fazem compreender a vida, o mundo e tudo mais. Em Sandman ele nos faz pensar “é verdade, já passei por isso, isso realmente me toca e me faz pensar melhor como vou agir na próxima vez”. Por outro lado, temos Garth Ennis que revolve o lixo do mundo e ao fazer isso acabamos vendo todos os pedaços que compõem os dejetos. Ao ler Preacher ou ainda a sua fase em Hellblazer, quem sabe até em The Boys, ele nos faz pensar “puta que pariu, esse cara tá falando que é assim e é assim mesmo, por que eu nunca parei pra pensar nisso? Que mundo de merda!”. Mas é através delas que entendemos melhor os personagens porque eles acabam se aproximando da gente. Entendemos o drama de Rose Wilson e seu amigo que está morrendo com HIV. Entendemos o porquê de Constantine, depois de perder pra sempre seu maior amor preferiu viver nas ruas como um mendigo.

Volto, então, para um dos temas do título desta coluna, a tal “virada literária”. Uma virada, em termos acadêmicos, acontece na sociedade quando a maioria das pessoas passa a assumir um novo paradigma na forma como vê ou analisa um objeto. Não vou entrar aqui nas filosofias de Popper e Kuhn para explicar e debater paradigmas, quebras de paradigmas, crises e o estado da ciência. Mas vou usar o termo virada para definir como foi importante para os quadrinhos (de super-heróis) atingir outro patamar na cultura, as contribuições da Invasão Britânica e, em especial, de Neil Gaiman, para que os olhos do público, da crítica e das pessoas que não tem nada a ver com quadrinhos “se virassem” para a literariedade da coisa. Sandman foi um marco, portanto, uma “virada literária” dos quadrinhos para uma profundidade de conteúdo e por que não dizer, filosófica, sobre o que se pensava antes sobre as possibilidades dos quadrinhos de super-heróis e desta mídia em geral. 

Vamos torcer para que a adaptação para o streaming pela Netflix traga algumas dessas literariedades para a série e que seja, dentro das possibilidades, tão impactante quanto foram os quadrinhos de Sandman. Aproveito para convidar o leitor desta coluna a conhecer ou reler o texto que fiz anteriormente sobre Sandman, relacionando questões de gênero com o horror.

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando é roteirista, quadrinista, publicitário e designer gráfico. É Mestre em Memória Social e Bens Culturais, Especialista em Imagem Publicitária e Especializando em Histórias em Quadrinhos. É autor dos livros ‘Loja de Conveniências’ e ‘Vemos as Coisas Como Somos’. Também é autor dos quadrinhos ‘Desastres Ambulantes’, ‘Sigrid’, ‘Bem na Fita’ e ‘Só os Inteligentes Podem Ver’.
Foto: Iris Borges

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