Maiara Alvarez: Pergunto a Nísio se é possível pôr em palavras

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio sobre reprodução

Enquanto a nona senta na mesa, a mãe serve o café. Com leite, mas é leite que não é de vaca, e tudo bem por hoje. A mãe não é bem minha mãe, mas eu chamo e considero um pouco minha, já que sempre foi a pessoa mais gentil, desde a primeira vez que eu apareci por aqui, bem metida da cidade grande (ou o quão grande pode ser a junção de ter vivido em vários lugares). O grostoli é novinho, tem cheirinho de chuva, de bolinho de chuva. A mesa está posta com as louças do casamento da nona. Eu ainda sou visita. Mas já sou visita de casa, então ninguém precisa ou se arruma com roupa de missa pra me receber e eu gosto mais assim.

A mãe, por exemplo, nunca fez grande caso com as coisas estranhas que eu como. Nada de pururuca ou churrasco de domingo, nada de pien ou capeletti de carne. Pra ela não é problema, ou melhor, é um pouco de problema, eu suspeito, mas ela não admite. Inventa mil molhos, saladas e legumes assados e serve sempre um tortéi saboroso. Final de semana aqui é sempre de pança cheia.

Agora é a hora do café da tarde, que é como a gente engana a barriga entre o almoço e a janta. Não sei o que querem dizer com enganar a minha barriga, que parece saber exatamente o que está acontecendo, e ronrona ainda que cheia, aguardando o doce sabor do grostoli molhado de café, depois que eu enfio a mão dentro da xícara e levo a gostosura à boca, fazendo honra ao verbo potchar.

O interior do meu interior fica na serra, entre dois lajeados, embora eu nunca tenha visto os tais lajeados, mas tenha atestado a existência do pequeno paraíso. Eu chego e noto automaticamente a exclusão das várias fonéticas possíveis da letra erre e suas combinações. Basta uma pronúncia para abarcar bergamota, o carro e a areia.

Ela disse que parecia estar mais calmo, esperava que continuasse assim. A cozinha também servia de sala e tinha o tamanho de cinco carroças, mais ou menos.

As imigrantes que medem o espaço em carroças e o tempo em ciclos da natureza e a dor em perdas seguidas são as mesmas pessoas que escondem o segredo do que não entendem ou do que não aceitam. Quando abro o livro de Emir Rossoni, Domanda Nísio, e percorro seus contos, penso o quanto precisava desse ponto de vista honesto, verdadeiro, original e originário, e poético.

Era como se eu tivesse a esperança de que, numa dessas idas eu o encontrasse novamente, mas sem a corda em volta do pescoço, fazendo qualquer outra coisa, mas sem a corda em volta do pescoço. […] se bem me lembro, as pessoas falando do sucesso do enterro, descrevendo cada pessoa que lá estava, cada pessoa e a roupa que vestia.

Quando cheguei na Serra Gaúcha, eu sabia no máximo dos sabores que povoam o início dessa resenha e dos estereótipos que povoam tanto os preconceitos quanto os conceitos devidamente empíricos de quem não é de lá, assim que se pisa a terra úmida em que todas as uvas crescem.

[…] mas em Bassano era assim mesmo, quando a moça estava grávida, era preciso que acontecesse o casamento, e a expressão remontava a um casamento a contragosto, o homem casaria para reparar um dano e a mulher casaria para não ficar mal falada, como se já não o estivesse sendo, mas depois da cerimônia, da festa e de um ano ou dois, ninguém mais lembraria do fato, o contrário do que aconteceria se não casassem.

Eu, que vinha do cesto, mas não das entranhas da imigração alemã, me assustei ao constatar o quanto o sangue italiano corre mais forte. Pra quem é de fora como eu, os arranjos familiares soam quase como máfias: até você estar dentro, você está fora. Por isso, em geral, reside junta, sob o mesmo teto ou terra: um andar no mesmo sobrado, ou uma casa no mesmo terreno, pra cada geração.

Mas isso é a família propaganda de festa do vinho ou da uva. A família brasileiro-italiana mesmo se esconde em cidades ainda menores, ainda mais belas, ainda mais bucólicas (palavra que só entendi a beleza do significado entre os vai e vens das estradas em curva). Leio o povo colono, que cunhou uma língua nova no sul do Brasil ao combinar as suas origens com o que criou na terra nova. Leio o que inventou Emir Rossoni ao descrever o que talvez tenha vivido, talvez tenha nascido, talvez tenha deixado. Leio o que conheci, nas mesas de entrada dos bailes das picadas.

[…] para o casamento foram compradas bebidas de todos os tipos, uísque Natu Nobilis, conhaque Dreher, Campari, Amarula, vermute Contini, licor creme de menta Stock, e todas as bebidas foram consumidas antes do amanhecer.

Minha mãe que não é exatamente minha mãe, aliás, domina como ninguém a arte de fazer um licor de fruta. A nona domina a terra como ninguém, e já o fazia enquanto a filha se encaminhava com outras margaridas para lutar em Brasília. Enquanto o filho foi morar lá pra sempre, até voltar. No fim, me pergunto o que o vento vai destruir e o que nunca vai. Numa resenha clichê como essa, me atrevo a olhar pela janela, suspeitando que, estando a quatrocentos e cinquenta metros acima do nível do mar, estou mais perto do céu.

Olhou por um tempo a sua obra até se distrair e ser traído por um vento vindo do sul que soprou, soprou forte igual a todos os ventos vindos do sul e desmontou as casas e as pessoas, deixando apenas gravetos desuniformes espalhados por sobre a terra úmida.

Emir Rossoni nasceu em Nova Bassano (RS) em 1975. Mestre em Escrita Criativa, é autor de Caixa de guardar vontades, vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2018 e finalista do Prêmio AGES. Também foi finalista dos prêmios SESC de Literatura em 2016 e Açorianos de Criação Literária em 2013, ambos com livros de contos. Domanda Nísio, também livro de contos, foi vencedor do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura em 2018.

Domanda Nísio
Emir Rossoni
Contos
120 p.
14 x 21 cm
978-85-69708-35-3
R$ 42
Telucazu Edições
Compre aqui

Maiara Alvarez é bacharel em Jornalismo e especialista em Leitura e Produção Textual. Conta histórias desde que aprendeu a repeti-las de forma oral. Foi criança que inventou palavras. Jovem, notou que poderia criar algo maior. Trabalhou no terceiro setor, participando de eventos literários e escrevendo projetos, um deles premiado nacionalmente. Escreve, edita e fotografa. Atua com revisão desde 2011, com jornais, relatórios, produções acadêmicas e ficção, e hoje ministra uma oficina na área.
Foto: Acervo pessoal

Apoie Literatura RS

Ao apoiar mensalmente Literatura RS, você tem acesso a recompensas exclusivas e contribui com a cadeia produtiva do livro no Rio Grande do Sul.

Literatura RS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s