Deivison Campos: Cancelado, morto, amordaçado, volta a incomodar

Edição: Vitor Diel
Arte: Giovani Urio

A obra de Lima Barreto me intriga e interessa desde o final dos anos 90 quando li, com mais atenção, Os Bruzundangas (L&PM, 1998). Trata-se de um texto sarcástico e crítico às relações sociais e à elite brasileira que, passado quase um século de sua publicação póstuma, em 1922, soa como atual. A ruptura do silenciamento e das sombras em que sua obra foi lançada, com exceção de Triste fim de Policarpo Quaresma, se deu com os protestos pela valorização da cultura e produções negras na esteira das conquistas do movimento social. Seu lugar foi restabelecido sob críticas e protestos que tem como marco a participação de Conceição Evaristo na Flip de 2016 e a consequente homenagem que o autor recebeu no ano seguinte no evento, o mesmo da publicação da biografia produzida por Lilia Schwarcz (Triste visionário, Cia. das Letras, 2017).

A recente re-atribuição da data de publicação de um artigo publicado por Barreto na revista Careta sobre os Futuristas (modernistas) agrega novos elementos ao que já se pressupunha. O autor foi cancelado pelos modernistas paulistas capitaneados por Mário de Andrade. Luiz Ruffato, num artigo da revista rascunho de dezembro passado, corrigiu a data de publicação do artigo A esthetica do Ferro que se imaginava de 1907 foi publicado em 05 de agosto de 1922. Duas semanas antes, Barreto havia publicado um texto em que dizia de sua rejeição ao Futurismo, ligado ao poeta italiano Marinetti.

Os artigos foram publicados depois de Lima Barreto ter acesso a revista Klakson, nº 3, porta-voz dos modernistas de 22, por intermédio de Sérgio Buarque de Holanda. Em nenhum dos dois textos há críticas aos que denomina “jovens escritores paulistas”. No artigo reinserido em sua temporalidade, Barreto critica e debocha do português Antônio Ferro, ligado ao futurista italiano, que estava em turnê pelo Brasil, e cujo manifesto Nós havia sido publicado na revista. Em seu texto, Barreto ironiza que “Agora aparece um cidadão ultramar que se diz inovador e criador de uma nova escola literária. Leio-lhe os escritos e procuro a novidade. Onde está ela? Em parte alguma.” Tanto Ferro como Marinetti eram referência do grupo.

Na edição seguinte da Klakson, em nota não assinada, o autor é chamado de “escritor de bairro” que armado de navalha “desembocou duma das vielas da Saúde, gentilmente confiado nas suas rasteiras”. Depois disso, não falariam mais sobre o acontecido, mesmo com a morte repentina de Lima Barreto em novembro daquele ano de 1922. Retomada a importante e inquietante descoberta de Ruffato, recomendo a leitura de seu texto para quem ainda não o fez (link externo).

A crítica de Barreto à estética futurista e a consequente rejeição de uma arte “de sangue europeu” não seria perdoada. Com a predominância cultural dos modernistas, a narrativa vencedora deixaria a obra de Barreto amordaçada. Duas décadas depois da morte do escritor, em artigo na revista Clima sobre a produção da geração de 30, Mário de Andrade refere que a escola reforçava o “péssimo sintoma psicológico nacional” do espírito de desistência cuja origem poderia ser buscada “num Dom Casmurro, por exemplo, ou sistematicamente num Lima Barreto” (in: Aspectos da Literatura Brasileira, SP: Martins, 1974). No mesmo período, em O movimento modernista (idem), diz que desconhecia qualquer referência precursora do Rio de Janeiro, além de Manuel Bandeira, e posteriormente Adelino Magalhães e Nestor Vítor.

Apesar da Literatura reconhecer Lima Barreto como um pré-modernista, Mário de Andrade o manteve no lugar em que havia sido colocado décadas antes. Esta é a questão que me interessa refletir. Não se trata de um questionamento a Mário de Andrade, mas observar como a elite, acenando com a promessa de branqueamento, se utilizou das fragilidades do modernista para sepultar Lima Barreto e amordaçar sua obra. Entenderam que o lugar ocupado por Mário de Andrade na cultura brasileira conferiria credibilidade estética à negação. Entusiasta do projeto de nação da Revolução de 30, erguido sob o mito da democracia racial e acreditando na mestiçagem como brancura, questionava-se, conforme suas correspondências, como intelectual e artista, além de não admitir ser negro. Sua negação em verdade tratou-se de um golpe no espelho.

Como validar um escritor negro que escrevia a partir de sua negritude? Reconhecê-la naquele momento seria construir um lugar que foi convencido culturalmente que não existia e que, por isso, lhe foi negado – podendo estar na origem de sua fragilidade. Então, aprofundando seu Negro Drama (Oswaldo de Camargo, Ciclo Contínuo, 2018), Mário de Andrade manteve a negação do valor da obra de Lima Barreto, utilizando-a como um exemplo negativo de escrita mesmo passadas duas décadas de sua morte. Observa-se aqui que colocar negros contra negros na esfera pública a fim de deslegitimar a negritude não é uma invenção contemporânea do Big Brother. É uma estratégia recorrente do colonialismo e dos grupos de poder para o silenciamento do protesto negro, seguindo o lema Dividir para dominar (H.L. Wesseling, UFRJ, 1998).

No entanto, quem existe na tradição não é esquecido enquanto seu nome for lembrado. O de Lima Barreto foi mantido em lamanentos pelo movimento negro e pela circulação do premonitório O Triste fim de Policarpo Quaresma. Evocado pela voz potente de Conceição Evaristo, mesmo cancelado, morto e amordaçado por quase um século depois de sua morte (sempre lembro da cinta removível utilizada na edição de Lima Barreto, Triste visionário – Cia das Letras, 2017), volta a incomodar pela atualidade de sua crítica à sociedade e às relações sociais brasileiras. Chegará mais vivo ao centenário de sua morte em 2022 do que no dia em que morreu, pois estava cancelado. Na esteira de Oswaldo Camargo, busca-se agora promover o encontro de Mário de Andrade com sua negritude.

P.S. o título e o tom do texto referem a música Revelação, de Clodo e Clésio.

Deivison Moacir Cezar de Campos é jornalista, doutor em Ciências da Comunicação e doutorando em História. Professor do PPG em Educação e dos cursos de Comunicação da Ulbra. É pesquisador vinculado aos grupos de Comunicação e Mídia da ABPN; Estéticas, Políticas do Corpo e Gênero da Intercom. Integra o Coletivo Casa de Joana – afro-empreendedorismo e cultura negra, e é conselheiro de Cultura de Canoas. Ritmista da União da Vila do Iapi, cultiva um amor tátil pelos livros.

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